Recentemente, uma dupla de tenistas brasileiros, que saiu vitoriosa no torneio Rio Open, chamou a atenção não só pelo desempenho na quadra como também por uma curiosidade: a parceria de um jovem de 19 anos de idade com um “senhor” de 42. O par intergeracional mostrou que, mesmo no esporte, atividade em que a passagem do tempo costuma cobrar seu preço mais rápido, as coisas estão mudando. Fora das quadras, porém, pessoas bem mais vividas que o tenista veterano, já não querem ser chamadas de “idosas”. O envelhecimento populacional, visível a olho nu, vem dando origem a novas formas de aproveitar os anos extras, com saúde, atividade, autonomia e propósito.
A nova tendência, que já encontra muitos entusiastas nas redes sociais, atende pelo nome de NOLT. A palavrinha é uma sigla de New Older Living Trend, uma expressão cunhada no mercado imobiliário norte-americano para designar comunidades residenciais com infraestrutura planejada para o público sênior que deseja viver com autonomia em ambiente seguro e funcional. O termo ganhou novos contornos e passou a nomear pessoas que investem em um estilo de vida muito distante do estereótipo de fragilidade e cansaço associado à chegada dos 60 anos de idade. Essa turma não está nem um pouco a fim de pendurar as chuteiras.
É claro que os hábitos adquiridos ao longo da vida, como alimentação equilibrada, prática regular de exercícios, oito horas diárias de sono e acompanhamento médico preventivo, fazem toda a diferença na forma como a pessoa vai chegar a essa fase. O que permite aos “novos idosos” não se sentirem “velhos” é, por um lado, a saúde física e mental e, por outro, o propósito de vida, que se traduz em projetos, atividade profissional, viagens, aprendizado constante e vida social. Todos queremos viver mais e viver bem, com qualidade e autonomia. Isso é possível, mas não acontece por milagre.
Manter a saúde não é apenas uma questão de fazer escolhas individuais acertadas, como não fumar, evitar bebidas alcoólicas e excessos alimentares, tomar vacinas, fazer exames de rotina – ainda que tudo isso tenha um peso considerável. Infelizmente, há doenças que fogem ao nosso controle, como as genéticas, as neurodegenerativas e as autoimunes, entre outras. Precisamos estar preparados para lidar com esses reveses.
Além disso, em um país como o Brasil, de acentuadas assimetrias, as pessoas não envelhecem da mesma maneira. Até a expectativa de vida varia de acordo com a região ou, como se diz, com o CEP. Para a maior parte da população, ser um NOLT ainda não é uma opção.
Vemos nas ruas de São Paulo idosos abandonados à própria sorte, à espera de uma esmola ou mesmo fazendo trabalhos pesados. Essa situação ocorre em todo o país. Um estudo finalizado em 2024 pela Universidade Federal de Minas Gerais mostrava quase 24 mil idosos vivendo nas ruas em todo o território brasileiro. É urgente que se criem políticas públicas de amparo e inclusão de pessoas nessa situação, que, frequentemente, carregam problemas de saúde não tratados.
O Brasil tem o Estatuto da Pessoa Idosa, que assegura uma série de direitos aos mais velhos, mas é preciso que as palavras inscritas no papel se traduzam em ações concretas. No âmbito da saúde, a atenção primária poderia, por exemplo, incluir protocolos específicos para os idosos, fazendo o rastreio de doenças neurodegenerativas e oculares, oferecendo acompanhamento nutricional e psicológico e criando linhas de cuidado para doenças crônicas. Sabemos, contudo, que saúde é apenas um aspecto da questão.
Em países da Europa, por exemplo, onde o envelhecimento populacional já se consolidou há mais tempo, existem políticas públicas tidas como referência mundial. Mesmo assim, a preocupação com o tema persiste. No início de 2024, em Portugal, foi aprovado o Plano de Ação do Envelhecimento Ativo e Saudável (2023–2026), que integra saúde, previdência e inclusão social em seis áreas estratégicas: bem-estar, autonomia, aprendizagem ao longo da vida, vida laboral saudável, rendimentos e participação social.
A Suécia e a Dinamarca investem fortemente em redes de cuidados comunitários, oferecendo serviços domiciliares e centros de convivência que permitem aos idosos permanecer em casa com suporte adequado. Na Holanda e no Reino Unido, há programas de inserção produtiva, que estimulam idosos a permanecer no mercado de trabalho em condições adaptadas, valorizando sua experiência e reduzindo a pressão sobre os sistemas previdenciários.
Esses modelos mostram que o envelhecimento é tratado como questão transversal, atravessando temas como saúde, economia, trabalho e cidadania. A ênfase está em prevenção, autonomia e integração social. Nosso maior desafio no Brasil é lidar com a nova realidade demográfica, que deve acentuar-se nos próximos anos, adotando um ponto de vista amplo. A tendência NOLT é muito positiva em seus princípios, mas é preciso assegurar que esteja ao alcance de todos.
*Claudio Lottenberg é mestre e doutor em oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp). É presidente do conselho do Einstein Hospital Israelita e do Instituto Coalizão Saúde.
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