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Gabriel Pisano nasceu próximo a um vinhedo no coração da região de Progresso, no Uruguai. Após concluir os estudos de enologia em seu país, Pisano foi ao exterior para conhecer de perto o mundo do vinho. Produziu vinhos em cinco continentes sob a orientação de renomados enólogos e voltou para casa com um valioso acúmulo de conhecimento e experiência.
Hoje, Pisano trabalha ao lado de três tios na vinícola centenária da família, a Pisano Wines, e também em seu próprio projeto experimental, a Viña Progresso, lançada em 2019. Gabriel Pisano é um exemplo de como a indústria vinícola do Uruguai se apresenta: enraizado na tradição centenária do vinho uruguaio e, ao mesmo tempo, aberto às experiências de sua geração.
A viticultura uruguaia vive uma transformação marcada pela combinação de tradições sólidas e um espírito de experimentação, posicionando o pequeno país para se tornar uma força relevante no cenário mundial.
Enraizado na tradição
A presença de videiras no Uruguai é antiga. No entanto, a história comercial do vinho remonta à independência, em meados do século 19, com a chegada de italianos e espanhóis, que combinaram o conhecimento europeu de vinificação com um espírito pioneiro que permanece vivo.
Segundo menor país da América do Sul, o Uruguai é frequentemente ofuscado por Argentina e Chile no setor de vinhos. Um equívoco. Com 99 tipos de solo classificados, clima estável, 660 quilômetros de costa atlântica e 180 vinícolas, o país oferece condições ideais para a produção vinícola.
A uva Tannat
Trazida por imigrantes bascos no final do século 19, a Tannat é, sem dúvida, a uva símbolo do país.
“Tannat é Uruguai, Uruguai é Tannat”, afirma Eduardo Pisano, enólogo de quarta geração da Pisano.
A Tannat é conhecida por seu caráter intenso. Quem aprecia tintos encorpados não se decepcionará. Hoje, no entanto, há espaço também para versões mais suaves.
A vinícola Familia Deicas explora diferentes expressões da Tannat, exibindo profundidade nos rótulos Perludio e Extreme Vineyards by Santiago Deicas, e suavidade nos vinhos Don Pascual Coastal.
“Durante muitos anos, a Tannat era difícil. Extraía demais da madeira. Agora trabalhamos o lado macio. No Coastal, não usamos mais barrica. Mantemos a cor, mas com taninos sedosos. Mais vinícolas no Uruguai estão seguindo esse caminho”, diz Nino Deicas, gerente de marca da Familia Deicas.
O Albariño dos imigrantes
Assim como a Tannat, o Albariño chegou ao Uruguai com imigrantes espanhóis na mesma época. Mas só ganhou relevância em 2001, quando a Bodega Bouza plantou a uva nos arredores de Montevidéu e, em 2004, lançou a primeira produção comercial.
“Meu avô é da Galícia”, diz Juan Pablo Bouza. “Queríamos trazer algo de casa e achamos que o Albariño se adaptaria bem pelo clima similar. Começamos com um hectare. Foi muito bem, então expandimos.”
A costa atlântica uruguaia oferece clima semelhante ao da região espanhola de Rías Baixas, berço do Albariño, resultando em vinhos com frescor e acidez marcantes.
A Pisano Wines hesitou em ampliar o plantio de uvas brancas, mas atendeu a pedidos do importador. “O resultado é bom. Devíamos ter plantado dois ou três anos antes”, afirma Daniel Pisano. “O país está focado no Albariño e estamos indo bem.” Para Paula Pivel, diretora da Alto de la Ballena, “o Albariño se tornou o branco emblemático do Uruguai”.
Abraçando a experimentação
Gabriel Pisano expressa sua visão sobre Tannat e Albariño no rótulo Viña Progresso, explorando diferentes técnicas de vinificação e fermentação para criar vinhos frescos para o paladar moderno.
“Estou flertando com os vinhos naturais. Nem todos os meus vinhos se enquadram, mas quero que sejam o mais naturais possível, sem defeitos.”
Ele não é o único. A Familia Deicas lançou a linha Bizarra Extravaganza Vino Natural, com uso de ânforas e maceração com cascas para produzir vinhos de estilo laranja.
A De Lucca criou o rótulo experimental Ingenia, com flora e fauna nativas nos rótulos. “Nosso objetivo é produzir vinhos que identifiquem este lugar. Trabalhar de forma natural nos dá mais identidade. Queremos um vinho que, em prova às cegas, diga ‘Isto é Uruguai. Isto é De Lucca’”, afirma Agostina de Lucca, gerente de exportação.
Até vinícolas tradicionais, como a Bodega Garzón, inovam com cortes de estilo laranja e variedades menos conhecidas, como Marselan, cruzamento de Cabernet Sauvignon e Grenache. “Há dez anos, quase ninguém conhecia o Marselan. Hoje, sommeliers e apreciadores de novidades gostam dele”, diz o enólogo Germán Bruzzone.
Pablo Fallabrino, neto de imigrante piemontês, iniciou sua vinícola em 1997, produzindo vinhos naturais, sem sulfitos, de baixo teor alcoólico e fáceis de beber. Em 2015, lançou o primeiro Tannat natural e sem sulfitos do país. “Gosto da ideia de produzir sem enxofre. É um risco financeiro”, diz ele, que também elabora Nebbiolo pét-nat, rosé de Barbera, Tannat de sobremesa estilo Ripasso e Gewurztraminer laranja.
Os irmãos Juan Andrés e Alejandro Marichal, da Bodega Marichal, continuam o legado familiar iniciado por imigrantes das Ilhas Canárias e da Itália. Produzem Tannat e Albariño sob o rótulo Marichal e exploram variedades europeias não tradicionais na linha Creatura, como Mencia e Ancellotta. Também fazem vermutes branco, rosé e tinto, o Vermut Flores, à base de Tannat e botânicos uruguaios.
“Há uma nova geração no Uruguai. Os filhos e filhas trazem nova energia para as vinícolas. Há espaço para descobrir coisas novas”, diz Juan Andrés Marichal.
Pronto para brilhar
Apesar de mais de um século de história, o vinho uruguaio ainda é pouco conhecido. Para muitos, seu nome causa estranhamento. Isso permitiu à indústria se desenvolver, cometer erros e encontrar seu caminho sem grande pressão externa.
Hoje, os vinhos uruguaios estão prontos para brilhar no cenário internacional. “Os vinhos uruguaios têm um pé no Novo Mundo e outro no Velho. Não é intencional. É o nosso lugar: intensos no aroma, leves no paladar”, afirma Gabriel Pisano. “Não estamos fazendo vinhos frescos agora porque o mundo quer. Sempre foi o nosso estilo. O mundo é que está alcançando o Uruguai.”