Mestra em ciência da computação por Stanford, Laura Fiuza Dubugras já trabalhava com tecnologia e testava diferentes ferramentas com inteligência artificial muito antes de ser mãe.
Quando decidiu engravidar, ela mapeou sua fertilidade utilizando o aplicativo Natural Cycles, integrado com o anel inteligente Oura Ring, que mede a temperatura do corpo e consegue indicar o dia de maior fertilidade do ciclo. “O algoritmo entende seu corpo com o tempo. Você não precisa mais logar os dados manualmente, você só vive”, explica Laura, esposa do empresário de tecnologia Henrique Dubugras, cofundador da Brex.
Ela conseguiu o teste positivo já na primeira tentativa com o app — o primeiro a ser aprovado pelo órgão de saúde norte-americano (FDA) como método contraceptivo digital.
Na reta final da gravidez, Carolina Kia, CRO na BRQ, viveu o outro lado da tecnologia na gestação: a sobrecarga com uma enxurrada de informações e conselhos genéricos da internet. A solução foi desenhar sua própria equipe multidisciplinar virtual por meio do ChatGPT.
A empreendedora criou seis assistentes (ginecologista, nutricionista, fisioterapeuta pélvica, personal trainer e consultoras de sono e amamentação) e treinou as ferramentas com prompts (comandos) específicos, exames de sangue e estudos científicos. “Quando perdi o tampão mucoso de madrugada, minha médica estava dormindo. Mandei fotos para a IA e recebi orientações imediatas”, conta ela, que confirmou as diretrizes com a obstetra pela manhã. “Com humanos, há um filtro social; com a IA, posso compartilhar e perguntar qualquer coisa.”
Mesmo após o nascimento do bebê, a inteligência artificial continua presente como suporte na rotina das mães. Bruna Bonilha Villa Dalla, diretora executiva do J.P. Morgan nos EUA, teve seu primeiro filho há poucos meses, e encontrou no ChatGPT um aliado para tirar dúvidas sobre extração de leite, por exemplo. “Pergunto técnicas, horários, se estou fazendo muito ou pouco”, conta. “Se você monta um bom prompt, como ‘me ajude como uma consultora de amamentação especializada, com base em evidências’, a qualidade da informação é boa.”
Apesar de colocar a informação na palma da mão, principalmente para pais e mães de primeira viagem, a IA ainda não substitui o acompanhamento médico. “As melhores tecnologias do setor se posicionam como complemento, e jamais como substitutas de obstetras, terapeutas ou enfermeiras”, afirma Marcella Cardoso, cientista em saúde global com pós-doutorados por Harvard e MIT.

Ferramentas e aplicativos movidos por inteligência artificial servem como uma primeira triagem, especialmente para mulheres que não têm acesso fácil a um especialista ou enfrentam dúvidas fora do horário comercial. “Às vezes, é mais fácil descrever um sintoma para o ChatGPT e perguntar se vale a pena acionar o médico”, diz Laura.
O boom das femtechs
Um estudo de 2025 publicado na plataforma científica ResearchGate indica que 52,5% dos pais já utilizam ferramentas de IA para buscar informações sobre o desenvolvimento e a saúde dos filhos. Além disso, uma pesquisa de 2024 desenvolvida por cientistas alemães mostra que mais de 50% das grávidas acompanham a gestação por meio de aplicativos.
Surgem cada vez mais femtechs – startups de tecnologia voltadas à saúde e ao bem-estar da mulher – com inovações para a maternidade, desde plataformas digitais até um arsenal de dispositivos físicos. “A própria babá eletrônica agora capta movimentos e sons. Também tem a faixinha de respiração, para você não ficar doida pensando se o bebê está respirando ou não”, diz Bruna.

