Uma consultoria posteriormente incorporada pela Crédito e Mercado, empresa que orientou investimentos de institutos municipais de previdência em letras financeiras do Banco Master, também foi responsável por sugerir aportes da previdência de Paulínia, no interior paulista, em um fundo envolvido na construção de um hotel da família de Daniel Vorcaro, ex-dono do Master, em Belo Horizonte.
Na última quinta-feira (23/4), a Polícia Federal (PF) deflagrou operação contra um esquema que teria sido responsável pela aplicação de cerca de R$ 13 milhões da previdência social do município de Santo Antônio de Posse no Master (R$ 7 milhões) e também no Banco Daycoval (R$ 6 milhões).
A movimentação foi feita sob a consultoria da Crédito e Mercado. O Metrópoles confirmou com fontes da PF que a empresa está na mira dos investigadores por causa dos aportes recomendados.
A empresa argumenta que “a decisão final de investimento é de responsabilidade exclusiva dos gestores e comitês dos RPPS [Regimes Próprios de Previdência Social], que possuem autonomia na alocação de recursos” e afirma que, no caso da operação da PF, não foi notificada por nenhuma autoridade.
Fundo em hotel de Vorcaro
Em 2013, a Plena Consultoria, cujo sócio administrador era o empresário Eduardo Nakamura, foi a responsável por fornecer os pareceres técnicos que motivaram o instituto de previdência de Paulínia (Pauliprev), também no interior paulista, a aplicar cerca de R$ 16 milhões no fundo imobiliário Golden Tulip, que geria um empreendimento hoteleiro de Vorcaro em Belo Horizonte. O hotel havia sido prometido para ser explorado na Copa do Mundo de 2014, mas nunca se concretizou.
O Tribunal de Contas do Estado (TCE) recusou as contas da Pauliprev daquele ano e classificou os pareceres da Plena como “extremamente precários e limitados”. A Corte ainda entendeu que a análise que levou ao investimento no Golden Tulip não apreciou dados básicos, como a rentabilidade dos últimos 12 meses, nível de risco, previsão de retorno e forma de resgate.
À época, um auditor do TCE citou reportagens da imprensa para afirmar que a Plena fazia parte de “uma quadrilha criminosa que fraudava os regimes próprios de previdência social”.
Em 2019, a Plena foi incorporada pela Crédito e Mercado. Já Eduardo Nakamura deixou de ser sócio da empresa em 2021, segundo dados da Junta Comercial. Ele chegou a assinar contratos com o Iprem de Santo Antônio de Posse em nome da PAR Engenharia Financeira, antiga Crédito e Mercado.
O empresário é alvo de um pedido de convocação do deputado estadual Paulo Fiorilo (PT) na CPI das Pirâmides Financeiras, que corre na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).
A Plena também já foi alvo de inquérito da Polícia Federal de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, que apurou o envolvimento da consultoria na previdência de Sebastianópolis do Sul, outra cidade paulista.
A PF aponta que um dos fundos que tiveram o aporte recomendado pela consultoria Plena em Sebastianópolis do Sul é o Brazilian Graveyard and Death Care Services, que investe no setor funerário e foi administrado pela Master S.A. Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários, sendo assumido pela Mérito DTVM três meses depois da liquidação do banco.
Como mostrou o Metrópoles, o cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel, era do conselho de administração da Cortel, uma das empresas de cemitério que tinha um fundo ligado ao Master entre os acionistas. O Iprem de Santo Antônio de Posse também investiu no Brazilian Graveyard and Death Care Services.
À reportagem, Eduardo Nakamura afirmou que não se envolvia na parte de consultoria em ambas as empresas — Plena e Crédito e Mercado — e que atuava na área administrativa e de recursos humanos. Segundo ele, havia um departamento técnico que cuidava da área de consultoria.
O Metrópoles busca a defesa dos investigados pela PF na operação da última quinta-feira. A Prefeitura de Santo Antônio da Posse, assim como o Instituto de Previdência do Município, foram procurados para um posicionamento. O espaço segue aberto para manifestações.