Seja Bem Vindo - 17/05/2026 03:59

  • Home
  • Política
  • “Eu Não Corro Atrás do Dinheiro. Tento Fazer o Dinheiro Correr Atrás de Mim”

“Eu Não Corro Atrás do Dinheiro. Tento Fazer o Dinheiro Correr Atrás de Mim”

No fim de uma noite de quinta-feira, na primavera de 2014, o ator Tyrese Gibson entrou ao vivo no Facebook com Dr. Dre para celebrar a venda da empresa que Dre cofundou, a Beats Electronics, para a Apple por US$ 3,2 bilhões (R$ 16,96 bilhões).

“A lista da Forbes acabou de mudar”, disse Gibson, depois do que ele admite terem sido algumas Heinekens a mais. “Ela saiu há umas duas semanas — eles precisam atualizar a lista da Forbes!”

“E muito. Entenda isso”, Dre aparece dizendo atrás dele. “O primeiro bilionário do hip-hop, bem aqui da Costa Oeste.”

O único problema era que, naquele momento, o negócio ainda não havia sido concluído, e o vazamento gerou pânico imediato de que pudesse comprometer as negociações finais. “Esse não é um dos momentos de que mais me orgulho”, admite Dre agora, sentado em sua casa palaciana no rico bairro de Brentwood, em Los Angeles. Depois de reduzir em US$ 200 milhões (R$ 1,06 bilhão) o preço inicialmente previsto, a Apple finalizou a aquisição da fabricante de fones algumas semanas depois, rendendo a Dre mais de US$ 500 milhões em dinheiro (R$ 2,65 bilhões) e quase US$ 100 milhões em ações (R$ 530 milhões), segundo estimativas da Forbes. Embora isso não tenha sido suficiente para colocá-lo na lista de bilionários naquele ano, formou a maior parte de uma fortuna que, mais de uma década depois, a Forbes agora estima em US$ 1 bilhão (R$ 5,3 bilhões).

De Compton ao topo

Sentado à mesa da cozinha de sua mansão de 3.344 metros quadrados, avaliada em US$ 53 milhões (R$ 280,9 milhões), Dre, hoje com 61 anos — nascido Andre Romelle Young — nunca esquece o quanto avançou desde a infância em Compton, Califórnia, onde cresceu com uma mãe adolescente e um pai abusivo, no auge da violência de gangues e da epidemia de crack em Los Angeles. “Eu não tinha problema nenhum em cortar grama só para comprar um par de sapatos quando era mais jovem”, diz sobre a infância. “Eu fazia o que fosse preciso para conseguir o que queria.” Apesar da riqueza, ele jura que nada em sua carreira foi motivado por dinheiro e, em vez disso, atribui seu sucesso à obsessão por criar produtos perfeitos, seja música, fones de ouvido ou seu empreendimento mais recente, uma marca de gim.

“Eu não corro atrás do dinheiro — tento fazer o dinheiro correr atrás de mim”, diz Dre, que ocupa a 20ª posição em nossa lista dos Maiores Self-Made Americans. “Sempre fui capaz de apostar em mim mesmo e, faça o que fizer e vá para onde for, sei que meu talento está comigo.”

O perfeccionista do hip-hop

Esse talento apareceu pela primeira vez nos anos 1980, quando, ainda adolescente, ele se apresentava como DJ usando roupas cirúrgicas de cetim e máscara em um clube de Compton chamado Eve After Dark. Aprendendo sozinho a mixar e produzir música na garagem, usando instrumentos comprados em uma loja de penhores local, ele viria a cofundar o grupo pioneiro de gangsta rap N.W.A (ao lado de Ice Cube, Eazy-E e Arabian Prince) e se tornaria, possivelmente, o maior produtor da história do hip-hop. A história do N.W.A serviu de base para o blockbuster de Hollywood Straight Outta Compton, de 2015, e, em 2022, ele se tornou o primeiro artista de hip-hop a comandar o show do intervalo do Super Bowl, usando o momento para destacar os inúmeros artistas cujas carreiras ajudou a lançar — incluindo Snoop Dogg, Eminem, 50 Cent e Kendrick Lamar.

O dinheiro que ganhou lhe proporcionou a liberdade máxima, diz Dre, especialmente após o divórcio, em 2021, de Nicole Young, sua esposa por quase 25 anos. Agora ele pode ocupar seu tempo fazendo o que quiser. Parte dele é gasto relaxando, claro, mas, mais frequentemente, ele está perseguindo a próxima grande ideia, seja sua marca de gim — chamada Still G.I.N., em referência ao hit de 1999 “Still D.R.E.” — ou as quase 400 faixas inéditas que diz ter criado durante a pandemia e nas quais vem mexendo desde então.

