Primeira mulher a assumir a vice-presidência do COB (Comitê Olímpico do Brasil) em mais de um século de instituição, Yane Marques construiu uma trajetória guiada pelo ineditismo. “Não sabia que seria a primeira mulher no cargo quando venci a eleição. Assim como não sabia que seria a única quando ganhei minha medalha olímpica. Foi acontecendo”, afirma a pernambucana em entrevista à Forbes Brasil. Até hoje, ela detém o título de única atleta da América Latina a conquistar uma medalha olímpica no pentatlo moderno — o bronze em Londres 2012 —, uma modalidade que envolve natação, esgrima, corrida, tiro esportivo e hipismo.
Aposentada das competições desde 2016, Yane migrou das piscinas, pistas e arenas para os bastidores da gestão esportiva com um mote claro: abrir portas para as novas gerações de mulheres. “É uma responsabilidade grande sobre esses ‘ombros magros’, mas que suportam o peso muito bem”, brinca. “A minha fala é sempre de encorajamento: ‘Não me deixem só. Venham comigo’.”
Desde que assumiu a cadeira no COB, em janeiro de 2025, para o ciclo de quatro anos, sob a gestão do presidente Marco Antonio La Porta, ela tem sido uma voz ativa no incentivo de políticas de equidade no esporte, como a cota que exige 30% de presença feminina nas equipes multidisciplinares em missões internacionais. “É uma forma de fazer com que as confederações busquem e encontrem talentos que, às vezes, só precisam de um empurrão.”
Com o olhar voltado para os próximos ciclos olímpicos e a meta de ampliar ainda mais a presença feminina na tomada de decisão, Yane já mira uma reeleição em 2028. “Quero que nosso trabalho, compromisso e responsabilidade sejam retribuídos com bons resultados e que as pessoas percebam esse esforço e carinho de fora, independentemente das medalhas que vierem.”
A seguir, a vice-presidente do COB relembra seus primeiros passos na carreira de atleta, reflete sobre os bastidores da liderança e compartilha sua visão sobre o futuro do esporte feminino e brasileiro.
Forbes: Você é a primeira mulher no cargo de vice-presidente do COB. Como é ocupar essa posição e abrir portas para as novas gerações?
Yane Marques: O sentimento é de tentar mostrar para as mulheres que, se fizermos por merecer, as coisas acontecem. E por que não mostrar aos homens também que estou aqui porque mereço, me capacitei e tenho muito a entregar? A partir do momento em que uma assembleia nos elege, isso é uma declaração de que eles confiam em uma mulher como vice-presidente. Faço uma parceria incrível com o La Porta, temos uma sintonia muito grande, baseada em respeito e confiança.
A minha fala é sempre de encorajamento: “Não me deixem só. Venham comigo”. Já percebo um pouco do reflexo disso em confederações, clubes e entidades, com mulheres e ex-atletas que se capacitam para a gestão esportiva. É uma responsabilidade grande sobre esses “ombros magros”, mas que suportam o peso muito bem.
Desde o início da sua carreira até hoje, quais foram as principais mudanças que você presenciou para as mulheres no esporte?
Hoje temos a manutenção do ranking para atletas que se tornam mães e precisam de um período sem treino para recuperação e retorno. Temos uma linha de atuação muito forte voltada para a capacitação, para que as mulheres possam escolher assumir funções estratégicas nas confederações e nos clubes.
Por meio de incentivos e aportes financeiros, cobramos a presença de 30% de mulheres nas equipes multidisciplinares das grandes missões no exterior. A partir do momento em que você convida, você está dizendo: “Confio em você e acredito no seu potencial”.
Lideramos esse movimento de encorajamento como entidade, indo a governos e ministérios para mostrar que há um caminho a ser percorrido e que precisamos “melhorar o asfalto” para facilitar a passagem. A receptividade tem sido muito boa. O impacto numérico exato vamos mensurar no futuro, mas percebo organicamente que estamos caminhando. Tenho certeza de que, daqui a pouco tempo, não precisaremos mais de fóruns sobre fomento e provocações de incentivo; estaremos apenas contando histórias bonitas de sucesso.
