Em um movimento histórico que redefine o papel da Igreja Católica diante de uma das maiores transformações econômicas e tecnológicas do século 21, o Papa Leão XIV publicou nesta segunda-feira, (25), a sua primeira encíclica, intitulada “Magnifica Humanitas” (Magnífica Humanidade). O documento de 105 páginas, considerado o manifesto máximo de seu pontificado, faz uma crítica contundente ao modelo de negócios das Big Techs e convoca líderes globais a regulamentarem e desacelerarem o avanço da Inteligência Artificial. Com um discurso voltado à governança corporativa e ao impacto de mercado, o pontífice norte-americano estabeleceu o que chama de urgência para “desarmar a IA”, tirando-a do controle exclusivo de poucas e influentes corporações globais para transformá-la em um bem comum.
O pontífice argumentou que os dados digitais devem ser tratados de forma análoga aos recursos naturais da Terra, pertencendo a toda a humanidade e não a proprietários privados. O líder religioso rejeitou frontalmente o argumento corporativo de neutralidade tecnológica, afirmando que nenhum algoritmo é isento de intenções, pois todos absorvem os valores, incentivos financeiros e pontos cegos de quem os projeta e financia. O pontífice alertou que “a concentração desse poder computacional nas mãos de pequenos grupos oligárquicos distorce processos democráticos, molda padrões de consumo de forma opaca e aprofunda as desigualdades globais entre os incluídos e excluídos digitais”.
A encíclica dedica capítulos rigorosos ao mercado de trabalho e às tomadas de decisão corporativas automatizadas. O Papa alertou que a IA frequentemente força o trabalhador a se adaptar ao ritmo frenético da máquina, em vez de ser desenhada para apoiá-lo. Ele declarou que a busca obstinada por lucros maiores não pode justificar escolhas de engenharia que sacrifiquem empregos sistematicamente em larga escala. Em suas palavras, o ecossistema econômico deve permanecer subordinado à dignidade humana e ao bem comum. Além disso, o texto condena explicitamente a delegação de decisões sensíveis de demissão, crédito ou concessão de direitos a sistemas automatizados que não conhecem compaixão e operam com dados contaminados por vieses históricos.
Durante a apresentação da encíclica no Vaticano — que contou com a participação inédita de Chris Olah, cofundador da empresa de IA Anthropic, Leão XIV rebateu os executivos do setor que classificam as tentativas de restrição como um entrave à inovação. O Papa defendeu que exigir prudência, avaliações rigorosas e, por vezes, um ritmo mais lento na adoção de modelos de IA não significa opor-se ao progresso, mas sim exercer um cuidado responsável pela família humana. Ele ponderou que mesmo as tentativas recentes de startups de criarem “constituições éticas” internas para seus modelos são insuficientes se essa moralidade continuar sendo ditada por um grupo restrito de diretores.