Histórias até então esquecidas sobre o trágico acidente radiológico do césio-137 voltaram à tona depois de quase 40 anos com o lançamento da minissérie Emergência Radiotiva, da Netflix. Entre elas, está a identidade de um dos principais responsáveis por garantir o atendimento médico às vítimas.
O engenheiro nuclear Sebastião Maia de Andrade não foi retratado pela produção no streaming. No entanto, foi ele quem confirmou a presença de radiação na cápsula abandonada no ferro-velho e quem comunicou a existência do material radioativo às autoridades.

Sebastião Maia de Andrade, engenheiro nuclear responsável por identificar a radiação no episódio césio 137 em Goiânia (GO)
Reprodução/O Popular

Telegrama enviado por gerente da Vigilância Sanitária de Goiânia (GO) revela participação de engenheiro nuclear no episódio césio-137
Reprodução/Redes sociais

Manchete do Jornal do Brasil sobre a tragédia
Reprodução

Demolição do Ferro Velho onde cápsula de Césio-137 foi aberta pela 1ª vez
Reprodução/Agência Internacional de Energia Atómica

Demolição de casas contaminadas pelo Césio-137
Reprodução/Agência Internacional de Energia Atómica

Leide das Neves, que inspirou a história de Celeste, personagem de Emergência Radioativa. Ela morreu cerca de 1 mês após contato com o Césio-137
Reprodução/TV Anhanguera

Menina de 6 anos foi uma das quatro pessoas que morreram por causa da contaminação com o material radioativo, há quase 40 anos, em Goiânia
Reprodução/TV Anhanguera

Cápsula de onde saiu o Césio-137 que causou desastre em Goiânia
Reprodução/Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN)

Assim como mostrado na série, recipiente com Césio-137 ficou dias em uma cadeira na Vigilância Sanitária
Reprodução/Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN)

Manejo do recipiente com Césio-137 na Vigilância Sanitária
Reprodução/ Livro Césio 137 – 37 anos: A história do acidente radioativo em Goiânia

Maria Gabriela, tia de Leide e esposa de Devair Alves Ferreira, dono do ferro velho onde a cápsula de Césio foi aberta
Arquivo/Polícia Federal

Milhares de pessoas precisaram medir seus níveis de radioatividade
Reprodução/ Livro Césio 137 – 37 anos: A história do acidente radioativo em Goiânia

Velório das vítimas
Reprodução/Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN)

Radiolesão provocada pelo Césio-137 em Goiânia
Reprodução/ Livro Césio 137 – 37 anos: A história do acidente radioativo em Goiânia

Vítima do acidente se despede de parentes enquanto é levada para tratamento no Rio de Janeiro (RJ)
Reprodução/ Livro Césio 137 – 37 anos: A história do acidente radioativo em Goiânia

Equipe médica do HGG que cuidou das vítimas do Césio-137
Reprodução/ Livro Césio 137 – 37 anos: A história do acidente radioativo em Goiânia

Local onde rejeitos do Césio foram depositados
Reprodução/Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN)

Leide das Neves Ferreira tornou-se a vítima símbolo da tragédia. Ela tinha apenas 6 anos de idade
Vinícius Schmidt/Metrópoles

Israel Batista trabalhava no ferro velho de Devair e manuseou, no local, a cápsula de Césio
Vinícius Schmidt/Metrópoles

Maria Gabriela, tia de Leide das Neves, também morreu. Ela e a sobrinha foram enterradas no mesmo dia, em Goiânia
Vinícius Schmidt/Metrópoles

Vítimas que morreram foram enterradas em túmulos especiais, com concreto reforçado
Vinícius Schmidt/Metrópoles

Segundo lote concretado, no Setor Aeroporto, em Goiânia, onde ficava o ferro velho do Devair, que comprou as peças do aparelho que continha Césio
Vinícius Schmidt/Metrópoles

Técnicos da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) fazem monitoramento periódico no local
Vinícius Schmidt/Metrópoles

Atualmente o terreno pertence ao estado e é monitorado para que não haja qualquer intervenção no local
Vinícius Schmidt/Metrópoles

Terreno isolado por concreto especial, no centro de Goiânia, onde ficava a casa de um dos atingidos pelo Césio-137
Vinícius Schmidt/Metrópoles