Quais aprendizados do esporte foram decisivos para formar a líder que você é hoje?
O esporte é uma escola para muitas coisas. Ele ensina a viver com intensidade e abnegação, a abrir mão de certas coisas em função dos seus sonhos. Sou uma pessoa muito difícil de desistir, vou até depois do fim. Mas, ao mesmo tempo, reconheço muito facilmente quando erro.
Entendo perfeitamente a importância do time e da colaboração. Cada pessoa tem o seu valor, poder e saber, que são essenciais para a coletividade. Trago muitos princípios do esporte para a minha vida como líder, seja de forma pensada ou natural: a simplicidade, o reconhecimento e a valorização. Para ganhar uma prova, precisei de muitas adversárias; e tive que reconhecer que, tantas vezes em que perdi, foi porque outras pessoas estavam melhores e treinaram mais do que eu. É preciso saber dar os parabéns e voltar para treinar mais.
Sempre falo para a minha equipe: todas as vezes que eu falhar, terei tranquilidade para reconhecer, mas saibam que o erro ocorreu na tentativa de acertar. Essa boa intenção, o jogo justo e o respeito são condições essenciais para uma liderança ser respeitada e abraçada.

De onde veio sua paixão pelo esporte?
Tive uma infância muito ativa. Sou do interior do sertão de Pernambuco, de uma cidade muito pequena. Cresci brincando na calçada, subindo e descendo de árvores. Sempre tive a oportunidade de estar em contato com o movimento. Aos 11 anos, fui para Recife e ali tive meu primeiro contato com o esporte mais organizado. Comecei na natação e depois migrei para o pentatlo.
Permiti que as coisas fossem acontecendo naturalmente na minha vida. Entrei no esporte porque amava nadar. Nadei por 8 anos, dos 12 aos 19 anos, com muito volume de treino diário. Aos 19, o pentatlo moderno chegou a Pernambuco, fui convidada a experimentar essa modalidade que ninguém conhecia e resolvi migrar. Tanto na natação quanto no pentatlo, sempre fui muito dedicada, envolvida e apaixonada. O incentivo dos meus pais e da minha família também me permitiu percorrer esse longo caminho de entrega tão intensa.
Quando você entendeu que seguiria carreira no esporte?
Ser atleta nunca foi um projeto de aspiração financeira para mim; eu não pensava “vou ser atleta para ganhar dinheiro”. Foi uma consequência. Peguei uma geração que hoje vive um incentivo muito maior do que quando comecei. Iniciei minha carreira vivendo uma história no esporte do Brasil e terminei vivendo outra.
Fui atleta do governo do estado de Pernambuco, do governo federal, do Time Petrobras, do Time Cisco e tive patrocínio de uma empresa de energia em Recife. Depois dos Jogos Pan-Americanos de 2007, consegui meus primeiros patrocínios que me deram uma condição de respirar, de ajudar a minha família e ficar mais confortável. Foi ali que percebi que era uma profissional naquilo.
Não treinava pelo dinheiro, treinava pela paixão e pelo desejo de evoluir e ganhar medalhas. A consequência foi o privilégio de poder me dedicar exclusivamente ao esporte graças a esses apoios, incluindo o Programa de Alto Rendimento das Forças Armadas. Foram incrementos que me deram tranquilidade para focar 100% na minha carreira.
Quais foram os principais desafios que você teve como mulher no esporte?
Não tenho muitas experiências em que o fato de ser mulher tenha me impedido de fazer alguma coisa. Talvez porque eu tenha sido muito desbravadora. O pentatlo moderno é uma modalidade com essência historicamente masculina — está nos Jogos desde 1912 para os homens, mas as mulheres só entraram no ano 2000. É um esporte que exige muitas valências físicas ao mesmo tempo. As pessoas nunca chegaram a me dizer “esse esporte não é para você”, mas sempre questionavam: “Como é que você faz um esporte desse?”. E eu dizia: “E por que não?”.
Ninguém ousou duvidar da minha capacidade.
