A Meta Platforms, controladora do Instagram e do Facebook, encerra março sob forte pressão no mercado, após uma combinação de riscos regulatórios crescentes e preocupações com o ritmo dos investimentos em inteligência artificial retirar cerca de US$ 310 bilhões em valor de mercado ao longo do mês.
As ações acumulam queda de aproximadamente 19% em março, no pior desempenho mensal desde outubro de 2022, período em que a companhia enfrentou forte correção por causa dos gastos com o metaverso. Agora, o mercado volta a questionar a capacidade da empresa de transformar desembolsos bilionários em retorno financeiro consistente, desta vez, na corrida global por IA.
Na semana passada, os papéis aprofundaram as perdas depois de decisões judiciais desfavoráveis envolvendo acusações sobre os impactos das redes sociais no público adolescente. O movimento reacendeu entre investidores o temor de que a Meta possa enfrentar um ciclo de maior regulação e litígios, em um paralelo que alguns analistas já comparam, ainda que com cautela, ao histórico da indústria do tabaco.
Wall Street revisita risco regulatório
O novo foco de preocupação surgiu após um júri no Novo México entender que a empresa teria induzido adolescentes ao erro sobre a segurança de suas plataformas. Em outro caso, Meta e Alphabet foram responsabilizadas em um julgamento relacionado ao vício em redes sociais.
O tema trouxe para o radar um risco que vai além das multas imediatas: a possibilidade de mudanças estruturais no modelo de produto e publicidade voltado a jovens usuários.
Em relatórios recentes, bancos e casas de análise passaram a discutir se o episódio representa um possível “momento Big Tobacco” para as plataformas digitais, isto é, um ponto de inflexão capaz de levar a regras mais rígidas, indenizações e restrições operacionais. Apesar disso, a maior parte do mercado ainda considera prematuro cravar esse cenário.
A pressão pode continuar ao longo do ano, uma vez que outros processos ligados ao uso das redes sociais por adolescentes ainda devem ser julgados na Califórnia.
A conta bilionária da inteligência artificial
Se no campo jurídico o risco é de longo prazo, no financeiro a preocupação está centrada no caixa.
A Meta vem acelerando de forma agressiva os investimentos em infraestrutura de IA, incluindo data centers, chips e capacidade computacional para treinamento de modelos próprios.
O mercado estima que o capex da companhia salte para cerca de US$ 123,5 bilhões neste ano, com potencial de superar US$ 140 bilhões em 2027. Ao mesmo tempo, o fluxo de caixa livre pode sofrer forte compressão, mesmo com a manutenção de crescimento robusto de receita.
Essa dinâmica tem incomodado investidores porque muda o perfil financeiro da empresa: de uma gigante de mídia digital altamente geradora de caixa para uma big tech mais intensiva em capital.
Em outras palavras, o mercado quer evidências de que os bilhões investidos em IA conseguirão se traduzir em monetização via publicidade, novos produtos e maior engajamento.
Apesar das dúvidas, a receita da Meta segue em expansão, sustentada pela força do negócio publicitário e pelo uso crescente de ferramentas baseadas em IA para recomendação de conteúdo e segmentação de anúncios.
Queda nas ações abre debate sobre valuation
Mesmo com a forte correção, Wall Street segue majoritariamente otimista com o papel.
A ação já recua cerca de 33% em relação à máxima histórica, o que reduziu múltiplos e tornou a empresa uma das mais baratas entre as megacaps de tecnologia. Hoje, a Meta negocia perto de 16 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses, um desconto relevante frente a pares do setor.
O consenso dos analistas continua amplamente positivo, com a maior parte das recomendações em compra e expectativa de recuperação relevante no horizonte de 12 meses.
Para parte do mercado, a queda recente reflete mais um ajuste de percepção sobre risco e retorno dos investimentos em IA do que uma deterioração estrutural do negócio.
A questão central agora é se a Meta conseguirá provar, nos próximos trimestres, que sua nova aposta bilionária tem potencial de repetir o sucesso financeiro que a publicidade digital entregou nos últimos anos.