Há perto de 14 mil satélites ao redor da Terra, a maior parte deles nas órbitas mais cobiçadas, que representam economia de combustível e custo de manutenção. Tal situação configura um congestionamento sideral. Com o lançamento de mais e mais objetos ao espaço, agrava-se o risco de colisões acidentais. Choques desse tipo liberam milhares de fragmentos que podem deflagrar novos choques e pôr em risco sistemas de comunicação, monitoramento, pesquisa e exploração, como mostrou reportagem do GLOBO.
A gravitação faz com que parte do lixo espacial reentre na atmosfera e, dependendo do tamanho, resista à combustão até atingir o solo. Um pilar da Estação Espacial Internacional caiu em março de 2024 sobre uma casa na Flórida, felizmente sem atingir ninguém. A participação de empresas privadas no setor tem contribuído para aumentar o congestionamento. A SpaceX, de Elon Musk, anunciou o rebaixamento da órbita de mais de 4 mil satélites da sua rede Starlink numa medida preventiva. Mas evidentemente isso não resolve o problema.
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Idealmente, em cada lançamento de satélite deveria haver um plano para desativação e reentrada na atmosfera. Embora alguns países hoje adotem tal prática, falta consenso global a respeito. Há uma rede de troca de informações para evitar colisões entre detritos espaciais, mas não uma solução duradoura, nem leis que obriguem quem lançou o satélite a tirá-lo de órbita depois de desativado. “É uma conta elevada que ninguém quer pagar”, afirmou ao GLOBO Antônio Bertachini de Almeida Prado, especialista em dinâmica orbital do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). “A quem cabe a responsabilidade?”
A exigência crescente de rastreamento do lixo espacial criou um mercado para empresas privadas. Elas usam radares para acompanhar objetos em órbita de baixa altitude, equipamentos de laser e outras tecnologias. Operam no ramo desde gigantes, como a americana Lockheed Martin, até startups, como a brasileira Safe on Orbit. Os principais clientes são agências espaciais, operadores e lançadores de satélites. O monitoramento serve também para ajudar seguradoras na avaliação de riscos.
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Contratos de seguro não resolverão o problema crescente do lixo espacial, pois não eliminam os riscos. Uma alternativa seria destruir os destroços. Tanto China quanto Rússia já usaram mísseis para bombardear satélites no espaço. Não há, porém, controle sobre os milhares de fragmentos gerados, que podem atingir satélites em operação.
Satélites desativados deveriam ter, no mínimo, um plano de desativação que os deslocasse para uma espécie de “cemitério” distante. As Nações Unidas dão 25 anos depois do fim da vida útil para que sejam destruídos. É tempo demais. Nos Estados Unidos vigora uma norma que determina prazo de cinco anos, mais sensato. Novas regras de ocupação do espaço precisam ser estabelecidas com presteza pela comunidade internacional para evitar o crescimento dos riscos — e as tragédias.