Seja Bem Vindo - 19/04/2026 11:09

Ubu e o Menino Selvagem (por Pedro Costa)

O homem veio do barro — “formou o homem do barro da terra” — e da palavra — “no princípio era o verbo” — e do amor — “amem uns aos outros como eu vos amei”. Como é esse trajeto no nosso dia a dia? É evidente que uma parte do que somos é inato, vem de nossos pais, de nossos cromossomos, e que outra parte vem do mundo em que vivemos. A grande cuco cobra alimento da mãe substituta, minúscula diante dele, e vai cucolar na vida, buscando uma mãe minúscula para cuidar do seu filho.

Nós precisamos saber isso porque tivemos Pedro, fraqueza e coragem, Maria, e uma espada trespassará tua própria alma, João, este é teu filho, esta é tua mãe, o pobrezinho Francisco, dai-me Senhor senso e discernimento para saber tua vontade, e Clara, a pureza, e Teresinha da Santa Face, a doutora da pequena via da bondade cotidiana, e Dante, quando eu já para o vale descaído / tombava, à minha frente um vulto incerto, Michelangelo, tua beleza muito mas bela / que o que homem tenha pintado em igreja, Pascal, o silêncio eterno dos espaços infinitos, Vieira, língua pela língua, Beethoven, a busca de apenas um momento de alegria, Andradas e Nabucos, misericórdia e liberdade, Lincoln, do povo para o povo pelo povo, mas tivemos também Hitler e Stalin e tantos outros, até mesmo esses cérberos de nosso tempo. Por que uns assim, por que outros assados?

Houve um momento em que se achou que a chave da questão estava à mão. Jean Itard, naquela convulsão da terra que foi a virada das luzes para a revolução (XVIII-XIX), encontrou Victor, o menino do Aveyron, l’enfant sauvage. Jean começava a estudar a educação dos surdos, a comunicação do incomunicável, prenunciando o milagre de Ann Sullivan/Helen Keller. Palavras de Mark Twain: “Helen era um punhado de barro, outro Adão — surda, sem tato, cega, inerte, opaca, apalpando, quase sem sensações: Miss Sullivan soprou a inteligência nela e acordou do barro para a vida.”

Victor estava nas florestas do Tarn, foi capturado quando tinha uns doze anos, nu, curvado, cabeludo, sem falar ou se comunicar, mesmo por gestos. Philippe Pinel diagnostica idiotia. Itard o pega pela mão, lhe dá o nome porque o som “O” lhe parece agradável, o torna sociável, mas não consegue que fale: manifesta profunda indiferença ao som da voz. Mas “quando se descascava, sem que soubesse e o mais discretamente possível, uma castanha ou uma noz, ele não deixava nunca de se retornar bruscamente”.

Ele vive até o que se pensa serem 32 anos, já há tempos distante de Itard. A ideia de que fora abandonado precocemente parece difícil porque ele não conhecia nenhuma técnica de sobrevivência, comia sobretudo raízes tiradas em plantações, gostava do fogo, mas tinha muitas queimaduras, não sabia trepar em árvores ou nadar, tinha medo de corda. Conclusão de Itard: “O homem, antes da educação, é menos que uma esperança.” (O livro de Lucien Maison são emoções que François Truffaut transformou em imagens.) Pinel ou Itard?

Algum tempo depois aparece em Nuremberg — essa mesma — um adolescente vestido, desajeitado, cansado, confuso, sem falar — a não ser “cavaleiro como papai” — e com uma dupla carta de um imaginário cuidador e de uma imaginária mãe que o dá por nascido em 1812, tendo 21 anos. Jogado na prisão, o guarda o leva para casa. O burgomestre o adota, ensina a falar, aprende que Kaspar Hauser — o nome se fixou — vivia num canto escuro, dormindo sobre palha ou no chão, sem ver ninguém até que veio “o homem” que o ensinou a andar e escrever seu nome, o levou para perto da cidade e o abandonou. A lenda de uma origem real se espalha. Ele se educa, aprende a falar e tocar cravo. Um dia é atacado e ferido. Depois é emboscado e morto. A voz de Moustaki canta  uma versão destes versos de Verlaine que traduzo canhestramente: “Gaspar Hauser canta: / Eu vim, calmo órfão, / Com apenas meus olhos tranquilos […] Nasci cedo demais, tarde demais? / O que faço nesse mundo? / Oh, vós todos, minha dor é profunda: / Rezem pelo pobre Gaspard!”

Depois os autistizamos, os analisamos, e vieram os grandes educadores e descobrimos que as crianças selvagens, como estes inselvagens ou como Amala e Kamala, meninas lobo que tinham Síndrome de Rett, só podiam justificar a bondade e a maldade humanas. Somos quem somos porque fomos e porque nos tornamos. Somos feitos de coisas que nasceram conosco e de coisas que nos fizeram e nos fazem ser como somos.

