A ascensão do mercado vintage tem se mostrado um ponto de virada para o consumo global contemporâneo. Vinis, câmeras analógicas e revistas ressurgiram como um símbolo de nostalgia após a pandemia de Covid-19, mas logo passaram a guiar tendências de consumo, tornando-se sinônimos de status pessoal e conexão humana.
O vinil, por exemplo, ultrapassou a marca de US$ 1 bilhão em receita, pela primeira vez desde 1983, segundo o relatório anual da Recording Industry Association of America (RIAA), divulgado em março. O valor representa um salto de 3,4 vezes se comparado a dez anos atrás, quando o setor gerou US$ 224,9 milhões.
Ao todo, foram 46,8 milhões de unidades vendidas, um crescimento de 9,3% em relação ao ano anterior, impulsionados principalmente por fãs que buscam experiências musicais únicas. O sucesso reflete no preço: o valor médio do vinil cresceu 24% nos últimos cinco anos, de acordo com a Discogs, podendo variar entre R$ 200 e R$ 10.000, no caso de peças raras.
“O streaming não compete com o rádio, e, em alguns casos, até podem ser complementares. Hoje, o usuário do streaming abre um catálogo infinito, e precisa decidir, muitas vezes gerando o conhecido paradoxo da escolha”
Marcelo Braga, Diretor Geral de Rádios da Forbes Brasil
O vinil retornou em novos formatos e tornou-se um artigo de luxo: se antes era utilizado unicamente para a reprodução musical, agora é visto também como item de colecionador, com diferentes versões e discos personalizados. O mercado encontrou o coração do público jovem: o desejo de ser fã. Possuir discos e fitas cassete dos artistas favoritos é uma forma de engajar a comunidade em torno de uma diferenciação e senso de pertencimento.
A Taylor Swift é o maior exemplo desse ressurgimento. Pelo quarto ano consecutivo, a cantora detém o álbum em vinil mais vendido dos EUA, feito inédito na era do streaming. O The Tortured Poets Department vendeu 1,6 milhão de cópias em 2025, segundo dados da Luminate. A artista lançou oito variantes do disco, com acabamentos translúcidos, marmorizados e coloridos, incluindo brindes exclusivos como pôsteres, fotos inéditas e poemas.
No ranking de 2026, Taylor lidera ao lado de nomes como Olivia Dean e Pink Floyd. Segundo a International Federation of the Phonographic Industry (IFPI), a cantora ocupa cinco das dez posições entre os discos mais vendidos do mundo atualmente.
No Brasil, o cenário é igualmente promissor. Segundo relatórios da Pró-Música, o mercado fonográfico nacional alcançou R$ 4 bilhões em arrecadação, um crescimento de 14,1%. O país ocupa hoje a oitava posição entre os maiores mercados musicais do mundo. Artistas como Jão, Matuê e Liniker têm apostado no formato físico, enquanto clássicos do MPB, como Marisa Monte e Tom Jobim, continuam nas prateleiras atraindo novas gerações.
Além disso, festas dedicadas ao vinil, os chamados listening bars, tornaram-se tendência em diferentes regiões do País, como é o caso da Discopédia, que acontece no centro de São Paulo. Diferente das baladas, eles tendem a ser ambientes mais controlados acusticamente e com uma curadoria musical crítica, colocando som de alta qualidade — e analógico — no centro da conversa.
A força do rádio

O rádio, apesar de seu surgimento no século XVIII, segue resiliente entre os formatos de comunicação mais populares do mundo. Sendo ouvido por 79% das pessoas nas regiões metropolitanas, conforme analisado pelo Data Stories: Inside Audio 2025, do Kantar IBOPE Media, é quase desrespeitoso dizer que o rádio foi em algum momento resgatado.
Mesmo com o surgimento da televisão, streamings de música e podcasts — inovações que pareciam decretar o fim do rádio — o item permaneceu firme entre diferentes tipos de comunidade. Para Marcelo Braga, diretor geral de rádios da Forbes, uma das razões é a forma como o rádio se diferencia do consumo on-demand.
