Aplicativos de meditação e terapias digitais para ansiedade hoje estão ao alcance da mão. Ainda assim, um recurso simples e pouco usual tem ajudado muitas pessoas a lidar com o estresse emocional: o bicho de pelúcia.
Pode parecer curioso, mas muitos adultos têm recorrido a esses objetos para aliviar o estresse. Não por acaso, bichos de pelúcia, cobertores pesados, travesseiros e até pequenas joias ou objetos pessoais são chamados de objetos de conforto.
Esse tipo de recurso também tem despertado o interesse de pesquisadores. Estudos mostram que o contato físico com superfícies macias pode reduzir sintomas de ansiedade e depressão. O vínculo com objetos familiares também pode diminuir a percepção da dor.
Mais do que isso, esses objetos oferecem apoio emocional — de forma parecida aos animais de estimação — e promovem sensação de bem-estar.
A ansiedade costuma produzir uma sensação difusa de medo e ameaça. É como dirigir sob forte neblina: a estrada continua ali, mas a visibilidade diminui e o percurso parece mais incerto. Seguimos em frente, porém mais tensos e em estado permanente de alerta.
Objetos de conforto — assim como animais de estimação — podem funcionar como placas de sinalização nessa estrada nublada. Eles ajudam a restaurar uma sensação de segurança.
Essa dinâmica não é novidade na experiência humana. As crianças nos ensinam muito sobre isso. O vínculo que fazem com determinados objetos — um boneco, um cobertor ou até um carrinho — ajuda a reduzir o medo e a angústia diante do desconhecido.
Vejo algo semelhante no cotidiano da minha própria família. Sempre me chama a atenção observar meus netos pequenos dormindo abraçados a seus bichos de pelúcia. Há ali uma tranquilidade muito grande.
Talvez a ciência esteja mostrando que a necessidade de conforto e segurança não desaparece com a idade. Segurar um objeto macio ou familiar pode ajudar a restaurar, no adulto, a tranquilidade que vemos nas crianças.
Ainda assim, é importante deixar um alerta. Objetos de conforto não substituem tratamentos psiquiátricos ou psicológicos. Podem, no entanto, funcionar como um recurso extra de autocuidado.
Às vezes, o alívio do estresse e da ansiedade está em experiências simples e acessíveis — como abraçar o seu travesseiro favorito ou o seu bicho de pelúcia.
*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.
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