Yane Marques
Hoje, essas nossas rodas de conversa e presenças em posições de liderança trazem um amadurecimento social para que ninguém mais ouse fazer esse tipo de pergunta a uma mulher. Apesar de dedicar minha vida a um esporte historicamente masculino, não tenho relatos de preconceito, descaso ou inferioridade. Sei que em outras modalidades isso acontece muito (especialmente nas premiações), mas no pentatlo não vivi essa diferença; o campeão mundial ganhava exatamente o mesmo cheque que a campeã mundial.

Qual foi o ponto de virada que te fez querer alcançar essas posições de liderança?
Quando entrei no pentatlo moderno, não sabia nem o que era, fui simplesmente convidada para esse mundo e topei. Quando planejei encerrar minha carreira nos Jogos Olímpicos de 2016 — competindo ainda um mês depois no Mundial Militar, que eu sabia que seria minha última prova —, eu tinha um acordo com a minha equipe técnica de que estaríamos juntos até aquele momento.
Ao fim daquela competição, voltei para casa com um sentimento enorme de realização profissional. O que eu sonhava para a minha carreira como atleta, eu realizei, inclusive subindo ao pódio no meu último Mundial Militar. Estava pronta para novos desafios.
E você já sabia que queria trabalhar com gestão esportiva?
Sabia que ia trabalhar com o esporte de algum jeito. Já era formada em educação física e pensava em usar aqueles primeiros meses de aposentadoria para construir algo. Fundei meu instituto, queria trabalhar com iniciação esportiva ou ser treinadora. De repente, fui convidada para ser secretária executiva de esportes em Recife. Foi um desafio que transformei em oportunidade. Não estava nas minhas opções iniciais para o pós-carreira, mas me permiti experimentar.
A máquina da prefeitura é muito complexa, então aprendia algo novo todos os dias. Percebi que, cada vez que eu tomava uma decisão, impactava positivamente a vida de muita gente. Isso me fazia voltar para casa com a sensação de: “Sou poderosa. Consigo fazer bem para muita gente e quero continuar fazendo isso”. Fui ganhando segurança, autoridade e autonomia.
Como você chegou ao COB?
Nessa mesma época, eu já atuava na Comissão de Atletas do COB: fui membro em 2012, vice-presidente e, no último ciclo até 2024, fui a presidente. Essa experiência me inseriu na parte de governança e administração do Comitê Olímpico.
Nesse meio tempo, fiz o Curso Avançado de Gestão Esportiva do Instituto Olímpico e uma pós-graduação em Gestão Pública. Quando me dei conta, já estava canalizando minha energia para a área acadêmica e de gestão. Era o que eu estava gostando de viver e decidi investir nisso.
Quando entrei para a campanha junto com o [Marco Antonio] La Porta em 2024 e ganhamos, só permiti que essa trajetória continuasse. Migrei da prefeitura para o COB, entendendo perfeitamente a responsabilidade de sair de uma esfera municipal para a nacional, mas com uma vontade imensa de fazer dar certo. Fui descobrindo, aos poucos, uma vocação para a gestão que eu não sabia que tinha.

Quais são as suas metas e sonhos pela frente?
Na vida pessoal, tenho uma filha de 6 anos e quero vê-la crescer bem, com saúde e envolvida com esportes. Como atleta, viajei muito, mas não conheço quase nada dos lugares, porque a rotina era treinar e dormir. Tenho o sonho de viajar com a minha família e voltar aos lugares onde eu treinava para mostrar: “Olha, era aqui que eu suava, chorava e me realizava”.
Profissionalmente, tenho como meta de curto a médio prazo uma dedicação muito intensa até 2028. Quero que todo esse nosso trabalho, compromisso e responsabilidade sejam retribuídos com bons resultados e que as pessoas percebam esse esforço e carinho de fora, independentemente das medalhas que vierem. Quero que entendam a boa intenção desse processo.
Além disso, tenho minhas aspirações de ascensão profissional. Queremos ser reeleitos daqui a três anos, quero ser uma vice-presidente ainda melhor e ajudar mais o esporte no Brasil. Como eu disse, tudo é consequência: se eu fizer um excelente trabalho agora, as pessoas confiarão cada vez mais em mim e poderei ter projetos ainda mais audaciosos abrindo novas portas. Estou pronta para isso.