“O streaming não compete com o rádio, e, em alguns casos, até podem ser complementares. Hoje, o usuário do streaming abre um catálogo infinito, e precisa decidir, muitas vezes gerando o conhecido “paradoxo da escolha”, onde o excesso de opções paralisa. O rádio elimina essa fricção. Ele entrega uma sequência pensada, testada, editada com conteúdos pensados cuidadosamente”, afirma.
E sua popularidade não está apenas entre pessoas mais velhas. Segundo o relatório Audio Today 2026, divulgado pela Nielsen, 93% dos adultos nos EUA ouvem o rádio, sendo que entre jovens esse alcance continua altíssimo: 89%. Além disso, o meio se consolida como um dos ativos publicitários mais estratégicos do mercado, concentrando mais de 60% do tempo de consumo de áudio com publicidade. Segundo dados do Kantar, as pessoas tendem inclusive a serem mais recepctivas à publicidade no rádio.
Para Braga, essa dominância do rádio em escala e tempo se dá, entre outros fatores, por sua identidade: ele não está tentanto mudar seu valor, mas agregando novas formas de acesso. Hoje, o rádio é simultaneamente social (distribuição de conteúdo e marca nas redes), broadcast (FM), streaming (apps, agregadores, smart speakers) e on-demand (clips, cortes, podcasts derivados).
“Tanto pode ser massivo e popular, por ser simples, gratuito e acessível, quanto aspiracional — e aqui entram os aparelhos retrô, o design e a estética. Fica claro que o valor não está no objeto, mas no significado. Estamos entrando no território da experiência. É o mesmo fenômeno do vinil”, acrescenta Braga.
Lembra da fita cassete?

A Fita Cassete é um exemplo disso. Seu sucesso nos anos 80 foi estrondoso, com os famosos walkmans se tornando um dos itens favoritos da época. Embora tenha tido um reinado curto — até os anos 90, devido ao surgimento do CD — o formato retornou na última década.
Só no Brasil, as vendas aumentaram 35% em 2023, se comparado ao ano anterior. No exterior não é diferente: uma pesquisa da British Phonographic Industry revelou que as vendas de K7 atingiram seu nível mais alto em 2025, levando em consideralção as últimas duas décadas.
Uma das grandes vantagens das fitas — além do apelo nostálgico que o som com ruído traz — é o fato de ser uma alternativa mais acessível financeiramente que o vinil, se tornando atrativo tanto para produtoras quanto para consumidores.
Apesar de ter uma movimentação de mercado bem menos expressiva que o vinil, artistas têm apostado no formato para se conectar com fãs. O álbum TTPD de Taylor Swift também liderou as vendas nesse caso, com 23 mil cópias de fitas vendidas.
O encanto e a sofisticação das revistas

O mercado editorial sofreu um impacto forte com a digitalização dos meios. Jornais e revistas viveram uma queda drástica no número de vendas e assinaturas, com muitos veículos optando por descontinuar o formato. Foi o caso da Capricho, revista teen que optou por encerrar sua versão impressa em 2015.
No entanto, 10 anos depois, após uma análise de mercado realizada em parceria com a WGSN, a revista voltou às raízes com duas edições anuais. A primeira edição de 2025, que trouxe Bianca Andrade na capa, vendeu mais de 10 mil exemplares, provando a força das experiências sensoriais.
“A Capricho identificou um movimento crescente de retorno ao físico, avivado por tendências como a busca por bem-estar, união e sentimentos nostálgicos, a partir de práticas mais análogas”, escreveu a WGSN em comunicado. Além de despertar a nostalgia daqueles que cresceram com a revista, a estratégia ofereceu às gerações mais jovens a experiência de vivenciar algo sensorialmente único, longe das telas.
“Vários títulos famosos voltaram a ser impressos, porque existe uma tendência de impressão de material físico para as pessoas,” afirma Hugo Rodrigues, sócio da WMcCANN. O empreendedor ainda menciona o caso da ByteDance, empresa dona do TikTok, que começou a publicar livros impressos em 2025, com foco em gêneros populares na comunidade digital. No mesmo ano, a chinesa decidiu fechar a livraria, sem justificativas.
