O governo federal lançou o Desenrola Brasil 2.0 com uma promessa sedutora: aliviar o peso das dívidas que sufocam milhões de famílias brasileiras. E é impossível negar que existe um problema real a ser enfrentado.
O Brasil convive hoje com um dos maiores níveis de endividamento da sua história recente. Segundo a CNC, mais de 80% das famílias brasileiras estão endividadas em 2026. Cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal deixaram de ser instrumentos pontuais de emergência e passaram a funcionar como extensão permanente da renda de milhões de pessoas.
Nesse contexto, entendo que qualquer proposta de renegociação parece humanamente compreensível. Afinal, quando os juros do rotativo ultrapassam 400% ao ano, o devedor não está escolhendo entre uma boa e uma má decisão, mas sim, tentando sobreviver.
O ponto que me preocupa é que políticas públicas não podem ser avaliadas apenas pelo alívio imediato que oferecem. Precisam ser analisadas também pelas consequências que criam no futuro, e aqui surge a principal questão do Desenrola 2.0: ao permitir o uso do FGTS para quitar dívidas de consumo, o programa pode estar trocando um problema presente por uma vulnerabilidade futura ainda maior.
O FGTS não é um benefício do governo
Existe uma confusão recorrente no debate público: tratar o FGTS como se fosse um benefício estatal disponível para qualquer finalidade emergencial. Não é!
O FGTS trata-se de uma poupança compulsória criada justamente para funcionar como proteção em momentos de fragilidade econômica, especialmente desemprego e aposentadoria, ou seja, é patrimônio do trabalhador.
A literatura econômica, com destaque para o trabalho de Nicholas Kaldor sobre distribuição de renda e propensão ao consumo, argumenta que economias em desenvolvimento precisam de mecanismos estruturados de poupança justamente porque famílias de baixa renda tendem a consumir uma proporção muito maior de sua renda disponível. Em outras palavras: quando a renda é baixa e insuficiente, sobra pouco espaço para formar uma reserva financeira voluntária.
Como educador financeiro, eu sempre enfatizo a importância da organização do orçamento pessoal para fazer sobrar ao menos o mínimo para investir, entretanto, não podemos perder de vista que vivemos em uma realidade socioeconômica, onde, para uma boa parte dos trabalhadores brasileiros o FGTS é a única poupança acumulada ao longo da vida.
Pesquisas do IPEA e da FGV mostram historicamente que famílias de baixa renda possuem baixa capacidade de poupança voluntária. O FGTS, portanto, não é um recurso “parado”, mas um colchão financeiro que existe justamente porque boa parte da população não consegue construir outro.
Quando o Estado permite utilizar esse patrimônio para quitar dívidas de cartão de crédito, cheque especial ou consumo corrente, ele está alterando a função original deste recurso.
O risco invisível: trocar dívida presente por vulnerabilidade futura
O ponto mais delicado do programa me parece que é justamente o menos discutido: um trabalhador endividado, negativado e pressionado financeiramente quase sempre escolherá o alívio imediato. Isso é compreensível do ponto de vista humano, mas não significa necessariamente que seja a melhor decisão de longo prazo.
Richard Thaler, vencedor do Nobel de Economia em 2017 e um dos fundadores da economia comportamental, demonstrou como indivíduos sistematicamente supervalorizam benefícios presentes em detrimento de ganhos futuros, um fenômeno conhecido como viés do presente.
Sob pressão financeira, esse viés se intensifica, e o trabalhador pode aceitar utilizar sua única reserva patrimonial para resolver um problema de curto prazo sem conseguir dimensionar plenamente o impacto futuro dessa decisão.
O problema fica ainda mais grave porque estamos falando, muitas vezes, de dívidas geradas por consumo corrente. Ou seja: patrimônio de longo prazo sendo utilizado para financiar despesas imediatas. É uma forma silenciosa de descapitalização das famílias.
