Seja Bem Vindo - 23/04/2026 07:23

Conheça o Futuro da Cannabis Medicinal no País

“Nós nascemos com uma ambição que vai muito além da cannabis. Nosso foco é criar uma jornada de cuidado para doenças crônicas, e isso inclui obesidade, sono e metabolismo.”

A frase de Allan James Paiotti, 54 anos, biólogo geneticista, analista de sistemas e cofundador da Cannect, não é apenas uma declaração de intenção. Ela delimita um reposicionamento estratégico em um mercado que começa a ganhar escala no Brasil, e que, aos poucos, deixa de ser sobre produto para se tornar sobre sistema.

Criada no fim de 2021, a Cannect estruturou um modelo que conecta pacientes a uma rede independente de 11 mil médicos, ao mesmo tempo em que opera um marketplace de medicamentos à base de cannabis e incorpora testes genéticos à jornada clínica. O desenho inicial já indicava ambição. O movimento atual amplia o escopo.

Paiotti conduz a empresa para além da cannabis como eixo central. O que emerge é uma plataforma que começa a integrar diferentes frentes terapêuticas, em linha com uma transformação mais ampla da medicina global, cada vez menos fragmentada e mais orientada à continuidade do cuidado.

Na prática, essa mudança se traduz na construção de protocolos combinados. A empresa passa a associar canabinoides a moléculas como a tirzepatida, base de medicamentos como o Mounjaro, hoje um dos ativos mais relevantes no tratamento da obesidade crônica.

A lógica não é substituir terapias, mas reorganizá-las. O objetivo é construir uma jornada contínua, com maior aderência e, sobretudo, mais acessível do que o modelo tradicional concentrado em prescrições isoladas e canais fragmentados.

Esse movimento ocorre em um mercado que ainda busca escala, mas já começa a ganhar contornos econômicos mais claros. Em 2025, a cannabis medicinal movimenta cerca de R$ 971 milhões no Brasil, aproximando-se da marca de R$ 1 bilhão, segundo a consultoria Kaya Mind. O potencial estimado, no entanto, chega a R$ 9,5 bilhões, um descompasso que revela mais sobre as barreiras do que sobre a demanda.

Crescimento no mercado de cannabis medicinal

Morsa Images/Getty ImagesMedicamento a base de cannabis

Os números da Cannect acompanham essa trajetória de crescimento. A empresa saiu de cerca de R$ 400 mil em volume transacionado em 2021 para próximo de R$ 60 milhões. A projeção de avanço de 25% neste ano indica um faturamento ao redor de R$ 75 milhões, ainda distante do teto de mercado, mas suficiente para consolidar presença em um setor em formação.

A leitura de Paiotti é que o mercado tende a passar por depuração. “O setor vai se depurar.”

O capital já começou a se posicionar. A empresa atraiu aportes de fundos como Supera Capital, BlueStone e a canadense Yaax Capital, somando R$ 15 milhões em 2023. Mais do que o volume, o dado relevante é o perfil: investidores que apostam na construção de plataformas, e não apenas na distribuição de produtos.

A operação segue essa lógica. Com sede na Vila Olímpia, em São Paulo, a Cannect mantém cerca de 60 colaboradores e opera com dois hubs logísticos internacionais, na Flórida e em Lisboa, estruturados para reduzir o tempo entre prescrição e acesso ao tratamento.

No Brasil, a empresa avançou um passo além ao inaugurar uma farmácia dedicada à cannabis medicinal em Maringá (PR). Formalmente, trata-se de uma farmácia tradicional, com farmacêutico responsável e estoque regulado. Na prática, é um ponto de inflexão: nasce já especializada em um segmento que ainda busca padronização.

A viabilização do modelo passou por uma engenharia regulatória. A parceria com a farmacêutica Belcher, que já detinha estrutura aprovada pela Anvisa, permitiu acelerar a operação.

“Foi uma forma de testar o modelo e ganhar velocidade”, afirma Paiotti.

A localização, nesse caso, é secundária. A dispensação remota elimina a dependência geográfica, e reforça o caráter digital da operação. A abertura de uma base em São Paulo segue em estudo, mas não é, por ora, determinante.

Cannabis como porta de entrada, e não destino final

Ekaterina Demidova/Getty ImagesPaciente com medicamento à base de cannabis

O ponto de partida da estratégia não está no produto, mas no comportamento do paciente. “Quase 70% dos pacientes crônicos abandonam o tratamento”, diz Paiotti.

