Vaca Muerta, localizada na Bacia de Neuquén na Patagônia Argentina, volta a se posicionar no centro do cenário energético global. Um relatório recente do Bank of America (BofA) projeta um panorama de expansão para o principal reservatório argentino de petróleo e gás. A produção pode dobrar no prazo de cinco a sete anos, impulsionando o país a um papel mais relevante no mapa mundial das commmodities.
É quase consenso no mercado que o potencial de crescimento de Vaca Muerta não apenas é significativo, como também cada vez mais concreto.
O relatório destaca que a Argentina reúne uma combinação de fatores que favorecem esse avanço produtivo. Por um lado, a qualidade geológica dos recursos não convencionais segue como um dos principais atrativos. A isso se soma um ecossistema técnico em evolução, com ganhos contínuos de eficiência operacional e no uso de tecnologias de perfuração e completação.
Por isso, a bacia neuquina tem despertado o interesse de players internacionais em busca de ativos rentáveis e com potencial de escala. A possibilidade de integrar novos projetos ao regime de incentivos a grandes investimentos (RIGI) também aparece como um catalisador para acelerar a atividade no upstream.
No entanto, o relatório alerta que esse crescimento não é garantido. A estabilidade macroeconômica e um ambiente regulatório previsível serão condições essenciais para sustentar o fluxo de investimentos ao longo do tempo.
Obstáculos no caminho
Um dos desafios apontados é o custo de desenvolvimento. Atualmente, perfurar e completar poços em Vaca Muerta ainda é entre 30% e 40% mais caro do que nos Estados Unidos, reduzindo a competitividade relativa do ativo argentino.
Por outro lado, a análise do BofA indica que o aumento da escala produtiva pode contribuir para reduzir esses custos. À medida que a atividade cresce, economias de escala e a otimização de processos tendem a diminuir a diferença em relação aos principais polos do mundo.
Outro ponto distintivo do desenvolvimento de Vaca Muerta é o elevado nível de colaboração entre empresas. Segundo relatos de encontros realizados durante a Argentina Week, companhias do setor compartilham informações técnicas, experiências e aprendizados, mesmo competindo por áreas.
Esse modelo permitiu acelerar a curva de aprendizado e fortalecer projetos conjuntos, como iniciativas relacionadas à infraestrutura e à exportação de gás natural liquefeito (GNL).
O relatório também destaca o desenvolvimento do GNL argentino, considerado uma peça-chave para monetizar os recursos em larga escala. Porém, ainda persistem dúvidas entre investidores, especialmente em relação à estrutura de custos, ao financiamento e à evolução dos preços internacionais.
Potência energética?
O contexto geopolítico, marcado por tensões nos mercados globais de energia, pode favorecer o projeto. A necessidade de diversificar fontes de suprimento e reforçar a segurança energética vem reconfigurando o interesse por novas alternativas, incluindo a Argentina.
O avanço em contratos de longo prazo e uma maior previsibilidade de receitas serão determinantes para melhorar a viabilidade financeira dos projetos.
A conclusão do relatório é direta: Vaca Muerta tem potencial para se tornar um dos motores energéticos do mundo na próxima década. Mas, esse avanço dependerá tanto de fatores internos — como estabilidade, regras claras e investimentos — quanto da capacidade do país de se integrar a uma demanda global em transformação.
Se essas variáveis convergirem, a duplicação da produção deixará de ser uma projeção otimista para se tornar uma realidade concreta.
*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com