O Itaú Unibanco espera uma relativa estabilidade em seus indicadores de inadimplência nos próximos trimestrese não mudou o apetite a risco para crédito, mas está atento aos desafios do cenário atual, afirmou o presidente-executivo do banco, Milton Maluhy Filho, nesta quarta-feira.
“Não antevemos nenhuma ruptura no ciclo de crédito na nossa carteira e a nossa expectativa para os próximos trimestres é de uma relativa estabilidade nos indicadores (de inadimplência)”, afirmou o executivo, em coletiva de imprensa após a divulgação do balanço do primeiro trimestre.
No período, o banco registrou índice de inadimplência acima de 90 dias total de 1,9%, estável no trimestre e na comparação ano a ano. O índice de inadimplência entre 15 e 90 dias fechou o trimestre em 1,7%, de 1,6% no quarto trimestre e 1,8% um ano antes.
Ele ponderou que uma exceção nessa estabilidade pode ser o portfólio de micro, pequenas e médias empresas, que pode ter um acréscimo “irrelevante” de 10 a 20 pontos básicos, sendo mais um efeito “simbólico” relacionado a programas governamentais que deixaram de ter período de carência em boa parte do portfólio. “Mas são carteiras muito garantidas… não vemos nenhum aumento relevante nas perdas esperadas.”
Na carteira de grandes empresas, Maluhy Filho destacou que o banco busca estar sempre atento a eventuais casos isolados, mas reforçou que oportfólio, “com todos os eventos conhecidos pelo mercado”, já tem provisões mais do que adequadas.
Ele ressaltou que não houve uma mudança no apetite a risco do banco, mas destacou que o “apetite é dinâmico” e qualquer mudança no cenário pode levar a ajustes.
“As carteiras estão crescendo nos públicos-alvo de forma relevante, dois dígitos, o que mostra que a nossa estratégia tem dado certo do ponto de vista de qualidade de crédito, consistência, rentabilidade e aumento de engajamento dos clientes nos públicos que a gente decidiu investir e aumentar a penetração e o relacionamento”, afirmou.
Ele destacou que o banco tem uma fortaleza e uma força muito grande nos públicos de média e alta rendas, mas ressaltou que a renda não é a única variável que define seus públicos-alvo. “É um conjunto de informações e, especialmente, testamos esses clientes nos nossos modelos em ciclos mais longos para entender a resiliência desses públicos. Olha para trás, mas também fazemos exercícios olhando para frente. E é isso que define o público.”
“É evidente que o cenário, da forma como ele está hoje, com desafios globais, desafios internos, gera, sem dúvida nenhuma, dado o nível de taxa de juros, menor demanda pelos clientes”, afirmou.
Mas, acrescentou, o guidance para o crescimento de carteira de crédito dado no início do ano está mantido. “O balanço do banco está muito protegido em todas as linhas”, disse, acrescentando que o Itaú “continua muito confortável com a qualidade, mas atento, sem dúvida, aos desafios do cenário.”
De acordo com o diretor financeiro do banco, Gabriel Amado de Moura, o endividamento dos clientes pessoa física do Itaú é bastante menor do que o banco tem visto na indústria como um todo.
Maluhy Filho afirmou que o banco trabalhou ativamente na construção do Novo Desenrola, junto com o Ministério da Fazenda, via Febraban, e que já está operando dentro do programa, mas citou que o público-alvo, proporcionalmente ao portfólio do Itaú, é um pouco menor do que se observa possivelmente em outras instituições na indústria.
ROE
Na teleconferência com analistas, Maluhy Filho ressaltou que o guidance dado no início do ano tem implícitauma rentabilidade acima de 20% e acrescentou que o banco tem conseguido entregar esse ROE recorrentemente e deve manter o ritmo.
O executivo afirmou que, com as informações que tem atualmente, não antevê algum problema em relação à rentabilidade que o Itaú vem registrando. “Vamos continuar entregando uma rentabilidade importante ao longo dos próximos trimestres”, afirmou, acrescentando que pode ter alguma volatilidade, mas reforçando que está confortável com o guidance colocado.
O retorno sobre o patrimônio (ROE) líquido médio consolidado ficou em 24,8% no primeiro trimestre, de 22,5% um ano antes e 24,4% no quarto trimestre de 2025.
De acordo com o diretor financeiro do banco, se considerado o capital mínimo (11,5%) que o banco tem aprovado para o apetite de risco, “que é mais comparável com o que se vê no mercado”, o ROE seria de 25,8% no consolidado e de 27,4% para a operação do Brasil.
Amado também chamou a atenção para efeitos no lucro líquido recorrente do banco de R$12,28 bilhões no primeiro trimestre, que representou alta de 10,4% ante o mesmo período do ano passado, mas queda de 0,3% ante o quarto trimestre.
Ele disse que houve um efeito sazonal, dado que o último trimestre do ano, no setor financeiro como um todo, normalmente há uma atividade econômica maior e a receita do banco também tende a ser maior, enquanto os primeiros três meses concentram pagamentos para as famílias.
Além disso, acrescentou, o Itaú fez no quarto trimestre um pagamentode dividendos (de R$20 bilhões) que normalmente é pago no primeiro trimestre. Esses recursos, explicou, saíram do caixa, não renderam dentro do banco, representando menos R$600 milhões em receita notrimestre por causa dessa saída de caixa quando comparadacom outros trimestres. Ajustado a esse pagamento de dividendos, o lucro teria sido de R$12,7 bilhões, um crescimento de 3,2% na base trimestral.
“O principal destaque do trimestre foi a consistência e a resiliência do banco nos resultados, especialmente em meio a um ambiente mais desafiador para a qualidade dos ativos no Brasil, com o banco demonstrando capacidade de continuar entregando níveis sólidos de rentabilidade em todas as unidades de negócio”, afirmaram analistasdo Citi liderados por Gustavo Schroden, em relatório a clientes. O Citi tem recomendação de compra para as ações do Itaú.
Na bolsa paulista, porém, as ações preferenciais do Itaú caíam 1,7% por volta de 11h25, descoladasdo tom mais positivo do setor.
Mercado de capitais e eleições
Maluhy Filho disse que o banco tinha uma visão mais construtiva para o mercado de capitais para 2026, mas houve um fato novo que é a guerra no Irã e toda essa questão geopolítica, especialmente no Oriente Médio.
“Isso traz umdesafio adicional para os mercados, muita incerteza, é um processo inflacionário para o mundo todo, acaba impactando energia, combustível, fertilizantes, transporte, isso gera impacto na inflação brasileira, inclusive, e, portanto, o Banco Central, diante da incerteza e de uma inflação ou de uma expectativa de inflação mais alta do que a meta, tem mais dificuldade num cenário desse de acelerar a redução de juros”, ponderou.
“Achamos queos volumes este ano tendem a ser de 30% a 40% abaixo do que foram observados no ano passado, em função desse cenário mais desafiador.”
De acordo com o executivo, o cenário geopolítico, o preço do petróleo, juros e câmbio têm feito mais preço no mercado no Brasil do que a questão política, e ponderou que, mesmo que um ano de eleição traga uma volatilidade, que é natural, ainda é cedo.
“Ainda é cedo para falar de eleição. Temos que entender ainda o que vem dos candidatos para que o mercado possa fazer suas conjecturas e posições. Neste momento, não é um cenário que está no nosso radar como um ponto de atenção.”