Assista ao Forbes Talk com Hugo Rodrigues aqui!
“Eu acho que essas são armas que muitas vezes estão no nosso dia a dia mas não enxergamos, porque nós perdemos o foco do que funciona por aquilo que acreditamos que funciona,” acrescenta.
Para o executivo, a volta da revista não significa que ela será utilizada como antigamente, mas com uma nova estratégia de reposicionamento de marca. “As marcas vão se aproveitar disso com inteligência e de acordo com a geração que ela quer falar,” finaliza.
Câmeras analógicas e digitais

Há um também um crescente interesse por câmeras analógicas e digitais por parte das novas gerações. Segundo dados da OLX, a busca pelas câmeras da linha Sony Cybershot, modelo que ganhou protagonismo nas redes sociais, cresceu 563% em 2025.
Imagens granuladas, flash estourado, cores saturadas e resolução mais baixa são quase uma rebeldia diante das imagens hipertratadas dos smartphones. Essa preferência pela estética vintage já vinha sendo construída há alguns anos, com a popularização de filtros que imitam filmes.
As câmeras analógicas exigem o uso de filmes e o processo de revelação, atraindo o público mais nostálgico que aposta na imprevisibilidade de um único clique. Já as câmeras digitais antigas trazem a estética da época de forma mais prática: é possível ver a foto na hora e transmití-la digitalmente, unindo a textura retrô à conveniência moderna.
E o espírito de colecionador também se reflete nesse caso. Inspiradas nos modelos dos anos 80, as Kodak Chamera apostam na imprevisibilidade como estratégia para engajar o consumidor: vendidas em caixas fechadas, a cor das câmeras se tornam um fator surpresa. Entre as variações, há ainda uma edição com corpo transparente, considerada rara pela marca.
Por que novas gerações estão tão nostálgicas?
As Gerações Z e Millennials lideram a busca pelo retrô, segundo levantamento da plataforma GWI. É irônico notar que muitos sentem nostalgia por épocas que nem sequer viveram ou das quais não possuem memória consciente. Especialistas apontam o fenômeno como um resgate da autenticidade em meio à padronização das redes sociais.
Segundo a pesquisa “Reset da Mesmice”, encomendada pela Heineken e guiada pela Box1824, quase metade dos brasileiros afirma que as melhores experiências acontecem quando se está longe das telas. Os entrevistados também relataram que esse afastamento resulta em uma mente mais limpa e maior presença no momento.
Outra razão apontada é a busca por conexão emocional entre gerações. Manusear itens que já pertenceram a pais e avós é uma forma de criar uma ponte familiar, conectando jovens a versões de seus ascendentes que não tiveram a chance de conhecer.
“Ninguém voltou para o vinil porque é mais prático, mas porque é mais significativo, e em vários níveis. Para alguns é a qualidade, para outros a beleza de uma capa artística, para outros, ainda, como memória afetiva, e por aí vai”, afirma Rodrigues, da WMcCANN.
O resgate de práticas analógicas também está relacionado ao desejo de passar menos tempo envolvido em redes sociais, devido ao sentimento de ansiedade e comportamento acelerado gerado pelo vício nas telas. Em meio ao turbilhão de informações, cresce o desejo por um estilo de vida mais calmo, o chamado “Low Living” ou “Lo-fi Life“. A tentativa de se reconectar é uma resposta natural à cultura da produtividade extrema, e é manifesta por momentos mais intencionais e por hobbies analógicos que estimulem a criatividade.
“Aos poucos, o rádio, os livros, os discos de vinil (e, brevemente os cds, por que não?) vêm retomando seu lugar de entrega real e palpável de valor”, afirma Braga, da Mix. “Um bom paralelo seria: os textos criados por IA são rápidos e práticos, mas, no fim do dia, estamos escrevendo melhor? E quem lê, está achando os textos melhores ou um loop infinito de mesmices?”