A troca de comando no Federal Reserve (Fed) marca uma mudança importante na política monetária dos Estados Unidos, e também um reposicionamento político da Casa Branca sobre os juros. Com a saída de Jerome Powell nesta sexta-feira (15), o economista e banqueiro Kevin Warsh assumirá a presidência do banco central americano cercado por expectativas do mercado e pela proximidade histórica com o presidente Donald Trump.
A escolha de Warsh encerra meses de tensão entre Trump e Powell. Ao longo do último ano, o presidente americano intensificou críticas públicas ao Fed por manter os juros elevados, acusando Powell de “frear a economia” em um momento em que a Casa Branca buscava sustentar crescimento, consumo e valorização do mercado acionário. Trump chegou a pressionar abertamente por cortes mais rápidos nas taxas, algo que Powell resistiu em fazer sob o argumento de que a inflação ainda exigia cautela.
Agora, com Warsh no comando, investidores tentam medir até que ponto o Fed poderá se tornar mais alinhado à agenda econômica da Casa Branca.
De Harvard ao centro do poder em Washington
Warsh, de 55 anos, construiu carreira entre Wall Street, Washington e o universo das grandes fortunas americanas. Formado em Direito pela Universidade de Harvard em 1995, iniciou a trajetória no Morgan Stanley, onde chegou ao cargo de vice-presidente e diretor executivo.
Em 2002, ingressou no governo de George W. Bush como secretário executivo do Conselho Econômico Nacional. Poucos anos depois, foi indicado para integrar o conselho do Fed entre 2006 e 2011, período que incluiu a crise financeira global de 2008.
Na época, Warsh ganhou notoriedade por atuar como interlocutor entre o Fed e Wall Street em meio ao colapso do sistema financeiro. Seus críticos, porém, afirmam que sua atuação foi excessivamente próxima dos grandes bancos.
Fortuna bilionária e conexões com a elite republicana
Além da trajetória em Wall Street e em Washington, Warsh chega ao comando do Fed cercado por uma fortuna inédita para os padrões da instituição. Com patrimônio muito superior ao de seus antecessores recentes, ele se tornará o presidente mais rico da história do banco central americano.
Em sua declaração financeira, ele revelou possuir ativos entre US$ 135 milhões e mais de US$ 226 milhões. Sua esposa, Jane Lauder, declarou outros US$ 56 milhões a mais de US$ 95 milhões em ativos. Juntos, o casal acumula uma fortuna que pode ultrapassar US$ 320 milhões.
Jane Lauder é neta da fundadora da Estée Lauder e herdeira de uma das famílias mais ricas do setor de beleza nos Estados Unidos. Seu patrimônio individual é estimado em cerca de US$ 2,7 bilhões.
A conexão política da família também chama atenção em Washington. O sogro de Warsh, Ronald Lauder, é bilionário, grande doador republicano e antigo aliado de Trump. Os dois estudaram juntos nos anos 1960 e mantêm relação próxima há décadas.
Mesmo desconsiderando a fortuna da esposa, Warsh já supera amplamente o patrimônio de Powell, que declarou no ano passado possuir entre US$ 19 milhões e US$ 75 milhões – valor que já fazia do atual presidente do Fed um dos mais ricos da história da instituição.
O que o mercado espera
A principal dúvida agora é como Warsh conduzirá a política monetária americana.
Embora tenha histórico ligado ao establishment financeiro e ao conservadorismo fiscal republicano, ele também é visto como alguém mais aberto a flexibilizar juros do que Powell vinha demonstrando nos últimos meses. Isso alimenta expectativas de que o Fed possa adotar uma postura mais favorável ao crescimento econômico e menos rígida no combate à inflação.
Ao mesmo tempo, sua proximidade política e pessoal com Trump levanta preocupações sobre a independência do banco central americano, um dos pilares históricos da credibilidade do Fed perante investidores globais.
A mudança ocorre em um momento delicado para os Estados Unidos: inflação ainda acima da meta, desaceleração gradual da atividade econômica e um mercado financeiro altamente sensível às decisões sobre juros. Nesse contexto, o estilo de Warsh poderá definir não apenas os rumos da economia americana, mas também o comportamento dos mercados globais nos próximos anos.