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Ingrid Silva Revela Planos após Última Temporada no Dance Theatre Of Harlem

Depois de 18 anos no Dance Theatre of Harlem, uma das instituições mais respeitadas do balé mundial, a prestigiada bailarina brasileira Ingrid Silva prepara uma mudança de ato. Esta será sua última temporada no palco que a levou ao posto de primeira bailarina, em um movimento que significa menos uma despedida e mais uma expansão. 

Não há ruptura aqui, apenas a continuidade natural de uma trajetória guiada por disciplina, permanência e consciência de espaço. Ao longo desses anos, Ingrid não apenas ocupou um dos palcos mais respeitados do balé mundial; ajudou a redesenhar quem poderia estar sobre ele.

“Encerrar esse ciclo será especial. Foram muitos anos de dedicação. Levo comigo tudo o que construí, aprendi e representei, e continuarei representando. Sigo construindo outros caminhos, em novos palcos”, afirma.

Segunda brasileira a interpretar o solo de Firebird (a primeira foi a lendária Marcia Haydée) na celebração dos 50 anos da companhia, Ingrid construiu um percurso de ascensão raro desde que ingressou, em 2008, no programa pré-profissional. Passou pela companhia jovem, chegou ao corpo principal em 2013 e ali alcançou o posto máximo, em uma trajetória que diz tanto sobre talento quanto sobre consistência.

A decisão de fazer desta a sua última temporada nasce menos de um desejo de encerramento e mais da necessidade de ampliar o território artístico. A partir de maio, passa a coreografar para cinco companhias internacionais, aprofundando um caminho autoral que começou a ganhar contorno nos últimos anos.

Rodolfo SanchesIngrid Silva fez parte da lista de Mulheres Poderosas da Forbes em 2021

Os planos de Ingrid vão além da dança. Ela planeja o lançamento da Ingrid Silva Collection, linha de roupas e calçados criada para ampliar a oferta de dancewear – num mercado que historicamente não oferece trajes com mais apelo para pretos e pardos (como sapatilhas da cor da sua pele). 

Da Mangueira para o mundo

Toda trajetória que atravessa fronteiras começa muito antes do embarque. A de Ingrid teve início em Benfica, na zona norte do Rio de Janeiro, onde a dança apareceu primeiro como descoberta e depois como destino.

Mesmo após 18 anos vivendo no Harlem, a cultura brasileira permanece entranhada em seus hábitos, na maneira de se expressar e na forma como ocupa o mundo. “Nunca perdi minha essência. A cultura brasileira está na forma como me expresso dentro e fora do palco.”

Arquivo PessoalIngrid, aos 10 anos, é a primeira da direita, no projeto Dançando Para Não Dançar, na Mangueira (RJ)

Em casa, prepara uma feijoada anual para os amigos, mantém o estrogonofe entre os pratos recorrentes e cria a filha Laura, de 5 anos, entre referências que atravessam geografias. Apesar da vida estruturada nos Estados Unidos, conserva uma ponte constante com o Brasil por meio de projetos comerciais, masterclasses e criações coreográficas.

Sua relação com a dança começou cedo, quase por acaso, quando a mãe a inscreveu em uma atividade extracurricular no projeto Dançando Para Não Dançar, na Vila Olímpica da Mangueira. O que parecia apenas uma aula revelou-se vocação, percepção que se consolidou quando uma professora lhe fez uma pergunta simples: o que queria ser quando crescesse. “Respondi que queria ser bailarina clássica e ela me fez acreditar que era possível.”

Arquivo PessoalIngrid, aos 16 anos, é a primeira da direita em apresentação do projeto Dançando Para Não Dançar, da Mangueira (RJ)

Aos 18 anos, quando chegou a Nova York para uma audição no Dance Theatre of Harlem, experimentou uma mudança silenciosa de perspectiva. Ao entrar no estúdio e perceber que aquele espaço também poderia ser seu, compreendeu que o sonho deixava de ser abstração para ganhar forma concreta. “Ali minha visão de mundo mudou completamente.”