Nosso Papa de cada dia foi a Hipona visitar seu santo Agostinho. O filho de Mônica analisou profundamente a questão da graça, que nos abre a porta para a explicação de Pascal: “A distância infinita dos corpos aos espíritos ilustra a distância infinitamente mais infinita dos espíritos à caridade, porque ela é sobrenatural.” Se temos o Amor, temos o espaço ilimitado. É o que Leão tem repetido, mansamente, a surdos ouvidos, que o ouvem como se fosse uma explosão atlântica.

Pois, se o homem é conduzido pelo meio, também é deformado pelo meio. Ele é vítima de poder, de força, de dinheiro. E quem são esses artífices de Nabucodonosor que lhe fazem a estátua de pés de barro — por dourado que fosse o ídolo que Daniel viu se desfazia no vento — e ambição? As legiões e hostes do velho Assaku, como as orcs de Sauron mantidas pelo poder do anel, se insinuam na mentira das redes e no querer ter, mas também em anomalias como “escolas cívico-militares” — oxímoro, pois, não havendo pedagogia militar, até as escolas militares (arghh) devem ser civis e a hipótese de uma escola ter orientação de pessoas cuja profissão é matar só pode passar pela cabeça de %&X@*@#*$. Elas fazem o inverso de Ann Sullivan: sopram no barro o bafo quente que transforma tudo em pó do deserto.

São as vítimas de querer ter, em vez de querer ser. E para isso rejeitam o Amor. O surrealista Alfred Jarry criou Ubu. Ubu Roi é uma peça de 1895, logo levada à cena, depois desenvolvida em uma literatura de sarcasmo e Patafísicas (“ciência das soluções imaginárias etc.”). As hordas de atores de terceira categoria que se estapeiam para convencerem os outros, já se convencendo, de que são Ubu enchem os corredores dos mercados parlamentares.

De repente, diz a rotunda figura do Pai Ubu: “Sabeis muito bem que não tenho nada a ver com isso. FORAM MÃE UBU e Bordadura.” Cobrado, explica: “estou um pouco tonto, abusei do vinho francês.” E logo o todo poderoso, em diálogo de iguais:  “Quero recompensar-te pelos incontáveis serviços que prestaste como capitão de Dragões, fazendo-te hoje mesmo PACIFICADOR DO UNIVERSO” Ele, modesto: “Não sei como te agradecer, FIGURA VIRIL, LOURA E MUSCULOSA.” O paspalhão: “Aceite, por favor, este OBOÉ DE OURO COMO SINAL DE NOSSO DEAL” “Que vou fazer com ESSA MERDRA, Pai Ubu? Darei ao Miller.” E o SM, voltando-se para o DRUNK WAR IDIOT: “O Duck está doido, mas cala a boca, seu idiota”. Donald J. Trump, ops!, Pai Ubu: “E agora me arranco… (Cai, ao se voltar) Ui, ai! Socorro! Por meus chifres! Acho que rompi os intestinos e quebrei a bunda!” GOD: “Estás machucado, Pai Ubu?” “Vou morrer na certa. Que vai ser de Melania? Deus: “Não se preocupe, o $$$$$ dela deixa comigo, seu idiota.” Pai Ubu: “Sois a bondade em pessoa. (Deus se manda) Seu deus nojento, NEM POR ISSO ESCAPARÁS DA MORTE.” THANK YOU FOR YOUR ATTENTION TO THIS MATTER!!!! DJT.

Ubu tem uma palavra favorita, que por acaso não repete neste trecho recolhido numa sessão espírita: “Merdra”. Foi merdra que, aplicada em doses brutais aos Adolf, Joseph, Bibi, Jair e Donald deu nesses desastres que matam tantos, que tanto emerdam a humanidade e nos levam a beira de sermos todos expulsos da bela e verde Terra para a imensa pocilga de merdra em que a transformarão.

Obrigado por desconsiderarem este intermezzo escatológico. Ei, essa é uma palavrinha desgraçada, evoca o fim.



Clique aqui para ver a Fonte do Texto

VEJA MAIS

Isabela e Chica Capeto Unem Forças Pela Primeira Vez na Passarela

O universo de Isabela Capeto e de sua filha Chica é cor de rosa. Da…

TRT participa de mutirão em Salvador com atendimento à população em situação de rua

O Tribunal Regional do Trabalho da Bahia (TRT-BA) participará do Mutirão PopRuaJud, que será realizado…

promotor considera condenações como “resposta à sociedade”

Após seis dias de júri do caso que ficou conhecido como a maior chacina do…