O Pix foi usado como um dos argumentos do Governo dos Estados Unidos para aplicar uma tarifa punitiva de 25% contra o Brasil, no entanto, especialistas enxergam ausência de fundamento no que foi apresentado. Em 107 páginas do documento do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), o sistema de pagamentos é citado 20 vezes, cerca de uma vez a cada cinco páginas.
Enquanto isso, o Banco Central (BC) é citado por sete vezes. Nesse caso, a autarquia é acusada, dentre outras coisas, de promover práticas supostamente anticompetitivas. Isso, porque segundo o relatório da USTR, é desleal o BC atuar como regulador e operador do Pix em simultâneo.
O sistema de pagamentos, assim, é um dos três eixos centrais da investigação Section 301 contra o Brasil. É dado o mesmo nível de importância para o Pix do que aos demais dois eixos, que são desmatamento ilegal e tarifas preferenciais desiguais.
“As ações, políticas e práticas do Brasil relacionadas ao tratamento preferencial concedido ao Pix são injustas e discriminatórias. É injusto exigir que concorrentes ofereçam vantagens ao Pix, como disponibilidade, visibilidade e limites tarifários, e o Brasil discrimina fornecedores norte-americanos de serviços de pagamentos eletrônicos ao conceder essas vantagens exclusivamente ao seu campeão nacional”, diz o relatório.
A Forbes entrou em contato com o Banco Central, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.
Do que os EUA acusam o Brasil
A tese do USTR envolve três principais pontos.
O primeiro deles seria o que o órgão considera favorecimento compulsório, considerando que o BC obriga instituições financeiras com mais de 500 mil contas a participar do Pix.
Além disso, exige que o Pix seja exibido na tela principal dos aplicativos das instituições participantes, com destaque não inferior a qualquer outro meio de pagamento ou transferência. Isso força concorrentes americanos – como Visa, Mastercard, PayPal, Google Pay, Apple Pay – a promover o Pix dentro de seus próprios produtos e ecossistemas, sem qualquer compensação.
O segundo seria uma suposta distorção de preços por regulação, já que o sistema é oferecido gratuitamente para pessoas físicas e impõe um teto nas tarifas cobradas de pessoas jurídicas.
Na avaliação do USTR, isso cria uma vantagem competitiva artificial que empresas privadas americanas não conseguem replicar sem incorrer em perdas – já que elas não são subsidiadas pelo Estado.
Por fim, há ‘discriminação contra fornecedores americanos’, segundo o USTR. O documento afirma explicitamente que o Brasil “discrimina fornecedores americanos de serviços de pagamento eletrônico” ao conceder essas vantagens exclusivamente ao seu “campeão nacional”.
O tratamento preferencial dado ao Pix é classificado como “injusto e discriminatório” (unfair and discriminatory), e como um ônus ao comércio americano (burden or restriction on U.S. commerce).
‘Argumentos que não param em pé’
Na visão de especialistas, a inserção do tema nas mais de 100 páginas de relatório revela uma intenção de problematizar o tema e causar ruídos, visto que não há medidas concretas a serem tomadas.
Diferentemente das tarifas recíprocas, o Pix não é algo negociável e com alterações que podem entrar no pipeline. Na prática, o governo simplesmente não irá recuar, mudando detalhes no Pix para melhorar sua relação com os EUA – e isso sequer é uma possibilidade na mesa ou que possa ser cogitada.
Ser vocal sobre isso também mostra defesa de interesses de gigantes americanas que operam bandeiras de cartão de crédito, especialmente Visa e MasterCard.
“O argumento de que o Pix foi criado para desestabilizar empresas americanas com concorrência desleal não para em pé. Esse argumento de concorrência desleal não faz sentido. O Pix gera concorrência, é acessível, gratuito, e ele teve uma aderência muito grande no ecossistema de pagamentos, então naturalmente concorre com outros métodos de pagamento. É uma concorrência salutar e justa”, diz Gilberto Martins, fundador da G-Payments Consulting e ex-diretor da Mastercard e do Ebanx.