O que o palco não revela sobre Ingrid Silva

A leveza que ela expõe em cena é sustentada por uma rotina de rigor invisível ao público. São cerca de seis horas diárias de treino, além de uma preparação física e psicológica constante. “O palco mostra a finalização do produto. As pessoas olham e pensam que é fácil, mas não veem o que acontece no estúdio.”

Em um ambiente naturalmente competitivo, destacar-se muitas vezes significa reduzir o círculo ao redor. Ingrid, no entanto, evita interpretar essa experiência como solidão. “Minha competição nunca foram as pessoas à minha volta, e sim eu mesma. Sempre quis ser a melhor versão da minha arte.”

Mais do que isolamento, trata-se de foco, uma disciplina que moldou não apenas sua técnica, mas também sua maneira de estar no mundo.

Legado em movimento

Tornou-se evidente, com o passar dos anos, que a presença de Ingrid já não cabia apenas no palco. Em um universo historicamente marcado pela falta de diversidade, sua trajetória passou a ocupar também um lugar simbólico na transformação da dança.

Depois de anos pintando as próprias sapatilhas para aproximá-las do tom de sua pele, tornou-se, em 2019, a primeira bailarina preta a receber sapatilhas de ponta desenvolvidas nessa tonalidade, gesto que ajudou a levar o debate sobre representatividade no balé para uma conversa global. No ano seguinte, um dos pares pintados manualmente por ela passou a integrar o acervo permanente do Museu Nacional Smithsonian de História e Cultura Afro-Americana.

Rodolfo SanchesFazendo valer a sua sapatilha de ponta, Ingrid em ação em um dos estúdios do Dance Theatre of Harlem

Essa dimensão se refletiu também nos espaços que passou a ocupar. Em janeiro deste ano, Ingrid apresentou uma coreografia autoral na abertura do Fórum Econômico Mundial, em Davos, ao lado do músico e vencedor do Grammy Jon Batiste, inserindo o balé em um dos ambientes mais influentes do pensamento contemporâneo. Em 2025 ela discursou na sede das Nações Unidas em celebração ao Dia Internacional da Mulher, consolidando uma presença que hoje afeta não apenas a arte, mas temas como liderança, impacto e futuro. 

Com projeção crescente – ela fez parte da lista de Mulheres Poderosas da Forbes em 2021 e foi a primeira bailarina a posar nua e grávida para a capa da Vogue –, Ingrid viu sua imagem ultrapassar os limites da dança e alcançar também o imaginário cultural. 

Ainda é pouco, observa ela. “Se você entrar hoje em um teatro, dificilmente verá mulheres negras retintas como primeiras bailarinas. O público quer se sentir representado e ainda temos um longo caminho.”

Seu desejo é contribuir para um cenário em que o talento seja o único critério para abrir portas ao sucesso.

Se o palco abriu caminhos, a escrita surge como forma de garantir que eles não se fechem. Ingrid é autora da autobiografia A Sapatilha que Mudou Meu Mundo, na qual revisita a trajetória que a levou da Mangueira aos grandes teatros internacionais, e do livro infantil A Bailarina que Pintava Suas Sapatilhas, pensado para apresentar às novas geraçõe uma mensagem de identidade e pertencimento. Mais do que relatos pessoais, as obras ampliam sua atuação como formadora de imaginário, especialmente para crianças que ainda procuram referências dentro da dança clássica. 

O movimento continua

A transição para uma fase mais independente deve ampliar sua circulação internacional, aprofundar sua linguagem autoral e consolidar sua atuação como empresária, papel que encara como extensão natural da própria trajetória. “Hoje somos multitarefas. Vou ser tudo ao mesmo tempo.”

Fora dos ensaios, busca o contraponto necessário à intensidade de Nova York: tempo com a família, leitura, viagens e momentos de recolhimento. O futuro, ao que tudo indica, será coreografado por ela mesma.

Beleza: Victoria Borges
Retouch: Sandro Iung
Agradecimento: Dance Theatre of Harlem

Entrevista publicada na edição 138 da revista, disponível nos aplicativos na App Store e na Play Store e também no site da Forbes.



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