Quando tem alguns momentos livres, senta-se em sua ampla sala de estar, sob uma parede repleta de estátuas que incluem Grammys, Emmys e uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood, e toca alguns compassos em seu piano de cauda Bösendorfer (que custa a partir de US$ 200 mil, ou R$ 1,06 milhão), cercado por vários blocos de anotações cobertos de notas musicais e ideias para canções.

“Quem sabe se alguma coisa vai acontecer e me fazer criar a melhor coisa que já fiz na vida?”, diz. “A parte empolgante é que existe esse potencial. É emocionante e deprimente ao mesmo tempo, porque eu sei que isso está lá, e se eu não encontrar?”

Quem já trabalhou com Dre, seja no estúdio, na Beats ou em qualquer outro projeto, sabe que seu processo pode ser minucioso e que ele não para de ajustar nada até sentir que o projeto está bom o suficiente para ser lançado.

“O tempo não existe com Dr. Dre”, disse o colaborador frequente Eminem por e-mail. “Ele não está focado em datas, prazos ou em quando algo deve sair — ele só pensa se aquilo está pronto. Por exemplo, no álbum 2001 [de Dre], eu achei que estava pronto antes de ele gravar ‘Still D.R.E.’. E então percebi que, se Dre tivesse achado que já estava concluído, o mundo nunca teria ouvido essa música.”

Às vezes, o mundo realmente nunca ouve. Depois de trabalhar por mais de uma década no aguardado álbum Detox, Dre abandonou completamente o projeto em 2015, reforçando sua reputação de perfeccionista.

“Perfeccionista às vezes é apenas uma palavra que uso para ganhar tempo”, diz. “Se eu tenho uma data de lançamento e a música não está certa, devo entregá-la? Não. Vou levar o tempo necessário até que esteja certa.”

Ele demonstra essa característica desde sua música de estreia, em 1987, “Boyz-n-the-Hood”, na qual orientou o então inexperiente rapper Eazy-E por horas e dezenas de tomadas vocais. A música de sucesso, com letra escrita por Ice Cube, outro rapper local, formou a base do N.W.A — sigla para Niggaz Wit Attitudes. O grupo inaugurou o gênero gangsta rap com Straight Outta Compton, de 1988, que vendeu disco duplo de platina apesar de muitas emissoras de rádio e TV se recusarem a tocar suas letras explícitas. Dre produziu todas as faixas, mas afirmou posteriormente, em uma entrevista de 1996, que recebeu apenas 2% de royalties dos álbuns do N.W.A.

“Quando eu era mais jovem, não percebia o quanto eu tinha de participação, porque eu estava apenas fazendo o meu trabalho”, diz Dre agora. “Eu não entendia exatamente o que meu talento significava ou o quão poderoso ele era.”

A máquina de hits bilionários

Ele deixou o grupo em 1991 para cofundar a Death Row Records com o infame executivo musical Marion “Suge” Knight, onde seu “G-Funk” (de gangsta-funk) se tornou a sonoridade característica do hip-hop da Costa Oeste. Seu álbum solo de estreia, The Chronic, vendeu mais de 3 milhões de unidades em 1993 e lhe rendeu o primeiro de sete prêmios Grammy, enquanto seu trabalho como produtor em discos como Doggystyle, estreia quádrupla platina de Snoop Dogg, e no single duplo platina de Tupac Shakur, “California Love”, consolidou o gênero como uma força comercial mainstream. Em 1996, a Death Row supostamente gerava mais de US$ 100 milhões por ano em receita (R$ 530 milhões).

Dre deixou a Death Row naquele mesmo ano, abrindo mão de uma valiosa participação societária para se afastar da violência dentro da gravadora e da rivalidade cada vez mais intensa entre o rap da Costa Leste e da Costa Oeste, que levou ao assassinato de Shakur naquele outono. Ele criou sua própria empresa, a Aftermath Entertainment, como subsidiária da Interscope Records, de Jimmy Iovine, mas inicialmente teve dificuldades para reproduzir a mesma magia.

“O selo dele estava muito frio”, diz Iovine, que contratou Shakur, Lady Gaga, No Doubt e outros artistas vencedores do Grammy. “Ele precisava se inspirar, e um dos problemas dele é que se inspira raramente. Precisa esperar a onda perfeita.”

Essa onda veio na forma de um garoto branco magro de Detroit chamado Marshall Mathers. Dre ouviu a fita demo pela primeira vez depois que um estagiário da Interscope a entregou a Iovine, e, no primeiro dia em estúdio juntos, gravaram o single “My Name Is”, que apresentou ao mundo Eminem, então com 26 anos, em 1999. O rapper se tornaria o artista musical mais vendido dos anos 2000, segundo a Nielsen SoundScan, com 32,2 milhões de álbuns vendidos apenas nos EUA.