Lote na Rua 57, no Centro de Goiânia, onde ficava a casa de um dos homens que coletou o aparelho abandonando contendo a cápsula de Césio em 13 de setembro de 1987
Vinícius Schmidt/Metrópoles
Em um telegrama compartilhado pela neta do engenheiro nas redes sociais, Sebastião conta que foi procurado por dois funcionários da Vigilância Sanitária e pelo físico Walter Mendes Ferreira, o primeiro a identificar a radiação – e que na série serve de principal inspiração para o personagem Márcio, interpretado por Johnny Massaro.
Membro do Programa Nuclear Brasileiro e gerente da Nucleobrás (Empresas Nucleares Brasileiras S/A), o engenheiro emprestou um aparelho da estatal capaz de medir os índices de radiação com maior precisão.
“Ao me aproximar do local, a cerca de 100 metros da casa onde estava a peça contaminada, o cintilômetro SPP-2 registrou níveis de radiação superiores a 15 mil contagens por segundo (CPS). Diante disso, alertei os funcionários de que seria necessário adotar medidas imediatas”, relatou o engenheiro.
Menos de três horas depois, o Corpo de Bombeiros já havia isolado a região onde o aparelho radiológico de 23 quilos foi encontrado pelas autoridades. No dia seguinte, funcionários da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) chegaram ao local para realizar testes e medidas de prevenção de danos.
A tragédia mobilizou uma das maiores operações de saúde pública do país: 112,8 mil pessoas foram monitoradas, 249 apresentaram algum nível de contaminação e 129 precisaram de acompanhamento médico. As vítimas mais críticas foram transferidas ao Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, referência em atendimento radiológico.
Emergência Radioativa e o acidente Césio-137
Apesar de ser inspirada na história real do acidente césio-137, a minissérie Emergência Radioativa não adaptou todos os detalhes que cercaram o episódio. Certos personagens que fizeram parte da tragédia, por exemplo, foram adaptados ou suprimidos para melhor conduzir a trama ficcional.
É o caso do protagonista Márcio, interpretado por Johnny Massaro. Inspirado principalmente no físico Walter Mendes Ferreira, um dos primeiros a identificar a radiação, o personagem também foi construído com base em vários outros cientistas que atuaram para conter os danos do acidente, como o próprio Sebastião Maia de Andrade


Johnny Massaro como Márcio na série Emergência Radioativa da Netflix
Helena Yoshioka/Netflix

A série Emergência Radioativa retrata o acidênte radiológico que aconteceu em Goiânia em 1987
Reprodução/Netflix

Johnny Massaro em Emergência Radioativa
Divulgação/Netflix

Emergência Radioativa estreou nesta sexta (13/3)
Divulgação/Netflix

Clarissa Kiste e Paulo Gorgulho também estão no elenco de Emergência Radioativa
Divulgação/Netflix

Antonio Saboia e Luiz Bertazzo interpretam dois médicos que ajudaram no tratamento das vítimas
Divulgação/Netflix

Johnny Massaro em Emergência Radioativa, nova minissérie da Netflix
Reprodução/Instagram
Apesar da aprovação do público, a minissérie da Netflix também foi alvo de críticas. O Conselho Municipal de Cultura de Goiânia, por exemplo, publicou uma carta acusando o streaming de “apagar” a cidade goiana da produção, gravada em São Paulo.
“A tragédia deixou marcas que ainda hoje fazem parte do cotidiano e da identidade de nossa cidade. Contar essa história sem olhar para o lugar onde ela realmente aconteceu é retirar dela a verdade mais profunda: a memória do povo que a viveu”, criticou o órgão.
A Associação das Vítimas do Césio-137 também fez ressalvas ao projeto. A entidade diz que seus membros não foram procurados para contribuir com o roteiro ou relatar experiências vividas durante o acidente.
De acordo com o presidente da associação, uma equipe chegou a visitar Goiânia (GO) para conhecer locais ligados ao episódio, mas sem diálogo com os sobreviventes da tragédia. A ausência desse contato direto foi considerada desrespeitosa às histórias das vítimas.
“Isso gerou uma indignação geral entre nós. Cada vez que alguém vê um trecho dessa história sendo contado, muitas feridas são reabertas. Contar essa história sem ouvir quem viveu tudo isso pode trazer versões erradas ou incompletas. O que as vítimas querem é reconhecimento”, afirmou.