A reabilitação para dependência química costuma ganhar destaque quando envolve celebridades ou casos que repercutem nas redes sociais. Mas, fora dos holofotes, muita gente ainda se pergunta como realmente funciona o tratamento em clínicas especializadas e em que situações a internação é indicada.
Do ponto de vista médico, a dependência química é considerada um transtorno que afeta o funcionamento do cérebro e o comportamento. Por isso, o tratamento envolve diferentes etapas e costuma exigir acompanhamento contínuo.
Segundo o psiquiatra André Botelho, do Hospital Sírio-Libanês, em Brasília, o termo mais usado atualmente na medicina é transtorno por uso de substâncias.
“Ele se caracteriza por perda de controle sobre o consumo, com uso compulsivo ou muito difícil de interromper, mesmo quando a pessoa já enfrenta prejuízos claros na saúde, no trabalho ou nas relações pessoais”, explica.
De acordo com o especialista, a dependência não deve ser vista como falta de força de vontade, mas como uma condição clínica associada a alterações em circuitos cerebrais ligados à recompensa, ao estresse e ao autocontrole.
“Dizer que é uma doença não tira a responsabilidade do paciente pelo cuidado, mas ajuda a entender que o tratamento precisa ser técnico, contínuo e sem estigma”, ressalta.
Quando a internação é indicada?
Nem todos os pacientes precisam ser internados. Em muitos casos, o tratamento pode ocorrer de forma ambulatorial, com consultas e acompanhamento regular.
A internação costuma ser indicada quando o quadro é mais grave ou quando há riscos à saúde ou à segurança do paciente. Botelho explica que isso pode acontecer em situações de abstinência potencialmente perigosa, intoxicações repetidas, presença de transtornos psiquiátricos associados ou quando o ambiente familiar favorece o uso da substância.
“A internação não significa tratar melhor, e sim tratar no nível de cuidado adequado para aquele momento”, diz.
O psiquiatra Aluísio Andrade, do Hospital São Domingos, em São Luís, afirma que existem diferentes formas de internação.
Uma delas é a voluntária, quando o próprio paciente decide buscar tratamento. Também há a modalidade involuntária, quando a família solicita a internação diante de riscos importantes relacionados ao uso de drogas. “Há ainda a internação compulsória, determinada por decisão judicial em situações específicas”, aponta.
Etapas do tratamento
O tratamento da dependência química costuma envolver diferentes fases, que podem ocorrer ao mesmo tempo ou de forma progressiva. A primeira delas, quando necessária, é a estabilização clínica e o manejo da abstinência.
A etapa é especialmente importante em casos de uso intenso de álcool ou certos medicamentos, em que a interrupção abrupta pode provocar complicações graves. “A desintoxicação resolve a fase aguda, mas sozinha não trata a dependência”, ressalta Botelho.
Depois dessa fase inicial, o foco passa a ser o tratamento da dependência em si. Isso pode incluir psicoterapia, acompanhamento psiquiátrico, intervenções familiares e participação em grupos terapêuticos.
Em alguns casos, também podem ser utilizadas medicações específicas que ajudam a reduzir o desejo pela substância ou a prevenir recaídas.
Outra etapa importante é a reorganização da rotina do paciente, com mudanças nos hábitos de vida, nas relações sociais e no ambiente em que ele vive.
A fase seguinte envolve estratégias de prevenção de recaídas. O objetivo é identificar gatilhos que estimulam o uso da substância, reconhecer sinais precoces de piora e fortalecer o suporte familiar e social.
Quanto tempo dura o tratamento?
O tempo de tratamento pode variar bastante de acordo com o quadro de cada pessoa. Segundo Andrade, em clínicas de reabilitação o período de internação costuma durar, em média, cerca de 40 dias, embora possa ser maior dependendo da evolução do paciente.
Após a alta, o acompanhamento continua de forma ambulatorial ou em regimes intermediários, como hospital-dia, em que o paciente participa de atividades terapêuticas durante o dia e retorna para casa à noite.
Diversos fatores podem influenciar o processo de recuperação. Entre eles estão o estado de saúde do paciente, a presença de outras doenças, a adesão ao tratamento e o ambiente em que a pessoa vive.
“A motivação do paciente e o contexto em que ele retorna após o tratamento fazem muita diferença no processo de recuperação”, explica o psiquiatra.
Por isso, especialistas destacam que a reabilitação não se resume ao período de internação. O acompanhamento a longo prazo e o apoio familiar costumam ser fundamentais para manter a recuperação e reduzir o risco de recaídas.