Se a sabedoria popular dita que mel, limão e gengibre formam o remédio caseiro infalível para qualquer resfriado, a alta coquetelaria provou que essa mesma trindade – quando combinada a um bom whisky escocês – é a prescrição para uma noite perfeita.
Ao contrário de lendas centenárias como o Daiquiri ou o Manhattan, o Penicillin é um jovem prodígio. O coquetel foi idealizado em 2005 pelo bartender Sam Ross no balcão do extinto e lendário speakeasy Milk & Honey, em Nova York. Em menos de duas décadas, a criação rompeu as fronteiras de Manhattan, consolidou-se como um dos pilares do movimento da coquetelaria artesanal moderna e ganhou o status de clássico contemporâneo. O nome do drink é um aceno lúdico aos efeitos “curativos” de seus ingredientes, uma homenagem bem-humorada ao primeiro antibiótico descoberto no século 20.
A alquimia da fumaça
O sucesso do Penicillin está na sua evolução e no equilíbrio cirúrgico de sabores. A receita nasceu a partir de outro hit do Milk & Honey, o Gold Rush (uma mistura de Bourbon, xarope de mel e limão-siciliano). Em um momento de inspiração, Sam Ross decidiu trocar o dulçor do Bourbon americano pela base mais complexa do blended scotch whisky. Para trazer uma picância refrescante, introduziu o gengibre.
No entanto, o verdadeiro truque do Penicillin reside na sua finalização: a adição de um single malt da região de Islay (uma ilha escocesa famosa por produzir whiskies com intensa presença de turfa e fumaça). O resultado é uma bebida mais leve e complexa que um tradicional Whiskey Sour, entregando notas doces, ácidas e levemente picantes, coroadas por um aroma defumado.
Para executar o coquetel, Luiz Guarezmin, chefe de bar do paulistano Infini, explica que a receita original exige a produção prévia de um xarope de mel e gengibre.
A finalização também permite um nível de personalização ao paladar de quem bebe. A receita clássica pede apenas uma colher bailarina do whisky turfado (como Laphroaig, Talisker ou The Peat Monster) flutuando no topo do copo, garantindo que o aroma defumado invada o olfato antes mesmo do primeiro gole.
A RECEITA CLÁSSICA DO PENICILLIN, segundo o Infini
Ingredientes do Xarope de Mel e Gengibre:
- 75g de fatias de gengibre fresco
- 75g de mel
- 75g de água quente
Ingredientes do Penicillin:
- 60 ml de Blended Scotch Whisky
- 22,5 ml de sumo de limão-siciliano (fresco)
- 22,5 ml de xarope de mel e gengibre
- 1 colher bailarina (ou borrifadas) de Whisky Turfado (Islay Single Malt)
- Gengibre cristalizado (ou caramelizado) para guarnecer
Modo de preparo do Xarope:
- Em um processador, misture o gengibre, o mel e a água quente. A temperatura da água é fundamental para ajudar a diluir o mel e extrair os óleos e sabores do gengibre.
- Processe bem, passe o líquido por um filtro de pano fino e armazene em um recipiente esterilizado.
- Guarde na geladeira (dura até duas semanas e pode ser usado em chás ou outras bebidas).
Modo de preparo do Coquetel:
- Na coqueteleira, adicione o blended scotch, o sumo de limão-siciliano fresco e o xarope de mel e gengibre.
- Dica de ouro (se não tiver o xarope pronto): Macere 3 fatias médias de gengibre diretamente na coqueteleira para extrair o sumo, adicione 10 ml de mel puro e use o blended scotch para ajudar a diluir a mistura antes de bater.
- Adicione bastante gelo e bata vigorosamente de 10 a 15 segundos.
- Faça uma dupla coagem (com passador e peneira fina) para um copo baixo (tipo rocks) preenchido com gelo novo.
- Finalize derramando delicadamente o whisky turfado sobre o gelo (para que ele flutue na superfície) ou utilize um borrifador para espalhar o aroma.
- Decore com um pedaço de gengibre cristalizado e sirva imediatamente.
O truque do bartender: Se você é um aficionado por sabores intensos, Guarezmin sugere alterar a base do drink para 45 ml de blended scotch e 15 ml de whisky turfado. E para uma apresentação digna de prêmios em casa, utilize um pequeno borrifador de vidro preenchido com o seu whisky de Islay favorito, borrifando a fumaça líquida sobre o copo finalizado para uma explosão aromática.