Belo Horizonte – Na tarde de 15 de abril de 2026, uma equipe da Band Minas saía de uma reportagem aparentemente rotineira, mas carregada de simbolismo. A repórter Alice Ribeiro, 35 anos, e o cinegrafista Rodrigo Lapa, 49, haviam acabado de registrar ao vivo o início das obras de duplicação do trecho mais perigoso da BR-381, a tristemente famosa “Rodovia da Morte”, entre Belo Horizonte e o Vale do Rio Doce.
Minutos depois, no km 438, em Ravena, distrito de Sabará, na Região Metropolitana da capital mineira, o carro de reportagem colidiu frontalmente com um caminhão.
Eles não resistiram e suas mortes chocaram Minas Gerais e o país inteiro. A comoção mobilizou veículos de comunicação, políticos, personalidades e o público em geral. Alice e Rodrigo estão recebendo homenagens de todo o Brasil e sendo lembrados por seu trabalho e pelo que deixaram em vida.

Alice estava em coma na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital João XXIII
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Ela tinha 35 anos
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A repórter deixa o marido e o filho de apenas 9 meses
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Além dela, Rodrigo Lapa também morreu no grave acidente
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Rodrigo Lapa, cinegrafista da Band Minas morto após acidente de trânsito fatal
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Rodrigo Lapa era descrito como alegre, proativo e dedicado a trabalhos comunitários

Cinegrafista da Band Minas morre em acidente de trânsito fatal
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Rodrigo morreu no local. Alice foi resgatada em estado grave pelo helicóptero Arcanjo do Corpo de Bombeiros e levada ao Hospital João XXIII, onde entrou em coma. Na noite de 16 de abril, a morte encefálica foi confirmada. A ironia trágica chocou o país: eles estavam justamente denunciando o perigo daquela estrada e morreram nela, logo após cumprirem a pauta.
A BR-381, especialmente o trecho entre BH e Governador Valadares, carrega há décadas o apelido de “Rodovia da Morte” por causa do alto número de acidentes graves, mortes e feridos. O Governo Federal havia autorizado, no final de março, o início das obras de duplicação do Lote 8A (18 km entre Caeté e Ravena, com investimento de R$ 405 milhões e previsão de entrega no primeiro semestre de 2028).
Alice e Rodrigo estavam lá para mostrar o começo das máquinas. A reportagem que fizeram era sobre esperança de segurança. A tragédia que se seguiu reacendeu o debate sobre a urgência dessas obras e gerou uma onda de comoção nacional.
O luto na imprensa mineira e as homenagens
O acidente mobilizou imediatamente a imprensa de Minas e ganhou repercussão nacional. Veículos de imprensa de todo o país repercutiram o caso. Em Belo Horizonte, o velório de Rodrigo, no Cemitério do Bonfim, reuniu familiares, amigos, colegas, autoridades e foi marcado por emoção intensa.
O prefeito de Belo Horizonte, Álvaro Damião (União), ex-jornalista, esteve presente de forma discreta, abraçando parentes e demonstrando solidariedade. Após a confirmação da morte de Alice, ele manifestou publicamente seu pesar, destacando a dor da perda de profissionais que faziam exatamente o que ele viveu por toda a carreira.
“Para mim, é difícil porque o que eles [a equipe de reportagem] estavam fazendo, eu fiz a minha vida inteira: sair para fazer coberturas pelo Estado e Brasil afora. Quem está no banco do passageiro divide amizade, cinegrafista e repórter. Eu vim ser solidário”, declarou Damião.
O prefeito, que conhece as estradas mineiras de longa data, criticou as condições da BR-381: “É inadmissível você ter, em pistas de um estado como o nosso, a divisão entre uma pista e outra ser apenas uma faixa amarela no chão. Quando falamos isso para pessoas da Europa, de outras partes do mundo, elas nem conseguem entender não haver uma mureta de proteção ali”.
A Band Minas emitiu nota oficial emocionante, definindo Alice como “apaixonada pela profissão” e “o coração das nossas manhãs”, alguém que, mesmo em dias ruins, arrancava risos da redação. Colegas publicaram homenagens nas redes sociais e a rede fez reportagens especiais sobre os dois funcionários.
O Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (SJPMG) manifestou solidariedade aos familiares e colegas. O Atlético-MG lamentou o falecimento e desejou força à família e à emissora.
A Polícia Militar de Minas Gerais, a Polícia Civil e o Corpo de Bombeiros publicaram nota de pesar, expressando condolências à família, amigos e profissionais que atuavam em prol da informação à sociedade mineira.
A Polícia Rodoviária Federal (PRF), onde trabalha o marido de Alice, João Dadalt, reforçou o apoio à família. “Com imenso pesar, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) lamenta o falecimento de Alice Maria Ribeiro dos Santos Dadalt, ocorrido ontem, quinta-feira (16), em Minas Gerais”, diz trecho da nota.
O governador Mateus Simões, o ex-governador Romeu Zema e o Tribunal de Justiça de Minas Gerais também emitiram notas de luto, destacando a perda irreparável para o jornalismo mineiro.
“Que Deus conforte o filho de Alice, os familiares de Rodrigo, amigos e colegas de redação. Minha solidariedade a toda a equipe da Band Minas neste momento de tanta dor”, escreveu Simões
Quem era Alice
Alice Maria Ribeiro dos Santos Dadalt era natural de Belo Horizonte, formada em Jornalismo pela PUC Minas (2015). Começou como estagiária na TV Globo Minas, TV Alterosa e Record TV Minas. Passou por TV Leste (Record, em Governador Valadares), Rede Bahia (Globo) e, em 2021, entrou na Band. Em agosto de 2024, voltou para BH como repórter da Band Minas.
Apaixonada pela profissão, Alice era “o coração das nossas manhãs”, como definiu a emissora. Defensora de pautas sociais, especialmente sobre autismo (tema que abraçava por causa do irmão Bê), ela tinha um olhar empático e humano.
Esposa do policial rodoviário federal João Dadalt, da Polícia Rodoviária Federal (PRF), vivia o auge da maternidade: planejava a festa de um ano do filho Pedro, de 9 meses, a quem carinhosamente chamava de “astronauta”.
Solidariedade: A família autorizou a doação de rins, pâncreas, fígado e córneas (o coração não pôde ser doado por inviabilidade clínica).
Quem era Rodrigo
Rodrigo Lapa, natural de Porto Alegre e radicado em Minas, era cinegrafista experiente, com passagens marcantes pela Band Minas. Cobriu Carnaval de BH, tragédias das chuvas na Zona da Mata e pautas comunitárias. Formado como palhaço, levava alegria a crianças hospitalizadas e brilhava no projeto Garagens Periféricas. Deixa a esposa e a filha Lis, de 7 anos.
No velório, o irmão Ricardo Lapa, 38 anos, se emocionou ao prestar homenagem ao “irmão do meio”.
“Ele sempre feliz e faceiro com a vida. Sempre foi bolador de ideias novas e brilhantes. (…) Cuidou da casa como ninguém, ajudava em tudo, tudo: carro, moto, vídeo…”, disse Ricardo, com os olhos marejados. Ele descreveu o irmão como:
“incrível. Marido, pai, cinegrafista, palhaço Mequetrefe, ‘laser man’, marido de aluguel, mecânico, técnico de inspeção veicular, videomaker, fotógrafo, piloto de drone… a lista é longa”.
E completou, emocionado: “Era um ser humano diferenciado, eu nunca vou me esquecer dele”. Ricardo lembrou ainda uma internação grave de Rodrigo em 2024, quando o cinegrafista, mesmo no CTI, acordou rindo do irmão que havia desmaiado ao vê-lo mal: “Meu irmão era muito alegre. Onde que ele ia ele acabava contagiando todo mundo, todo mundo virava amigo dele”.
A tragédia de Alice e Rodrigo não foi apenas uma notícia triste — foi um alerta. Eles morreram fazendo o que mais amavam: informar. Seu último trabalho, ironicamente, pedia exatamente o que a BR-381 precisa com urgência: segurança. Que o legado deles inspire não só as melhorias das rodovias mineiras, mas também o respeito à vida de quem leva informação ao povo mineiro e brasileiro.