Como anda o seu índice de felicidade? A edição de 2026 do Relatório Mundial da Felicidade (World Happiness Report), das Nações Unidas, trouxe dente outros dados, algo que merece atenção: o déficit de felicidade entre os seres humanos hoje está ligado na à saúde emocional.
Como indicador social, o conceito de felicidade é medido por um conjunto de indicadores: renda per capita, expectativa e qualidade de vida, atos de generosidade, apoio social e percepção de liberdade e de corrupção -, que transformam experiências subjetivas em dados mensuráveis. O cruzamento de informações de centenas de milhares de jovens, de dezenas de países de todas as regiões do mundo, mostrou uma convergência preocupante: o aumento significativo de problemas psicológicos (estresse, depressão, ansiedade, insatisfação com a vida) entre aqueles que passam de cinco a sete horas por dia, ou mais, nas redes sociais.
A tecnologia tornou possível a comunicação em larga escala e também o acesso contínuo a todo tipo de conteúdo. Graças aos poderosos algoritmos, as redes sociais direcionam material para manter o usuário diante da tela pelo máximo de tempo possível, num aparentemente bem-sucedido modelo de negócio. Se até mesmo os adultos têm dificuldade de gerir o tempo de tela, que dizer de adolescentes e jovens, ainda em fase de formação? O tema vem desafiando estudiosos, com diferentes enfoques dessa nova realidade, que veio para ficar. Não nos parece possível nem desejável banir as redes sociais, mas temos de aprender a lidar melhor com elas.
Uma linha de estudos vem mostrando associação negativa entre o uso das mídias sociais e o bem-estar nas camadas mais jovens da população, especialmente afetadas pelo medo da exclusão ou do não pertencimento e, particularmente, pela comparação social que pode levar ao isolamento, questões que se agravam pelo potencial exposição a fontes de desinformação. Outra, contudo, vê o lado positivo das redes como canal de autoexpressão e espaço de apoio social, que proporciona aumento das oportunidades de interação e de conexões sociais. Equilibrar os dois pratos da balança não é tarefa das mais fáceis, mas uma coisa é certa: conexões sociais reais são essenciais para a saúde e o bem-estar, na medida em que reduzem o estresse, a depressão e a solidão.
Dados do relatório da ONU sobre a América Latina revelaram que, a depender do tipo de plataforma, prevalece ou não a sensação de bem-estar. Plataformas projetadas para facilitar conexões sociais mostram clara associação positiva com a felicidade, e aquelas impulsionadas por conteúdo selecionado por algoritmos tendem a demonstrar associação negativa em altas taxas de uso. A diferença está na postura do usuário em cada caso. A felicidade ganha ponto quando as redes são usadas ativamente para proporcionar conexões e perde quando o usuário é passivo, controlado remotamente por algoritmos que ele desconhece. Ao que tudo indica, o uso problemático das redes é o que mais favorece as big techs.
Essa, porém, é apenas uma parte da questão. Há um bom tempo, circula na sociedade a ideia de que devemos ser positivos em todas as situações, pois isso impulsiona a obtenção de benefícios reais. Desse pacote de otimismo faz parte a atitude resiliente, equilibrada e madura diante das adversidades, coisa que se adquire com o tempo e o autoconhecimento. No ritmo frenético das redes sociais, que exigem respostas imediatas, o mais fácil é fingir que tudo está sempre bem.
Para o consumidor passivo de informações, a simples ideia de que todos estão felizes e são bem-sucedidos em tudo, capazes de transformar adversidades em soluções criativas em um passe de mágica, cria um padrão de comportamento positivo inatingível na vida real. Essa imposição social, que já vem sendo chamada de positividade tóxica, é, em certa medida, um subproduto das redes sociais, que redunda em frustração, ansiedade crônica e até isolamento.
É preciso lembrar que a felicidade, uma vez superados os grandes desafios representados pela pobreza e pela falta de acesso à saúde, é uma meta possível, que pode estar a nosso alcance na rotina diária, na convivência com a família e os amigos e em um sem-número de experiências simples do cotidiano. Não se trata de estar sorridente o tempo todo, mas de experimentar os altos e baixos da vida com equilíbrio e de saber pedir ajuda quando necessário. A saúde emocional depende de cultivarmos uma vida com propósito e valores espirituais, que nos conectem com nossos semelhantes e com a grandeza da vida na Terra.
*Claudio Lottenberg é mestre e doutor em oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp). É presidente do conselho do Einstein Hospital Israelita e do Instituto Coalizão Saúde.
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