O Brasil pode estar estimulando o ciclo do endividamento
Existe ainda uma segunda questão que considero relevante: programas de renegociação aliviam o estoque de dívida, mas não necessariamente resolvem as causas do endividamento que, no caso brasileiro, são bastante conhecidas.
O país possui um dos spreads bancários mais elevados do mundo, o crédito rotativo segue extremamente caro; a informalidade limita acesso a linhas mais baratas e a educação financeira ainda é insuficiente.
Com isso, temos milhões de famílias operando permanentemente no limite da renda e, nesse cenário, renegociar dívida sem alterar estruturalmente o funcionamento do mercado de crédito pode apenas reiniciar o ciclo.
O economista Hyman Minsky, professor universitário estadunidense que ganhou visibilidade por sua leitura quanto à crise do subprime nos Estados Unidos, argumentava que sistemas financeiros tendem a gerar comportamento de risco recorrente quando o alívio acontece sem mudanças estruturais. Ou seja, o problema não desaparece, apenas retorna mais à frente sob nova forma.
Essa preocupação não é apenas teórica. Estudos do Banco Mundial sobre programas de alívio de dívidas mostram que parte relevante dos beneficiários volta ao endividamento poucos anos depois quando não há aumento consistente de renda, redução estrutural dos juros ou mudança permanente de comportamento financeiro.
Isso tudo nos leva a um ponto: existe o risco de o Desenrola 2.0 melhorar indicadores de inadimplência no curto prazo sem resolver a dinâmica que produz o problema.
E o impacto na inflação?
Há também um ponto macroeconômico que merece atenção: o Brasil ainda convive com inflação pressionada, juros elevados e preocupação fiscal relevante. Nesse contexto, qualquer medida que devolva liquidez ao consumo precisa ser observada com cautela.
Quando famílias renegociam dívidas, reduzem parcelas ou utilizam FGTS para limpar restrições financeiras, parte dessa renda tende a voltar para o consumo e isso pode estimular demanda justamente em um momento em que o Banco Central tenta desacelerar a economia para controlar preços.
Obviamente não significa que o programa, sozinho, vá gerar inflação relevante. Mas existe, sim, uma possível contradição entre uma política que busca estimular a capacidade de consumo das famílias e uma política monetária que opera com juros altos justamente para conter a pressão inflacionária. No jargão econômico, esse conflito tem nome: dominância fiscal.
Quando isso ocorre, o custo do ajuste se redistribui para toda a sociedade, na forma de juros mais altos por mais tempo. O Desenrola 2.0, ao liberar liquidez via FGTS e renegociações com descontos de até 90%, pode ser lido como mais um vetor dessa tensão, num ambiente em que o BC já opera com Selic elevada justamente para ancorar expectativas inflacionárias.
Mais do que aliviar dívida, é preciso evitar a próxima
Um ponto que preciso deixar claro é que criticar o uso do FGTS não significa ignorar o sofrimento de famílias endividadas.
O problema é real, muito grande e precisa ser enfrentado. Entretanto, existe uma diferença importante entre aliviar consequências e resolver causas.
Economistas de diferentes correntes costumam divergir sobre quase tudo, mas existe um ponto de convergência relativamente raro nesse debate: programas recorrentes de renegociação tendem a ter efeito paliativo quando não são acompanhados de mudanças estruturais.
Economistas heterodoxos tendem a apontar que o superendividamento é sintoma de insuficiência estrutural de renda e que a solução passa por redistribuição e fortalecimento do salário real. Já a visão ortodoxa enfatiza maior concorrência bancária e redução do spread como caminho para um mercado de crédito menos predatório.
Ao meu ver, a pergunta central não deveria ser apenas “como aliviar a dívida hoje?” mas sim, como impedir que esse trabalhador volte a se endividar amanhã e como garantir que ele chegue à aposentadoria com algum patrimônio?
Um programa que utiliza a única poupança de longo prazo de milhões de trabalhadores para pagar dívidas de consumo pode até limpar o CPF no presente, mas corre o risco de transferir silenciosamente a vulnerabilidade para o futuro.