Uma pesquisa do Goldman Sachs estima que 300 milhões de empregos no mundo estão expostos à automação. Essa disrupção já começou. Um novo estudo do MIT FutureTech, baseado em mais de 17 mil avaliações feitas por profissionais sobre 3 mil tarefas reais de trabalho, conclui que a inteligência artificial poderá executar até 95% do trabalho baseado em texto em um nível minimamente satisfatório até 2029.
Essa mudança não chega como um choque repentino. Trata-se de uma evolução lenta e abrangente, que os pesquisadores descrevem como uma “maré crescente”. A IA vem evoluindo de forma contínua em análise, documentação, comunicação e diversas outras atividades típicas do trabalho intelectual, tudo ao mesmo tempo.
Embora essa abordagem soe tranquilizadora, mudanças graduais são mais fáceis de ignorar do que as abruptas. Por isso, o momento de agir é agora. Os cinco passos a seguir oferecem um bom ponto de partida.
Mapeie o seu próprio trabalho antes que alguém faça isso por você
A maioria dos profissionais do conhecimento tem uma noção geral do que faz no dia a dia, mas nunca analisou suas atividades sob a ótica da vulnerabilidade à IA. Comece mapeando sua semana de trabalho, tarefa por tarefa, e identifique aquelas que se encaixam neste perfil:
- Se repetem regularmente ao longo da semana;
- Dependem principalmente de leitura, escrita ou síntese;
- Levam menos de quatro horas do início ao fim;
- Resultam em um documento, resumo, relatório ou outro material escrito.
Segundo o estudo do MIT, essas são as tarefas nas quais a IA já apresenta desempenho aceitável em uma parcela significativa de casos reais.
Profissionais que entendem onde a IA já se sobrepõe às suas funções estão mais preparados para ter conversas informadas com gestores, redirecionar esforços para atividades de maior valor e tomar decisões mais estratégicas sobre o desenvolvimento de habilidades. Esperar que essa conversa seja iniciada por outra pessoa coloca você em desvantagem.
Desenvolva fluência em IA antes que isso vire o básico esperado
A fluência em IA está se tornando um requisito básico profissional, assim como o domínio de planilhas foi para a geração anterior.
Quem desenvolver experiência prática com ferramentas de IA hoje, estará treinando colegas e liderando a adoção dessas tecnologias nos próximos anos. Já quem esperar até que isso seja formalmente exigido, vai precisar correr atrás.
O ponto de partida é usar IA nas tarefas que você já realiza. Veja algumas formas de começar:
- Usar IA para gerar rascunhos de relatórios, e-mails ou apresentações, e depois editar e refinar o conteúdo;
- Resumir documentos longos ou pesquisas antes de mergulhar no material completo;
- Preparar pontos de discussão ou briefings para reuniões com ajuda da IA;
- Testar a IA em tarefas que consomem muito tempo e avaliar criticamente os resultados.
O objetivo, neste estágio, é ganhar familiaridade, desenvolver senso crítico e aumentar a velocidade.
Profissionais que sabem onde a IA funciona bem (e onde ela costuma falhar) estarão muito mais preparados para utilizá-la de forma eficaz e identificar erros que poderiam passar despercebidos.
Direcione seu tempo para atividades que exigem julgamento humano
O estudo do MIT indica que a IA apresenta bom desempenho em tarefas estruturadas, baseadas em linguagem e com escopo bem definido. Já em atividades que exigem leitura de contexto, conciliação de prioridades concorrentes ou tomada de decisões com consequências reais, seu desempenho ainda é mais limitado. É exatamente nesse espaço que os profissionais devem investir tempo e energia.
Isso significa dedicar mais tempo, de forma intencional, a atividades como:
- Gerenciar relações complexas com clientes ou stakeholders;
- Conduzir conversas em que confiança, tom e contexto são essenciais;
- Tomar decisões que exigem julgamento ético ou conhecimento organizacional;
- Estruturar problemas de forma criativa antes de buscar soluções;
- Integrar informações entre equipes ou áreas de forma contextualizada.
A IA pode apoiar muitas dessas atividades, mas ainda está longe de substituir o elemento humano de forma consistente. Profissionais que se posicionam mais próximos desse tipo de trabalho tendem a ser mais difíceis de automatizar e mais valiosos para suas organizações.
Aprofunde sua especialização para continuar sendo necessário
As taxas de sucesso da IA variam por área. No campo jurídico, por exemplo, o índice é de 47% (um dos mais baixos do estudo), em grande parte porque outputs (os resultados gerados) em áreas especializadas ainda exigem revisão, validação e aprovação de especialistas.
Para profissionais do conhecimento, a estratégia é clara: aprofundar-se na sua área, em vez de se tornar generalista. Algumas formas de fazer isso na prática:
- Buscar certificações, cursos avançados ou credenciais especializadas;
- Construir histórico em projetos ou casos mais complexos do seu campo;
- Posicionar-se como a pessoa cujo julgamento é necessário antes que outputs de IA sejam utilizados;
- Manter-se atualizado sobre como a IA está sendo adotada especificamente no seu setor.
Os profissionais mais difíceis de substituir serão aqueles que combinam forte conhecimento técnico com a capacidade de avaliar criticamente os resultados gerados por IA.
A habilidade mais valiosa em um ambiente de trabalho com IA é saber como utilizá-la de forma eficaz.
Profissionais que dominam sua área e conseguem avaliar, orientar e refinar outputs de IA se tornarão essenciais. Já aqueles que enxergam a IA apenas como ameaça tendem a gastar energia na direção errada.
Essa é uma habilidade que pode ser desenvolvida. Algumas formas práticas de começar:
- Praticar a escrita de prompts claros e específicos, que gerem resultados úteis, e não genéricos;
- Criar o hábito de revisar criticamente outputs de IA antes de usá-los ou compartilhá-los;
- Entender os limites do que as ferramentas de IA da sua área conseguem ou não fazer com confiabilidade;
- Participar de projetos de implementação ou avaliação de IA dentro da sua organização.
Profissionais que dominarem essa forma de trabalhar serão os mais valorizados à medida que a adoção da IA acelerar.
Quanto tempo os profissionais têm para se adaptar?
Os pesquisadores do MIT ressaltam que um desempenho quase perfeito da IA na maioria das tarefas ainda está a alguns anos de distância, o que oferece um certo fôlego.
Ainda assim, com a complexidade das tarefas que a IA consegue executar dobrando a cada 3,8 meses e as taxas de sucesso avançando entre 8 e 11 pontos percentuais ao ano, profissionais que começarem a se preparar desde já terão uma vantagem clara sobre aqueles que optarem por esperar.
*Caroline Castrillon é colaboradora da Forbes USA. Ela é mentora de liderança corporativa e ajuda mulheres a lidar com mudanças em suas carreiras.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com