O setor industrial atravessa uma transformação profunda, definida por uma nova ordem de poder entre China, Estados Unidos e o bloco europeu. No epicentro dessa mudança está a “IA generativa”, uma tecnologia que deixou de ser promessa futurista para se tornar o pilar de produtividade que separa nações competitivas daquelas em risco de estagnação.
Durante a Hannover Messe 2026, Cedrik Neike, CEO da Siemens Digital Industries, apresentou sua visão sobre como a inteligência artificial está redefinindo o valor econômico e o papel do ser humano na indústria. Segundo Neike, o verdadeiro diferencial competitivo não residirá na criação de modelos de IA, que tendem a se tornar commodities, mas na capacidade de desenvolver aplicações industriais práticas e escaláveis.
Neste tabuleiro geopolítico, a Europa e economias emergentes enfrentam pressões distintas. Enquanto a China domina pela infraestrutura avançada e os EUA aceleram a reindustrialização com modelos de ponta, Neike aponta o Brasil como um núcleo industrial vital. Segundo ele, com cerca de 350 mil empresas industriais e players globais do perfil da Embraer, o país possui o potencial necessário para se manter relevante na cadeia de suprimentos global, desde que adote a modernização de processos como uma estratégia de sobrevivência frente à velocidade de inovação das superpotências.
“A grande questão não é se a IA vai tirar empregos, mas sim como vamos conseguir produzir o que o mundo precisa sem ela. Estamos enfrentando uma lacuna demográfica massiva. A IA não está aqui para substituir as pessoas; ela está aqui para dar ‘superpoderes’ aos trabalhadores que já temos, permitindo que eles foquem na criatividade e na resolução de problemas, enquanto a tecnologia cuida da complexidade técnica exaustiva”, afirmou Neike.
O temor da substituição de mão de obra por máquinas é refutado por Neike com dados históricos. Ao analisar unidades fabris altamente automatizadas da Siemens em Erlangen e Hamburgo, observa-se que o nível de emprego permanece estável desde a década de 1980. O que ocorreu foi uma migração de competências: a automação assumiu tarefas repetitivas, elevando a eficiência operacional entre 40% e 50%. “A IA atua como um facilitador que remove o trabalho repetitivo, liberando profissionais para funções de engenharia sistêmica e gestão de qualidade, áreas que hoje sofrem com uma escassez global de talentos.”
“Queremos que o engenheiro do futuro precise apenas descrever o problema para que a máquina apresente a solução. Ao remover as barreiras da linguagem de programação complexa, estamos na verdade abrindo a indústria para uma base de talentos muito mais diversa. É sobre aumentar a produtividade para manter a indústria competitiva em regiões de alto custo laboral, garantindo que as fábricas permaneçam onde as pessoas vivem”, explicou o executivo.