Durante a maior parte de sua história sob o comando do falecido cofundador Steve Jobs, a Apple foi definida por gadgets de consumo caros como Macs, iPods, iPhones e iPads.
Desde a fundação da empresa até a morte de Jobs, em 2011, o centro de gravidade dentro da Apple praticamente não mudou: tudo girava em torno de hardware com design impecável, que levava consumidores a fazer fila no dia do lançamento.
A era Tim Cook na Apple expandiu esse modelo, em vez de virá-lo de cabeça para baixo. Agora que Cook deixará o cargo de CEO para se tornar presidente do conselho da empresa, o vice-presidente sênior de engenharia de hardware John Ternus assumirá em setembro com um novo desafio.
O novo CEO herdará não apenas a estratégia centrada em gadgets consolidada desde a era de Steve Jobs, mas também a camada que Cook adicionou a esse modelo: um ecossistema de mídia que abrange música, TV, filmes e jornalismo.
O legado de Tim Cook à frente da Apple
A gestão de Tim Cook transformou profundamente a fabricante do iPhone. A ponto de a Apple hoje ser uma das empresas de mídia mais importantes do mundo, graças a serviços como Apple Music e Apple TV+ (anteriormente chamado apenas de Apple TV).
Com a repercussão da transição no comando da Apple e o início das avaliações sobre o legado de Tim Cook, esse deve se destacar como um dos traços mais evidentes – e, ao mesmo tempo, talvez um dos mais subestimados – de sua gestão.
Em parte, isso se explica pelo fato de Tim Cook ter posicionado a empresa como uma alternativa focada em privacidade frente a rivais movidos por publicidade.
A reinvenção da Apple sob a gestão de Tim Cook
A seguir, relembramos o impulso liderado por Cook para transformar a Apple em uma força relevante na mídia.
Apple Music
Comecemos pelo Apple Music. No papel, o serviço foi a resposta imediata da Apple à ascensão do Spotify. Mas acabou sendo mais estratégico: uma forma de manter os usuários dentro do universo da Apple muito depois da compra do hardware.
Também representou uma grande mudança para a empresa quando foi lançado, em 2015, já que a mesma Apple que popularizou a compra de músicas individuais por US$ 0,99 passou a vender acesso a um vasto catálogo de faixas.
A empresa foi além do Spotify ao trazer nomes como Zane Lowe para conduzir entrevistas com artistas e programas de rádio ao vivo. Para ampliar o alcance, essas conversas costumam ser levadas ao YouTube – como no bate-papo recente de Lowe com o BTS sobre o álbum de retorno Arirang, que já se aproxima de 4 milhões de visualizações.
Apple TV
Com o Apple TV+, a Apple não tentou superar a Netflix em volume. Em vez disso, seguiu um caminho mais próximo ao da HBO: poucos lançamentos, foco em prestígio e apostas culturais de grande impacto. O serviço foi lançado em 2019 e, poucos anos depois, já acumulava sucessos capazes de se destacar em meio à saturação do streaming – incluindo séries premiadas como “Ted Lasso” e “Severance”.
“Ted Lasso” foi o primeiro grande sucesso televisivo do Apple TV+, acumulando bilhões de minutos assistidos nos EUA, segundo dados da Nielsen. Já “Severance” eventualmente superou esse marco, de acordo com a Apple, que promove o drama distópico sobre ambiente de trabalho como sua série mais assistida de todos os tempos (embora a empresa não divulgue números de audiência no estilo da Netflix).
Entre os novos lançamentos do Apple TV+ está o já disponível “Margo’s Got Money Troubles”, com um elenco estrelado que inclui Elle Fanning e Michelle Pfeiffer. A série policial “Lucky”, estrelada por Anya Taylor-Joy, e o thriller “The Savant”, protagonizado por Jessica Chastain, devem chegar em breve à plataforma.
Desde o lançamento, o serviço de streaming da Apple acumulou centenas de prêmios e indicações importantes, incluindo 81 indicações ao Emmy em 2025. No cinema, o Apple TV+ se tornou o primeiro serviço de streaming a conquistar o principal prêmio de Hollywood: o Oscar de Melhor Filme em 2022, com o drama CODA, consolidando a Apple como um grande player na indústria audiovisual.
O drama de corrida “F1”, estrelado por Brad Pitt e lançado pela Apple em 2025, foi o primeiro grande sucesso inequívoco de bilheteria da empresa, arrecadando cerca de US$ 634 milhões globalmente até o momento.
Apple News
A Apple não produz o jornalismo disponível dentro do app Apple News. Ela agrega e distribui esse conteúdo, posicionando-se entre publishers e leitores de uma forma que exerce grande influência sobre como as notícias são consumidas.
Em conjunto, todos esses serviços garantem à empresa uma presença diária na forma como as pessoas escutam, assistem e leem. E, quando reunidos em pacotes de assinatura como o Apple One, tornam-se uma oferta de mídia poderosa, totalmente integrada ao ecossistema da Apple.
Essa é uma parte essencial da Apple que Cook em breve entregará a John Ternus: não só uma empresa que vende dispositivos, mas que, cada vez mais, molda o conteúdo que circula por esses dispositivos.
Cook fez o anúncio formal de sua transição em uma carta de despedida, na qual descreveu sua trajetória como a oportunidade de uma vida, uma jornada em que se tornou “líder de uma empresa que desperta a imaginação e enriquece vidas de maneiras tão profundas que desafiam qualquer descrição. Que honra e privilégio foi.”
*Andy Meek é colaborador da Forbes USA. Ele é um jornalista com mais de duas décadas de experiência cobrindo o cenário da mídia, desde o dia a dia de um jornal impresso tradicional até o ritmo acelerado do universo digital.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com