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“Nunca Ousei Sonhar Com o Sucesso que Alcancei”, Diz Autora Best-Seller Valérie Perrin

Com mais de 245 mil livros vendidos no Brasil, a francesa Valérie Perrin se consolidou como uma das autoras mais lidas no país com os best-sellers “Três”, “Água Fresca Para as Flores” e “Querida Tia”. Em março deste ano, a editora Intrínseca completou a publicação de sua obra por aqui com o lançamento de “Os Esquecidos de Domingo”.

Embora esteja chegando só agora às prateleiras brasileiras, este é, na verdade, o romance de estreia da escritora. Foi a obra que pavimentou seu caminho até se tornar um fenômeno editorial global, com livros traduzidos para mais de 30 idiomas. “Quando decidi escrever meu primeiro romance, achava que só escreveria um. Era uma necessidade de escrever, como uma obsessão que não larguei até ganhar corpo e vida”, diz Valérie em entrevista à Forbes Brasil. “Nunca ousei sonhar com o sucesso que alcancei.”

Conhecida por histórias que mesclam protagonismo feminino com a poesia do cotidiano e um fundo de romance policial, a autora, hoje com 59 anos, publicou sua obra de estreia na França há 11 anos. “Antes, eu fazia trabalhos de sobrevivência, que me possibilitassem alimentar minha família e pagar meu aluguel”, relembra ela, que fez carreira como roteirista e fotógrafa. “Hoje, me tornei financeiramente independente. Não espero mais me darem trabalho para suprir minhas necessidades. Tenho o trabalho dentro de mim.”

Pela frente, a escritora já planeja sua próxima história, que ainda ganha contornos em suas mãos. “Não quero escrever o mesmo livro dez vezes. Não sigo um manual de instruções”, afirma. “Quero, a cada vez, renovar minha experiência e trazer algo de novo para os leitores.”

A seguir, Valérie Perrin reflete sobre seu processo criativo, a força de suas protagonistas femininas e os conselhos que daria a quem sonha em viver da própria escrita.

Forbes: Você é uma das escritoras mais lidas no Brasil. Por que acha que a sua literatura se comunica tão bem com o público brasileiro e ao redor do mundo?

Valérie Perrin: Isso ainda é um grande mistério para mim e um orgulho inacreditável. Muitos leitores brasileiros postam as capas dos meus romances nas redes sociais, fazem comentários incrivelmente positivos. Não tenho segredo, não sei por que meus romances tiveram tamanho sucesso, honestamente. Mas agradeço por isso todos os dias.

Como começou sua paixão pela escrita?

Ela vem da minha paixão pela leitura. Sou louca por livros. Quando decidi escrever meu primeiro romance, achava que só escreveria um. Era uma necessidade de escrever ele, como uma obsessão que não larguei até ganhar corpo e vida, até sair em 2015 na França e ser recebido com esse sucesso com o qual nunca ousei sonhar.

Você foi fotógrafa e roteirista antes de ser escritora. Qual foi o ponto de virada para apostar nessa carreira?

Nunca planejei virar escritora. Queria apenas escrever a história de “Os Esquecidos de Domingo” para dar destaque às pessoas idosas e a uma jovem cuidadora, com tudo que há nesse romance — poesia, mistérios e segredos de família.

Escrevi esse romance depois dos 40 anos, e ele foi publicado quando eu tinha 48. Simplesmente porque, antes, eu fazia trabalho de sobrevivência, que me possibilitasse alimentar minha família e pagar meu aluguel. Aos 47 anos, passei seis meses em casa, então tive tempo para escrever e aproveitei para terminar o livro.

Olhando para esses últimos 11 anos, o que diria que mudou desde que escreveu “Os Esquecidos de Domingo”?

Me tornei financeiramente independente. Não espero mais me darem trabalho para suprir minhas necessidades. Tenho o trabalho dentro de mim. Além disso, criei um vínculo muito forte com meus leitores. Também tenho uma pressão cada vez maior para não decepcionar meus leitores em livros futuros, ou seja, não quero escrever o mesmo livro dez vezes. Quero, a cada vez, renovar minha experiência e trazer algo de novo, por isso sinto essa pressão fortíssima de romance em romance.

Qual a importância do protagonismo feminino nas suas histórias?

Há mulheres fortes em todos os meus romances. Personagens que frequentemente enfrentaram provações muito difíceis, como tantas mulheres neste mundo. Amo a coragem das mulheres, sua inteligência e o modo que têm de sempre encontrar soluções; acho que também tem muito a ver com o fato de virar mãe, pois, a partir do momento em que nos tornamos mães, sabemos fazer tudo, entendemos tudo. Sentimos muito do invisível. E, frequentemente, gosto que minhas protagonistas tenham humor, porque não devemos nos levar muito a sério.