“O Pix não gera lucro para o Governo Federal. É um instrumento financeiro, criado em prol da população brasileira. Pode-se falar em concorrência, mas não desleal”, completa.
Adrian Cernev, professor do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira, da FGV, endossa a tese de que o Pix não é algo anticompetitivo.
“O argumento [do governo dos EUA] é mais político do que técnico. Ele está criando argumento para viabilizar futuras negociações em outras frentes. Não imagino que eles queiram reverter o que aconteceu no Pix no Brasil, porque isso é impossível, qualquer tentativa aglutinaria os brasileiros contra uma pressão externa, nem a oposição ao atual governo levantaria essa bandeira”, analisa.
Alvo em potencial para Trump
Desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca, o Pix passou a ser alvo crescente de críticas do governo dos Estados Unidos.
A ofensiva começou a ganhar força em 2025, quando o republicano abriu a investigação comercial contra o Brasil com base na Seção 301 da legislação comercial americana, que agora balizou a tarifa. É o mesmo instrumento que já foi usado pelos EUA em disputas com a China.
O Governo Trump alega que instituições financeiras brasileiras são obrigadas a dar destaque e acesso ao Pix, enquanto empresas americanas não receberiam tratamento equivalente.
O presidente dos EUA incluiu o Pix no relatório anual National Trade Estimate (NTE) de 2025 do próprio USTR, listando-o como barreira não tarifária ao comércio americano.
Visa, Mastercard, PayPal, Google e Apple têm atuação relevante no Brasil e perdem market share para o Pix. O lobby dessas empresas em Washington é robusto, e a linguagem do relatório – que fala em “custos impostos a provedores americanos” e em “promover um concorrente sem compensação” – ecoa diretamente os argumentos que essas empresas apresentaram nas audiências públicas.
Conveniência é prioridade para brasileiros
No acumulado de 2025, o Pix registrou aproximadamente 79,8 bilhões de transações e movimentou R$ 35,36 trilhões, segundo dados do Banco Central.
Os números reforçam o que foi detalhado em uma pesquisa realizada pela Elo e pela Fundação Dom Cabral (FDC). O estudo mostra que o cartão de crédito continua sendo a principal opção para compras de maior valor, mas o Pix avança nas transações do dia a dia e nas compras feitas pela internet.
Os dados revelam que o cartão de crédito lidera em categorias como eletrodomésticos, móveis, viagens e roupas. Já o Pix aparece na frente em compras online, pagamentos de aplicativos, contas de consumo e tributos.
O parcelamento segue sendo o principal fator que impulsiona o uso do cartão de crédito nas compras em que ele predomina.
A pesquisa também criou um índice de maturidade dos meios de pagamento no Brasil e apontou nota média de 4,6 em uma escala de 1 a 6. O resultado indica que os brasileiros já incorporaram essas ferramentas à gestão financeira, mas ainda existe espaço para ampliar a percepção de custo-benefício, que recebeu a menor avaliação entre os critérios analisados.
Pix tem que ser estatal?
Parte da ofensiva ao sistema de pagamento frisa o fato de que o Pix foi gestado e é operado pelo governo brasileiro, ainda que o BC seja uma autarquia e tenha sua independência garantida por lei.
“O maior modelo de pagamentos instantâneos, o primeiro e maior, surgiu exatamente deste modo, assim como no Brasil. O UPI da Índia, que é o Pix deles, nasceu como arranjo governamental, então temos precedentes nesse sentido”, comenta Martins.
Um paper da Harvard Kennedy School, escrito por Polina Kempinsky em 2025, compara os sistemas de pagamento instantâneo do Brasil (Pix) e da Índia (UPI) para derivar lições aplicáveis a outros países que desejem implementar sistemas similares.
“O Pix é o método de pagamento de adoção mais rápida no mundo, com 75% da população adulta do Brasil utilizando-o em menos de três anos após sua introdução, tornando-se o método de pagamento mais popular do país”, dizem os pesquisadores da Harvard Kennedy School.