É esse dado que sustenta a tese central da empresa. O problema estrutural da saúde não é apenas acesso, é continuidade. Nesse contexto, a cannabis deixa de ser um fim e passa a operar como vetor de entrada em uma jornada mais ampla.

A incorporação de moléculas como a tirzepatida reforça essa transição. Desenvolvida originalmente para diabetes tipo 2, a substância rapidamente ganhou espaço no tratamento da obesidade, tornando-se um dos ativos mais disputados da indústria farmacêutica global.

Ao combiná-la com protocolos que incluem cannabis, a Cannect atua em múltiplas camadas: metabolismo, controle de dor, qualidade do sono e estabilidade emocional. Dimensões que, isoladas, raramente sustentam resultados. Integradas, aumentam a probabilidade de adesão.

Um mercado em expansão, mas ainda travado

O avanço dessa lógica ocorre em um ambiente que cresce. Além da Cannect, também está neste mercado empresas como HempMeds Brasil, GreenCare Pharma e própria Belcher. No entanto, em comum a todas, estão entraves relevantes.

O Brasil soma cerca de 873 mil pacientes em tratamento com cannabis medicinal em 2025, alta de 30% em relação ao ano anterior. Ainda assim, o número representa apenas uma fração do universo potencial.

A limitação não está apenas na oferta, mas na prescrição. Em um país com mais de 635 mil médicos, menos de 1% utiliza cannabis de forma recorrente na prática clínica.

O resultado é um mercado que avança em ritmo inferior ao seu próprio potencial econômico, travado por uma combinação de barreiras regulatórias, culturais e técnicas.

A lógica econômica por trás dos novos protocolos

É nesse desalinhamento que a estratégia da Cannect encontra espaço.

Ao integrar diferentes terapias em um único ecossistema, a empresa altera a equação de custo. Não se trata de baratear o medicamento, mas de reduzir o custo total da jornada.

“Não adianta tratar uma única dimensão do problema.”

No caso da obesidade, essa abordagem se torna particularmente relevante. A combinação entre tirzepatida e cannabis permite atuar simultaneamente sobre apetite, inflamação, sono e comportamento, fatores que, tratados de forma isolada, elevam custo e reduzem eficiência.

Há ainda um componente estrutural incontornável: a renda média brasileira, próxima de R$ 3,3 mil mensais. Em um ambiente de restrição de renda, a ampliação de acesso passa menos por desconto e mais por reorganização do cuidado.

Expansão para novas fronteiras terapêuticas

A obesidade é apenas uma das frentes. “A cannabis é só a porta de entrada.”

A empresa já avança na incorporação de cogumelos funcionais em protocolos voltados à saúde mental, sono e metabolismo, áreas que orbitam o mesmo núcleo das doenças crônicas.

O movimento acompanha uma tendência internacional de consolidação das terapias integrativas, nas quais abordagens farmacológicas e naturais deixam de competir e passam a coexistir dentro de uma mesma estratégia clínica.

Regulação, acesso e dependência externa

O ambiente regulatório segue como variável crítica.

Hoje, o acesso à cannabis medicinal no Brasil ocorre majoritariamente por importação, farmácias autorizadas e associações de pacientes. A produção nacional ainda é limitada, o que mantém o país dependente de fornecedores externos.

Há sinais de avanço institucional, mas persistem incertezas relevantes, especialmente em torno do cultivo, da incorporação ao sistema público e da cobertura por planos de saúde.

Entre produto e plataforma de saúde

O movimento da Cannect não é isolado. Ele antecipa uma transição mais ampla.

O mercado de cannabis medicinal, que nasceu centrado no produto, começa a migrar para um modelo orientado por plataforma. Nesse novo desenho, o valor não está apenas no medicamento, mas na integração entre dados, acompanhamento e múltiplas terapias.

A cannabis, nesse contexto, perde centralidade. Ganha função. Deixa de ser destino. Passa a ser ponto de partida.

“Precisamos superar o preconceito e educar o mercado. Hoje, falamos apenas com o ‘topo da pirâmide’. No Brasil, temos 70 milhões de pessoas com dor crônica. Se focássemos apenas nesse grupo, o mercado de cannabis medicinal poderia crescer 70 vezes.”



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