Nos EUA, esse mercado ainda está muito à frente do Brasil. Marcella aponta inovações como a Butterfly Network, um ultrassom portátil assistido por IA, e o Eight Sleep, uma capa de colchão inteligente que ajuda a regular a temperatura da cama.
Entre os apps alimentados por IA que podem auxiliar na maternidade, a cientista cita o Myri Health, que traz planos de recuperação da saúde pélvica; o Phia Health, que monitora a saúde mental no pós-parto; o The Journey App, que traz a assistente Aria AI Doula para suporte emocional e preparação para o parto; e o Willow App, que conta com a agente de IA Ema para dar orientações personalizadas sobre amamentação.
Um dos mais usados pelas mães é o Huckleberry, app americano disponível no Brasil que rastreia padrões de sono para indicar o momento exato em que o bebê deve dormir. “É quase bruxaria: você deita a criança no horário indicado e ela apaga. O aplicativo te ajuda a respeitar janelas de vigília que uma mãe de primeira viagem desconhece”, conta a executiva do J.P. Morgan.
No Brasil, outros apps disponíveis são o sueco Natural Cycles, usado por Laura para mapear a fertilidade; o mexicano Kinedu, que oferece atividades personalizadas para o desenvolvimento infantil; e o brasileiro Caru, um chatbot alimentado com estudos em maternidade que pode ser integrado ao WhatsApp. “O ChatGPT busca o que está fazendo mais barulho na internet e não tem critério do que é um conteúdo bom ou ruim. A Caru só busca o que é alimentado de acordo com estudos da Sociedade Brasileira de Pediatria”, explica Renata Menezes, uma das fundadoras da ferramenta.
Prós e contras da tecnologia
A principal vantagem de todo esse aparato tecnológico se resume ao acesso à informação e à devolução do tempo. “É uma paz de espírito que abre espaço para a mulher pensar no que ela gosta e voltar a investir em si mesma”, avalia Marcella.
As ferramentas ajudam a organizar até mesmo a vida profissional. “Construí todo o meu planejamento de licença-maternidade com o ChatGPT a partir das minhas responsabilidades, as rotinas que eu toco e o que eu deixei com quem do meu time”, conta Kia.

Por outro lado, o excesso de aplicativos, IAs, wearables e informações de todos os lados pode ter um efeito colateral: a “health anxiety”, ou ansiedade de saúde. Ao invés de tranquilizar, a enxurrada de métricas biométricas pode engatilhar a busca compulsiva por diagnósticos e soluções online que, ironicamente, adoece a mãe e sabota a sua autoconfiança.
Um estudo publicado neste ano na Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA aponta que o excesso de pesquisas médicas na internet durante o período perinatal leva à exaustão materna, instabilidade emocional e até à perda de confiança nos profissionais de saúde. “Às vezes, você tem um sintoma simples, pesquisa, e o algoritmo te diz que é algo gravíssimo”, diz a especialista em saúde da mulher. “É a velha história do antídoto e do veneno: o que diferencia os dois é a dose. A ferramenta é a mesma, o que muda é a nossa parcimônia ao usá-la.”
O lado humano na maternidade
Um conhecido provérbio africano diz que é preciso uma aldeia para criar uma criança. Na era digital, por mais afiados que os algoritmos preditivos sejam, a maternidade ainda depende dessa comunidade humana — cuja distância foi encurtada pelas redes.
Grupos segmentados no WhatsApp e aplicativos de conexão entre mães, como o Peanut, respondem dúvidas e acolhem dores que a IA não consegue decifrar. “A IA te dá a técnica e a regra, mas é no grupo de mães que você pergunta: ‘vocês também estão sentindo isso?’”, diz Bruna. “Os bebês não são robôs, e o ajuste fino da maternidade vem da tentativa e erro compartilhados com outras mulheres.”

Embora a tecnologia avance numa velocidade sem precedentes, o cuidado humano ainda está longe de ser substituível. “Nenhuma máquina ou algoritmo, por mais acurado que seja, vai ter o ‘tino’ e aquele pulo do gato que só a conexão humana e o afeto permitem”, diz Marcella.
Olhando para o futuro, elas acreditam que a tecnologia estará cada vez mais personalizada e acessível no dia a dia da maternidade. “A IA vai providenciar e ampliar serviços que eram muito caros – como consultoria de sono e enfermagem noturna”, projeta Laura. “Esse contexto que, hoje, eu preciso escrever para a ferramenta, ela já vai ter pelos wearables e câmeras, lendo em tempo real”, afirma Kia.