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Soprano Brasileira Lidera Iniciativa Global de Compositoras Mulheres

Acervo pessoal

Há mais de 20 anos baseada em Londres, Gabriella Di Laccio construiu uma carreira premiada como soprano

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Não foi apenas a voz que levou a soprano brasileira Gabriella Di Laccio ao Palácio de Buckingham, para receber das mãos do Príncipe William uma das maiores honrarias concedidas pelo rei Charles III, a medalha de Membro da Ordem do Império Britânico, no início de outubro.

A cantora lírica e ativista — ou “artivista”, como se define — lidera a Donne Foundation, instituição que mapeia e divulga o trabalho de mulheres compositoras, tanto históricas quanto contemporâneas, e já catalogou mais de 5 mil compositoras de 115 países. “Como artista, percebi que não basta cantar. Tenho a obrigação de abrir espaço para compositoras no meu trabalho”, afirma Gabriella.

A honraria entregue pelo príncipe reconhece seus “serviços à música e à igualdade de gênero”. “Receber essa medalha já é algo muito especial para um inglês, então imagine para mim, que sou brasileira, mulher e artista”, diz. “Sinto um grande senso de responsabilidade, mas também de incentivo para continuar o meu trabalho.”

Gabriella di Laccio

Divulgação

Gabriella Di Laccio durante entrega de medalha no Palácio de Buckingham, em Londres

Como a cantora fez história para as mulheres na música

Há mais de 20 anos baseada em Londres, onde construiu uma carreira premiada como soprano em concertos solo, Gabriella decidiu fundar a Donne após encontrar uma enciclopédia listando seis mil compositoras esquecidas pela história. “Senti vergonha de não conhecer nenhuma delas. Tive aulas, concertos, formação em grandes escolas — e praticamente não estudei música de mulheres”, lembra. “Isso me deu vontade de agir.”

“A música de concerto pertence a todos, mas ainda há barreiras invisíveis. Precisamos quebrá-las.”
Gabriella Di Laccio

Em 2018, no Dia Internacional da Mulher, ela criou um site com biografias, entrevistas e obras de quatro mil compositoras. “Queria que fosse algo bonito, fácil de engajar e que qualquer pessoa que não sabia que existiam compositoras mulheres pudesse entrar no site e descobrir um pouco”, conta. “Não havia grandes planos, mas o impacto foi imediato.”

No site, também publicou um infográfico analisando as temporadas das 15 maiores orquestras do mundo, que revelava que apenas 2,3% das obras eram de mulheres. “O dado quebrou a bolha. A partir daí, compositoras do mundo inteiro começaram a me procurar.”

Gabriella di Laccio

Acervo pessoal

Gabriella Di Laccio já se apresentou em palcos como o Royal Albert Hall, St. John’s Smith Square e Megaron Opera House

Hoje, a Donne Foundation é uma lista viva e o maior banco de dados de mulheres compositoras do mundo, abrangendo desde música clássica até trilhas sonoras. “Fico feliz pelo reconhecimento que temos alcançado ao redor do mundo — inclusive do Oscar, que hoje consulta nossa base para incluir músicas compostas por mulheres em filmes.”

Em 2022, Gabriella também idealizou uma ação que entrou para o Guinness World Records: um concerto de mais de 26 horas ininterruptas transmitido no YouTube com músicos voluntários de todo o mundo. A produção contou somente com canções de compositoras mulheres e foi realizada na Embaixada do Brasil, em Londres.

Da infância no Brasil até a carreira na Inglaterra

Nascida em Porto Alegre (RS), Gabriella descobriu o canto ainda criança, no coral da escola. “Nasci com essa paixão. Meus pais não eram músicos, mas ouviam música clássica em casa”, recorda. “Eu me sensibilizava com aquelas notas agudas e graves que pareciam tocar o corpo inteiro.”

Sem recursos, estudou piano em um teclado de papelão improvisado pela professora até conseguir um instrumento usado. “Minha família fez muitos sacrifícios para alimentar meu sonho.” Aos 18 anos, depois de ingressar na graduação de arquitetura, uma apresentação na formatura da irmã mudaria tudo. “Cantei sozinha pela primeira vez, e vi como emocionei as pessoas. Voltei para casa e disse aos meus pais que iria largar a arquitetura para estudar canto.”

Gabriella di Laccio

Acervo pessoal

Gabriella Di Laccio em seu primeiro concerto como soprano

Mudou-se para Curitiba para estudar com a professora Neyde Thomas, que fez carreira internacional no Metropolitan Opera, em Nova York, e no Deutsche Oper, em Berlim. “Na época, pensei que, se queria seguir essa carreira, teria que ter aulas com a melhor professora do Brasil e estudar ao máximo.” Pouco depois, se mudou sozinha para Londres aos 23 anos, após ganhar uma bolsa do governo do Paraná para o Royal College of Music. “Tinha chegado até onde podia dentro da minha realidade como artista no Brasil, mas sabia que ainda havia muito a aprender.”

A partir dali, iniciou uma carreira como soprano solista, conquistando prêmios, apresentando-se em casas de ópera pela Europa e se destacando por incorporar repertórios latino-americanos a suas performances — uma escolha que se tornaria sua assinatura artística. “No começo, tentei me encaixar na caixa europeia do que era esperado de uma cantora clássica, mas percebi que minha força era justamente ser brasileira.”

Hoje, além de seguir com a carreira de soprano e liderar a Donne Foundation, Gabriella se dedica a um doutorado na York St John University, em Londres. “Investigo como o ativismo performático, a transparência de dados e a ação comunitária podem transformar instituições musicais e promover representatividade”, conta. “Essas três coisas juntas podem mudar a indústria e se relacionam muito com o meu trabalho. É quase como um relato da minha vida dentro do laboratório.”





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