Seja Bem Vindo - 17/05/2026 03:46

O Papel das Feiras em um Mercado de Longo Prazo

As feiras são momentos de aceleração dentro de um processo que é, por natureza, de longo prazo. Em poucos dias, elas reúnem artistas, galeristas, colecionadores, curadores e instituições de diferentes partes do mundo, criando uma intensidade difícil de ser reproduzida em outro contexto.

Participamos de feiras há décadas. Em 2025 foram 11 e, em 2026, devemos chegar a 14. Começamos pela Expo Chicago em 2001 – da qual participamos até hoje e acontece na próxima semana com uma apresentação nossa com obras de Elian Almeida e Mônica Ventura –, e fomos ampliando nossa presença internacional (Cidade do México, Lima, Miami, Nova York, Los Angeles, Londres, Paris, Turim, Madri, Basel, Hong Kong…), acompanhando a própria transformação do mercado de arte, que se tornou mais global, mais competitivo e também mais concentrado. Esse crescimento não foi linear — foi o resultado de escolhas constantes sobre onde estar, o que mostrar e, principalmente, do que abrir mão.

Cortesia do artista e Nara RoeslerVista da instalação de Alberto Pitta na Fireze London 2025, no setor curado Echoes in the present

A decisão de participar de uma feira nunca é simples. O investimento é alto — muitas vezes altíssimo — envolvendo transporte, logística, seguro, equipe, hospedagem e produção de estande. É preciso sempre equilibrar as possibilidades e os desejos. Significa fazer escolhas difíceis, como a curadoria em si: selecionar um número muito reduzido de obras a partir de um universo amplo e, inevitavelmente, frustrar algumas expectativas.

Nem sempre a resposta é imediata — e nem sempre é comercial. A feira é, sobretudo, uma plataforma de posicionamento. Mais do que um espaço de venda, ela cria visibilidade, estabelece contexto e inaugura relações. Um encontro certo na feira pode se desdobrar em outras oportunidades importantes: uma exposição institucional, a entrada de uma obra em um museu, a aproximação de um novo colecionador. Quando o interesse se traduz tanto no campo institucional quanto no comercial, chegamos à situação ideal.

DivulgaçãoJulio Le Parc, Cercles virtuels par déplacement du spectateur, 1966. Obra que integrou a apresentação de Julio Le Parc na Fireze Masters 2013

Alguns exemplos ficaram marcados. Depois de mostrar Julio Le Parc na Frieze Masters London em 2013, ele foi convidado a fazer uma exposição na Serpentine Galleries, em Londres, em 2015. Naquele ano, apresentamos um solo show de Tomie Ohtake na mesma feira, e então em 2016 a Tate adquiriu uma de suas obras.

A repetição é estratégica para consolidar a história da galeria: voltar às mesmas feiras, apresentar certos artistas de forma consistente, construir uma presença contínua. Ao mesmo tempo, existe sempre o desejo de experimentar, de trazer algo novo, além de responder a pressões internas e externas. Não é fácil equilibrar esses movimentos. E nem sempre as apostas dão certo. Já realizamos projetos extremamente interessantes do ponto de vista curatorial, que, no entanto, não funcionaram comercialmente.

Flavio Freire e cortesia dos artistas e Nara RoeslerVista do estande da Nara Roesler na SP-Arte 2025

Mas essa visibilidade é efêmera – são poucos dias. Por isso, a continuidade do trabalho é fundamental. Essa foi uma das razões que nos levou a abrir a galeria em Nova York: dar sequência a essas relações, permitir que contatos iniciados nas feiras se desenvolvam com mais profundidade. As feiras chamam a atenção; a galeria sustenta o vínculo.

As feiras têm também uma dimensão que vai além do mercado: elas entraram definitivamente na agenda cultural das cidades, impulsionando inclusive um circuito de arte ampliado. Durante a semana da SP-Arte, por exemplo, somada às exposições na galeria, apresentamos uma mostra de Marco Castillo na Casa Domschke, projetada por Vilanova Artigas. E na feira, além do estande principal, temos nossa editora no núcleo editorial e, no dia 9, participo de um talk com Miguel Chaia e em seguida temos lançamentos de livros de José Patrício (Nara Roesler Books) e Daniel Senise (Cosac).

DivulgaçãoVista do estande da Nara Roesler na Art Basel Hong Kong, 2019

Há quem vá para comprar, quem vá para observar, quem vá simplesmente para circular ou participar de eventos na feira. Esse encontro de diferentes níveis de interesse e conhecimento cria uma energia particular — uma espécie de entusiasmo coletivo. A SP-Arte é um exemplo importante desse movimento. Temos orgulho de ter participado desde a primeira edição e de acompanhar sua consolidação como a principal feira da América do Sul.

O que aprendi ao longo desses anos é que as feiras não substituem o trabalho contínuo de uma galeria. Elas o intensificam. São momentos em que tudo se acelera — mas é o tempo longo que sustenta o que realmente permanece.



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