“Dre apostou em mim em um momento em que ninguém mais apostaria”, diz Eminem, hoje com 53 anos, à Forbes. “Ele me deu a credibilidade necessária para que as pessoas me ouvissem tempo suficiente para me levarem a sério.”

A Aftermath decolou a partir daí com sucessos como “The Real Slim Shady”, de Eminem, e “In Da Club”, de 50 Cent, além do segundo álbum solo de Dre, 2001, que vendeu mais de 6 milhões de cópias. Ele apareceu pela primeira vez na lista de celebridades mais bem pagas da Forbes em 2001, quando teria vendido 30% de sua participação na Aftermath para a Interscope por US$ 35 milhões (R$ 185,5 milhões).

A aposta que virou a Beats

As oportunidades para ampliar seus ganhos sempre surgiam, com muitas marcas querendo sua imagem. Ele se lembra de ver Iovine caminhando pela praia em Malibu, em 2006, onde ambos tinham casas. Dre o convidou para subir ao deck, onde perguntou se deveria considerar lançar uma linha de tênis.

“Eu apenas olhei para ele e disse: ‘Cara, o que você tem a ver com tênis?’”, recorda Iovine, hoje com 73 anos.

“Que se dane tênis”, Dre lembra dele dizendo. “Vamos fazer caixas de som.”

Os dois se tornaram sócios na Beats Electronics, fabricando fones premium de arco em uma época em que o estilo mais popular eram os earbuds baratos que vinham gratuitamente com iPods e iPhones. Dre levou o mesmo cuidado meticuloso com testes de produto que aplicava à música, refinando uma mixagem de áudio com graves reforçados que, na visão dele, proporcionava uma experiência superior. Combinado à habilidade de marketing de Iovine, a marca decolou imediatamente.

Os fones Beats apareceram em videoclipes de artistas da Interscope e nas cabeças do time de basquete dos EUA durante as Olimpíadas de 2008 — um esforço liderado por LeBron James, que recebeu uma pequena participação acionária para atuar como embaixador. Logo, os Beats by Dre se tornaram mais do que um acessório de áudio — viraram um símbolo de status, semelhante à revolução promovida pela marca Jordan, da Nike. A empresa cresceu de US$ 180 milhões em vendas em 2009 (R$ 954 milhões) para US$ 860 milhões em 2012 (R$ 4,56 bilhões), segundo estimativas da Forbes.

A Beats expandiu além do hardware em 2012, adquirindo o serviço de streaming musical MOG por estimados US$ 14 milhões (R$ 74,2 milhões). Dre e Iovine usaram essa estrutura para lançar o Beats Music em 2014, com o objetivo de competir com Spotify e Pandora e, em última instância, tornar a empresa um alvo de aquisição mais atraente. Dado o valor potencial de sua participação estimada em 20%, Dre ri da ideia de que hesitaria em vender. “Isso foi fácil”, diz. “Foi, tipo, a melhor coisa de todas.”

O negócio de US$ 3 bilhões

A compra da Beats pela Apple por US$ 3 bilhões (R$ 15,9 bilhões) ainda é a maior aquisição da história da companhia. Parte da lógica por trás dos cerca de US$ 100 milhões em ações (R$ 530 milhões) para Dre e Iovine — e do cronograma de aquisição de direitos ao longo de quatro anos — era trazê-los para a equipe executiva que transformou o Beats Music em Apple Music em 2015.

Dre deixou a Apple em 2018, e documentos judiciais revelados durante seu divórcio, em 2021, mostraram que ele havia vendido a maior parte de suas ações (que desde então dobraram de valor). Ele fechou o divórcio com dois pagamentos de US$ 50 milhões (R$ 265 milhões) e, logo depois, começou a negociar seu catálogo de gravações e publicações. Em janeiro de 2023, vendeu os direitos para a Universal Music Group e para a Shamrock Capital, firma de investimentos em mídia sediada em Los Angeles, por mais de US$ 200 milhões (R$ 1,06 bilhão), segundo estimativas da Forbes.

Em busca de um novo desafio, foi Iovine quem mais uma vez forneceu a ideia. Conversando com Dre e Snoop Dogg no estúdio, perguntou por que nunca haviam tentado transformar o hit de 1994 “Gin and Juice” em um produto físico.

“O gim é uma categoria de bebida alcoólica que não vai muito bem”, disse Snoop à Forbes, “então escolhemos uma categoria que não vai bem, para podermos nos destacar.”

Acrescenta Iovine: “Dre disse: ‘A gente pode dominar isso’, e Snoop também. E então começou a marcha em direção à qualidade.”

Dre visitou uma destilaria em Chicago, onde aprendeu como o gim é produzido, e provou 17 marcas diferentes para determinar exatamente as características que queria. Com Snoop e Iovine como investidores, eles se uniram a Patrick Halbert e Andrew Gill, empreendedores que haviam acabado de vender sua própria marca de coquetéis prontos para beber, a On the Rocks, para a Jim Beam. Em fevereiro de 2024, o coquetel enlatado Gin & Juice estreou em 30 mil lojas de varejo ao redor do mundo.