Em “Os Esquecidos de Domingo”, você trabalha com o espelho de duas gerações de mulheres. Por que esse tema te atraiu?

Desde criança, sou fascinada pelas pessoas idosas. Quando pequena, batia na porta dos meus vizinhos para perguntar sobre a vida deles de antigamente. A meu ver, uma pessoa mais velha é um tesouro a interrogar, e também um tesouro a proteger. Quanto ao trabalho de cuidadora, considero que são pessoas muito corajosas, de quem falamos pouco, e que fazem um trabalho frequentemente notável, que eu também queria destacar. Como acredito que todo ser humano tem, dentro de si, uma história extraordinária, misturei a história de Justine, uma jovem cuidadora, com a de Hélène, mulher no crepúsculo da vida. E, no fundo, trotes misteriosos que causam muitas coisas nessa casa de repouso.

De onde vem a inspiração para as suas histórias?

No caso de “Os Esquecidos de Domingo”, veio das minhas duas avós, que eu amava, e da paixão amorosa que sempre me fascinou. Também há, nesse romance, a história de uma gaivota que é muito importante. É uma lenda que eu inventei, mas na qual acredito. Por exemplo, tenho certeza de que minha ave-símbolo é um melro. Um melro bonitinho, preto, de bico laranja, e que canta maravilhosamente bem — quando vejo um, penso “pronto, é um sinal dos céus”.

Hoje, como funciona o seu processo criativo?

Passa pela leitura de outros romances. Desde que “Querida Tia” saiu, na França e no mundo, tenho lido à beça. Fora isso, durante o processo de escrita, escrevo por algumas horas de manhã cedo e releio à noite.

Qual a diferença entre a sensação de começar a escrever e concluir um livro?

Quando começo um livro, estou cheia de perguntas e cheia de respostas, e é como se montasse um quebra-cabeça que já passou muito tempo na minha cabeça. Foi assim com meus quatro romances: eu tinha todos os elementos em mente e os três pontos cruciais da narrativa onde eu queria mirar. Sempre sei o final, mas posso mudar de caminho, posso tomar decisões relativas aos personagens se me sinto mais próxima ou mais distante deles.

E toda vez que terminei um romance senti uma alegria imensa, porque cheguei ao final do processo da escrita e estou feliz; se não estivesse feliz, não entregaria o manuscrito.

Que conselho você daria para mulheres que desejam começar a escrever hoje?

Diria: escreva para seus potenciais leitores, não para você. E escreva, acima de tudo, uma história que, a seu ver, é essencial. Tem que ser uma necessidade. Senão, não adianta. Diria também que não é necessário tentar fazer grandes frases literárias, mas sim buscar a sinceridade do fundo do seu coração. Se você for sincero ao escrever, o leitor ficará emocionado.

Pela frente, quais histórias você ainda quer contar?

É uma ótima pergunta, porque não quero escrever sempre a mesma coisa. Para mim, isso é muito importante, não sigo manual de instruções. Penso em várias histórias. No momento, comecei uma, que ainda não sei aonde vai me levar; eu me deixo guiar pelo instinto e por meus prazeres, também minhas dores e questões existenciais.

Uma garantia é que sou muito envolvida na causa animal, então pelo menos continuarei escrevendo ao redor desse tema. Acho que nós, humanos, maltratamos os animais a um nível inimaginável, sendo que são seres sensíveis. Assim como nosso planeta. Hoje, a única causa que deveria unir os humanos é salvar o planeta, mas os grandes tomadores de decisão do mundo preferem a guerra. Só ouvimos falar de bombardeio, homens matam mulheres e crianças morrem bombardeadas. É horrivelmente dolorido. Por isso a importância da literatura e do escapismo.

Ainda guarda algum sonho para realizar, tanto pessoal quanto profissionalmente?

Tenho uma lista comprida de sonhos a realizar. E tenho intenção de me agradar. Por exemplo: aprender a tocar piano. Encontrar meus leitores em eventos de autógrafos, se conseguir escrever outro romance. Voltar à Itália e ao Brasil um dia. Conhecer o Japão, aonde nunca fui. Continuar a plantar árvores ao redor da minha casa na Borgonha. E simplesmente passar tempo com meus filhos, meus enteados e, um dia, meus netos. Um dia, virarei avó, e a vida será ainda mais poderosa. E minhas convicções íntimas e ecológicas, ainda mais firmes. É preciso sempre ter projetos. Quaisquer que sejam.



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