Uma onda recorde de migração global de riqueza está remodelando os Emirados Árabes Unidos (EAU). O movimento está posicionando o país como o principal destino mundial para milionários. Longe de ser apenas uma tendência de estilo de vida, esse fluxo está transformando capital privado em empreendedorismo, investimentos e empregos de alto valor.
Isso está impulsionando a economia não petrolífera e acelerando a transição para um modelo de crescimento diversificado. O apelo do país reflete um aumento na demanda por segundas residências e passaportes alternativos entre magnatas do Reino Unido, Índia, Rússia, Sudeste Asiático e África.
Clareza tributária, estabilidade política, segurança e acesso estratégico a mercados globais em três continentes dentro de um único fuso horário impulsionam esse movimento.
Famílias ricas estão se mudando em um ritmo sem precedentes, em resposta a tensões geopolíticas, reformas fiscais e incertezas regulatórias. O capital agora se desloca mais rápido do que nunca — muitas vezes à frente dos fundamentos econômicos — à medida que os mais ricos priorizam segurança, flexibilidade e estabilidade de longo prazo.
“O aumento expressivo de milionários escolhendo os EAU como base reflete uma realocação estrutural do capital global, e não uma tendência passageira. Segundo dados recentes, estima-se que o país atraiu 9.800 milionários em 2025, o maior fluxo líquido do mundo, enquanto o Reino Unido registra maior saída líquida”, afirmou Hamza Dweik, chefe de produto do Saxo Bank MENA, à Forbes Middle East.
Esses indivíduos de alto patrimônio, trazendo uma riqueza combinada de até US$ 63 bilhões (R$ 327,6 bilhões), estão cada vez mais criando empresas em inteligência artificial, tecnologia e comércio eletrônico, contribuindo para um aumento de 4% nas contratações apenas no segundo trimestre de 2025.
“Os marcos regulatórios em rápida evolução nos EAU — da clareza em ativos digitais à estrutura de family offices — criam um ecossistema onde fluxos de capital se convertem em empreendedorismo e geração de empregos. Em contraste, o Reino Unido perde mais de 16 mil milionários, mostrando que, quando se constrói para execução e não para contornar restrições, a riqueza acompanha”, disse Shivkumar Rohira, CEO (EMEA) do Klay Group, à Forbes Middle East.
Transformando riqueza em crescimento
O aumento na migração de milionários para os EAU é sustentado por uma combinação de segurança, qualidade de vida, conectividade global e um ambiente competitivo com baixa carga tributária.
“Dubai, em particular, se posiciona na vanguarda da digitalização — de mercados de criptomoedas regulados pela Virtual Assets Regulatory Authority (VARA) à tokenização imobiliária e registros fundiários baseados em blockchain por meio do Dubai Land Department”, afirmou Madhur Kakkar, fundador e CEO da Elevate Financial Services, à Forbes Middle East. “Estruturas de visto progressivas, licenças para freelancers e governança digital responsável reforçam ainda mais sua atratividade para famílias e empreendedores globais.”
Uma questão central, no entanto, é a capacidade dos mercados de capitais e da infraestrutura financeira dos EAU de direcionar essa riqueza para um crescimento sustentável de longo prazo fora do petróleo.
“Os EAU estão bem posicionados para converter esse influxo em ganhos econômicos sustentáveis. A mudança estrutural já é visível: investimentos imobiliários crescem, enquanto setores não petrolíferos impulsionam o avanço por meio de gestão de patrimônio, investimentos em infraestrutura de IA e criação de family offices, que geram demanda contínua por serviços jurídicos e de compliance”, destacou Rohira.
De acordo com Rohira, citando a Bloomberg, a presença de hedge funds no Dubai International Financial Centre dobrou em 18 meses, enquanto o ADGM registrou aumento de 42% no número de entidades, à medida que empresas globais estabelecem sedes regionais.
“O diferencial desse movimento é a velocidade de conversão. O capital que chega rapidamente se transforma em empresas, investimentos e geração de empregos em setores de alto valor”, explicou.
Investimento estrangeiro
Para Rohira, os EAU atraíram mais de US$ 45 bilhões (R$ 234 bilhões) em investimento estrangeiro em 2025. Esse é um crescimento de quase 50% ante ao ano anterior, enquanto atividades não petrolíferas já representam 77% do PIB.
“Esses números reforçam a aceleração da diversificação econômica e apoiam as metas da estratégia We the Emirates 2031, voltada à construção de uma economia baseada no conhecimento”, acrescentou.
Dweik destacou que muitos dos indivíduos que se mudam são investidores ativos e fundadores de empresas, e não apenas detentores passivos de ativos.
Kakkar ressaltou que esse fluxo de ultrarricos impulsiona a demanda por gestão de patrimônio, private banking, family offices, imóveis de luxo e serviços jurídicos, além de estimular inovação em fintech, com geração de empregos em hubs como o Dubai International Financial Centre.
Por que a riqueza está migrando?
Consultores financeiros observam que a migração é cada vez mais guiada pela gestão de riscos, e não apenas por oportunidades. Famílias ultrarricas diversificam sua presença geográfica para se proteger contra mudanças regulatórias abruptas, instabilidade política ou alterações fiscais inesperadas.
“O movimento não é impulsionado apenas por impostos, mas por previsibilidade regulatória, planejamento de longo prazo, equilíbrio entre vida pessoal e profissional e acesso a mercados em expansão”, afirmou Dweik.
“A força está no alinhamento desses fatores: política migratória, desenvolvimento dos mercados de capitais e estratégia econômica atuam de forma coordenada, criando um ambiente confiável para o capital global”, completou.
Apesar da forte atratividade, manter a posição de principal destino de milionários traz desafios. A concorrência global se intensifica, com países como Singapura, Suíça e Portugal aprimorando políticas de residência, tributação e investimentos.
Analistas apontam que, com mais países oferecendo vistos para investidores e incentivos fiscais, a diferenciação se torna mais difícil.
Internamente, o aumento de residentes ricos pressiona a infraestrutura. A demanda por imóveis de luxo, educação de alto padrão e saúde avançada cresce, levantando preocupações sobre possível superaquecimento em alguns setores.
Mesmo com os desafios, se esse ritmo se mantiver, os EAU tendem a se consolidar não apenas como destino preferido de milionários, mas como uma economia resiliente, diversificada e menos dependente de hidrocarbonetos.
*Matéria originalmente publicada em Forbes.com