O número de empresas em recuperação judicial (RJ) no Brasil bateu recorde em 2025, e atingiu a maior marca em 10 anos . O novo indicador da Serasa Experian mostra que foram registrados 977 processos de RJ no ano, alta de 5,5% em relação a 2024.
Para além do avanço no número de casos, o principal sinal de alerta vem da concentração nos processos, que estão incluindo um número recorde de companhias, o que mostra uma pressão crescente sobre grupos econômicos em um ambiente de crédito restrito. Os processos envolveram 2.466 empresas, um salto de 13%.
Na prática, isso significa um único pedido de recuperação tem reunido múltiplos CNPJs, muitas vezes de empresas interligadas, ampliando o impacto financeiro de cada caso e elevando o risco sistêmico dentro das cadeias produtivas.
Crédito caro muda o perfil da crise
A mudança de perfil ocorre em um ambiente em que o crédito segue seletivo e caro. Nesse contexto, a recuperação judicial tem sido usada como ferramenta de reorganização de balanços, e não apenas como último recurso diante da insolvência. A dinâmica reflete um cenário em que empresas ainda operacionais recorrem ao mecanismo para renegociar dívidas acumuladas em um ciclo prolongado de juros elevados.
Os dados reforçam essa leitura. Depois de um salto de 36,2% nos pedidos em 2023 e de 26,4% em 2024, o crescimento desacelerou para 12,9% em 2025, mas permaneceu em nível elevado . A desaceleração não indica alívio, e sim uma acomodação em um novo patamar mais alto de estresse financeiro corporativo.
Ao mesmo tempo, a base empresarial cresce no Brasil. Entre 2023 e 2025, o número de empresas ativas avançou 6,5%, 13,4% e 22,5%, respectivamente. Ou seja, há mais empresas em operação, mas também mais empresas pressionadas pelo custo do crédito e pela volatilidade da demanda.
Outro dado que reforça o alerta no relatório da Serasian Experian está na inadimplência: 8,7 milhões de empresas estavam negativadas em janeiro de 2026, com dívida média de R$ 23.138 e cerca de sete restrições por CNPJ . Historicamente, esse indicador antecede os movimentos de recuperação judicial, o que sugere que a pressão pode continuar ao longo de 2026.
Agro e serviços lideram
A distribuição setorial revela que o agronegócio e o setor de serviços são os setores com mais pedidos registrados. Em 2025, a agropecuária respondeu por 30,1% das empresas em recuperação judicial, seguida de perto pelo setor de serviços, com 30%. Comércio (21,7%) e indústria (18,2%) aparecem na sequência.
O protagonismo do agro chama atenção. Em 2012, o setor representava apenas 1,3% dos casos; agora, lidera a estatística. A mudança reflete a combinação de riscos climáticos, volatilidade de preços de commodities, insumos dolarizados e ciclos financeiros mais longos, fatores que ampliam a exposição a choques e comprimem margens ao longo da cadeia.
Nos serviços, o avanço está mais ligado à sensibilidade à demanda e ao custo do capital. Já comércio e indústria perderam participação relativa ao longo dos anos, ainda que continuem relevantes em volume.
Menos falências, mais renegociação
Enquanto as recuperações judiciais seguem em alta, os pedidos de falência caminham na direção oposta. Em 2025, 698 empresas tiveram pedidos de falência registrados, queda de 19% em relação ao ano anterior .
A redução não indica necessariamente melhora na saúde financeira das empresas, mas uma mudança no comportamento de credores e devedores. Com mais instrumentos de renegociação disponíveis e maior custo econômico associado à quebra definitiva, a tendência tem sido alongar dívidas e buscar reestruturações antes de recorrer à falência.
Essa dinâmica ajuda a explicar por que a recuperação judicial se consolidou como principal mecanismo de ajuste em momentos de aperto financeiro. Em 2025, foram 977 pedidos na modalidade judicial, contra apenas 62 na via extrajudicial, uma proporção de cerca de 16 para 1 .