Seja Bem Vindo - 09/05/2026 06:39

o Que Funciona na Pele

A cena se repete com frequência no consultório. O paciente chega animado, celular na mão, pronto para mostrar um vídeo que viu nas redes sociais. “Quero fazer esse tratamento, dizem que é revolucionário.” Ouço com atenção, avalio o que está sendo pedido e, não raramente, minha resposta é não. O motivo é sempre o mesmo: ausência de evidência científica consistente que sustente o resultado apresentado na postagem.

Na dermatologia, as inovações surgem em ritmo acelerado e frequentemente acompanhadas de promessas tentadoras: rejuvenescimento rápido, melhora da textura da pele ou estímulo intenso de colágeno. Separar o que é tendência do que é de fato comprovado pela ciência tornou-se um dos principais desafios da prática clínica.

Foi com esse olhar crítico que avaliei o relatório Skintuition, publicado pela BeautyHealth. Ele mapeia cinco tendências globais em saúde da pele: medicalização da beleza, skinimalism, whole-body glow, cuidado cumulativo e regeneração. Algumas dessas direções refletem mudanças relevantes no comportamento do consumidor e na própria prática dermatológica. Outras ainda exigem uma análise mais cautelosa. Menos exagero, mais ciência

A primeira delas, chamada de medicalização da beleza (Beauty, MD), indica que os pacientes estão mais atentos à qualidade da informação e à base científica dos tratamentos. É uma mudança positiva e aproxima o cuidado estético de um modelo mais responsável e fundamentado.

Outra tendência apontada é o skinimalism, conceito que traduz a busca por rotinas mais simples e resultados naturais. Observa-se cada vez mais a valorização da naturalidade e da prevenção. O relatório também destaca a expansão do cuidado para além do rosto: whole-body glow. A saúde da pele passa a ser discutida de forma mais ampla, incluindo couro cabeludo, corpo, metabolismo, nutrição e fatores hormonais.

A ideia de cuidado cumulativo reforça outro princípio já bem estabelecido na dermatologia: resultados consistentes dependem de continuidade. A melhora da qualidade da pele raramente ocorre de forma imediata ou isolada. Ela se constrói ao longo do tempo, por meio da combinação de tratamentos, hábitos adequados e acompanhamento médico regular.

Por fim, o relatório aponta a regeneração celular como uma das fronteiras mais promissoras da medicina estética, com o uso de peptídeos bioativos, exossomos e abordagens relacionadas ao microbioma cutâneo. Trata-se de um campo em evolução, com pesquisas em andamento – porém, nada comprovado cientificamente nem testado em humanos.

Esses tratamentos, especialmente os voltados à longevidade, prometem resultados extraordinários, mas a maioria não sabe a procedência do produto, sequer como são fabricados. Portanto, é importante distinguir inovação de evidência consolidada.

Entre uma tendência promissora e um tratamento estabelecido existe um intervalo fundamental: anos de pesquisa, ensaios clínicos controlados e acompanhamento de longo prazo. É nesse tempo que a medicina constrói evidência e segurança. E é esse tempo que não pode ser ignorado.

Letícia Nanci é especialista em Dermatologia pela Associação Médica Brasileira (AMB) e pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), membro efetivo da SBD, da Academia Americana de Dermatologia (AAD) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCD)

*Coluna publicada na edição 139 da Forbes Brasil, disponível nos aplicativos na App Store e na Play Store.



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