E, embora os coquetéis prontos para beber tenham explodido na última década — o mercado global atingiu estimados US$ 3,8 bilhões em vendas no ano passado (R$ 20,14 bilhões) — uma marca premium de destilados pode ser muito mais lucrativa. Basta perguntar ao ator Ryan Reynolds, que vendeu sua marca Aviation Gin por US$ 610 milhões em 2020 (R$ 3,23 bilhões).

“Gin & Juice é divertido”, diz Gill. “Mas Still G.I.N. é sério.”

Iovine alertou a dupla de que talvez nunca produzissem um gim que Dre gostasse o suficiente para substituir o Hendrick’s, sua marca preferida há décadas. Mas, assim como a Beats com a amplificação dos graves, eles se concentraram em notas cítricas e especiadas para equilibrar o sabor de zimbro encontrado na maioria das marcas tradicionais. Após 15 versões, apresentaram a primeira garrafa a Dre em sua casa. Ele aprovou imediatamente e deu sinal verde para o lançamento no fim de 2024. Em fevereiro deste ano, a Applebee’s anunciou que adicionaria a bebida ao cardápio de seus 1.500 restaurantes em todo o país.

“Sinto que ainda tenho muito combustível no tanque”, diz Dre sobre o negócio de bebidas e outros projetos em que trabalha. “Só quero acordar e estar motivado para fazer alguma coisa.”

A vida após o bilhão

Na maioria das manhãs, Dre desce para o piso inferior de sua casa e nada uma milha — 88 voltas na piscina de 18 metros. Depois disso, pode seguir para o estúdio no subsolo para fazer música ou para seu cinema particular, retornando mais tarde para levantar pesos em sua academia de tamanho profissional.

Nenhum desses espaços existia quando Dre comprou a mansão de Tom Brady e Gisele Bündchen em 2014. A propriedade já custava US$ 40 milhões (R$ 212 milhões), mas ele diz ter passado mais de três anos dobrando a área construída, construindo o estúdio perfeito sob uma extremidade da casa, convertendo a antiga academia-garagem de Brady em um cinema do outro lado e removendo a entrada entre ambos para instalar a piscina subterrânea e a academia.

“Eu não me apego a bens materiais de forma alguma”, diz. “Esta é a primeira coisa que comprei da qual realmente me orgulho.”

Como um de seus discos, Dre reformou e refinou a casa até sentir que ela estava perfeita. Agora, raramente sai dali, da propriedade situada no alto de Los Angeles, o que o levou a vender vários de seus outros imóveis, incluindo a casa de praia em Malibu onde a Beats nasceu, por US$ 16,5 milhões (R$ 87,45 milhões).

“Não tenho motivo para sair”, diz sobre a propriedade em Brentwood, para a qual ocasionalmente convida músicos para improvisar ou amigos para fumar charutos à beira da piscina no quintal. Mais frequentemente, passa os dias ali sozinho. Mas, ao contrário de Charles Foster Kane, ele encontrou paz em sua Xanadu.

“Neste momento estou realmente aproveitando minha solitude”, diz. “Só estou tentando simplificar minha vida, e a única coisa que quero fazer é manter meu estilo de vida aqui em casa. Quero que minha casa funcione exatamente do jeito que está funcionando agora, porque é isso que me faz feliz.”

O próximo grande movimento

Ainda assim, ele não consegue deixar de enxergar a possibilidade de criar mais. Olhando pelas janelas dos fundos da cozinha para o gramado impecável e a vista ampla do Oceano Pacífico, imagina que pode haver mais 370 metros quadrados de espaço potencial sob a casa, se conseguir descobrir o que gostaria de construir ali.

“Eu sei que existe alguma coisa que posso fazer ali, no subterrâneo”, diz Dre sobre essa sua mais nova obra inacabada. “A ideia disso, saber que eu poderia fazer isso e a descoberta, tipo, ah, imagine eu descobrindo o que posso fazer ali embaixo. Não é uma forma divertida de pensar?”

*Matéria originalmente publicada em Forbes.com



Clique aqui para ver a Fonte do Texto

VEJA MAIS

O Recado da China após a Visita de Trump a Pequim

O Ministério do Comércio da China descreveu neste sábado como “preliminares” os acordos tarifários, agrícolas…

Elevador Lacerda mantém acesso gratuito para moradores de Salvador e turistas

O Elevador Lacerda segue com acesso gratuito para a população soteropolitana e turistas que circulam…

Saiba onde assistir a Fluminense e São Paulo

Fluminense e São Paulo se enfrentam neste sábado (16/5), às 19h, no Maracanã, pela 16ª…