O Fundo de Impacto Estímulo, que começou como uma reação emergencial ao colapso econômico da pandemia, se transformou. Seis anos depois, é hoje um modelo alternativo de crédito no Brasil e já desembolsou mais de R$ 400 milhões para pequenos negócios e apoiou mais de 6 mil empreendedores em todo o país.
Criado em 2020 por um grupo de empresários como Eduardo Mufarej, Abilio Diniz, Pedro Faria, Eugênio Mattar, Rubens Menin, Armínio Fraga, Luciano Huck e Ticiana Rolim Queiroz, além de outras dezenas de lideranças empresariais, o Estímulo evoluiu sem perder o foco inicial que é chegar onde os bancos não chegam, especialmente nos momentos de crise.
“Quando o crédito se retrai, é justamente aí que a gente entra”, afirma o investidor e empreendedor Eduardo Mufarej, um dos idealizadores da iniciativa.
Mesmo antes da Covid-19, metade das pequenas e médias empresas brasileiras já não tinha acesso a crédito, segundo dados do Banco Mundial. Com a economia parando por conta da necessidade de restrição da circulação, o risco era o fechamento em massa de negócios e destruição de empregos.
“A grande questão era evitar o desemprego em massa. Os pequenos empreendedores respondem por 70% dos empregos formais no Brasil”, diz Mufarej.
Inspiração veio de fundos emergenciais
A resposta naquele momento veio em forma de um fundo emergencial inspirado nos “relief funds” dos Estados Unidos, ou seja, fundos emergenciais foram estruturados por empresas, fundações e coalizões privadas para apoiar pequenos negócios afetados por choques econômicos, normalmente por meio de doações diretas ou subsídios.
“Eu fui olhar para os Estados Unidos e vi que já existiam centenas de relief funds sendo criados na pandemia”, afirma Mufarej. O modelo brasileiro seguiu outro caminho. “Em vez de doar e o dinheiro acabar, a gente quis criar algo que voltasse e pudesse continuar ajudando outros empreendedores.”
O plano inicial era durar alguns meses. Mas o comportamento dos próprios empreendedores mudou o rumo da história.
“A gente achava que esse dinheiro não voltaria. Era fundo perdido”, afirma a economista Geyse Diniz, viúva de Abílio Diniz, e uma das mulheres mais poderosas de 2025, segundo a Forbes. O casal foi o primeiro a apostar na criação do fundo.
Para a surpresa de Geyse, o dinheiro voltou. “Os empreendedores começaram a pagar. E mais do que isso: o empresários diziam ‘não quero o dinheiro de volta, reinveste’. Isso deu o pontapé para estruturar o fundo de forma permanente”, diz ela.
O resultado foi a evolução do Estímulo de uma ação emergencial para uma plataforma contínua de crédito, capacitação e conexão. Hoje, cerca de 37% dos empreendedores atendidos tiveram ali o primeiro acesso ao crédito, enquanto mais de 60% estão nas classes D e E .
Modelo Blended Finance
A grande mudança veio com a adoção do chamado “blended finance”, um modelo que combina capital filantrópico e privado. Essas estruturas são geralmente usadas por fundos globais e instituições multilaterais para destravar investimentos em mercados de maior risco. A diferença é que, na maior parte dos casos, o foco está em grandes projetos ou em intermediários financeiros e não no crédito direto a pequenos empreendedores.
“O blended significa mistura dos capitais. A gente reduz o risco percebido e destrava recursos que não chegariam a esse perfil de empreendedor”, explica Lucas Conrado, diretor do Estímulo.
Para ganhar escala e atrair capital privado, o Estímulo passou a operar por meio de um FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios). Na prática, o FIDC funciona como um veículo regulado do mercado de capitais, com gestora, auditoria e governança formal. É nele que ficam os créditos concedidos aos empreendedores, e é por meio dele que investidores participam da operação.
A estrutura é composta por duas camadas principais. A cota subordinada, formada por capital filantrópico, absorve as primeiras perdas da operação, funcionando como uma proteção. Já a cota sênior reúne investidores de mercado que buscam retorno financeiro, mas com impacto social.
“Quando você constrói uma cota subordinada que assume as primeiras perdas, você atrai investidores que não investiriam nesse tipo de operação”, diz Conrado.
O modelo ganhou ainda mais robustez com a entrada de garantias do Sebrae, por meio do FAMP (Fundo de Aval às Micro e Pequenas Empresas), que adiciona uma camada extra de segurança. “Agora os créditos vão com garantia e vêm acompanhados de capacitação e consultoria. É sempre crédito aliado à gestão.”
Se não é exatamente nova, a estrutura adotada pelo Estímulo é rara no Brasil porque combina capital filantrópico e de mercado dentro de um FIDC para emprestar diretamente a negócios de menor porte, com acompanhamento e capacitação.
Se há um ponto de consenso entre os , é que o crédito, isoladamente, não resolve o problema do empreendedor brasileiro. “O crédito entra como impulsionador, mas o que sustenta o crescimento é a gestão”, afirma Conrado.
Por isso, o Estímulo opera com um modelo de crédito orientado que inclui capacitação gratuita, mentorias e acompanhamento contínuo. Os dados do fundo reforçam a tese: empresas que passam por essa jornada têm cerca de 50% menos inadimplência. “A gente começou a entender que não é só sobre dinheiro. É sobre dar direção, dar gestão, dar apoio”, diz Geyse.
Para ampliar o alcance, o fundo aposta agora em tecnologia, com uso crescente de inteligência artificial.
Hoje, toda a operação é digital. A próxima etapa é personalizar a jornada de cada empreendedor, com conteúdos e recomendações adaptadas ao estágio do negócio.
“A tecnologia não é só eficiência. É inclusão com escala”, afirma Conrado. A ambição é acompanhar o empreendedor ao longo do tempo e não apenas no momento do crédito.
Se a pandemia foi o gatilho, o Estímulo encontrou um novo papel nos últimos anos: atuar em emergências recorrentes. O fundo já operou em crises climáticas em diferentes regiões do país, incluindo o Rio Grande do Sul e a Zona da Mata. Só até 2025, mais de R$ 64 milhões foram destinados a negócios afetados por esses eventos . “A gente quer ser uma resposta rápida nesses momentos. Um buffer de ação imediata”, diz Mufarej.