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A China e o Agronegócio Brasileiro. Impactos e Oportunidades com o 15º Plano Quinquenal

A importância da China para o comércio agrícola mundial, e principalmente para o Brasil, é incontestável. O país é hoje o principal importador de alimentos do mundo, mas também não se pode esquecer que é o maior produtor global. Atualmente, a China lidera a produção mundial de arroz, trigo e carne suína.

Mesmo com uma produção agrícola que representa quase um quarto da produção global, a necessidade de atender mais de 1,4 bilhão de habitantes mantém o país altamente dependente de importações.

Em 2024, a China importou o equivalente a 127,12 bilhões de dólares em alimentos, incluindo carnes, frutas e grãos. O país figura como o maior importador de diversos produtos agrícolas, entre eles soja, milho e carnes.

Esses números também se refletem na relação com o Brasil, tornando o comércio bilateral extremamente relevante. Em 2025, essa relação atingiu um valor total de US$ 170,8 bilhões, com saldo positivo para o Brasil.

Para nós, a China é o principal destino de muitas exportações, especialmente soja e carne bovina. Diante desse cenário, qualquer alteração na produção, nas importações ou nas políticas chinesas gera impactos significativos no comércio global de alimentos.

O 15º plano quinquenal e as novas diretrizes de Pequim

Nesse contexto, a análise dos planos quinquenais chineses torna-se essencial para compreender a condução da política econômica e social do país. Em março deste ano, o Congresso Nacional do Povo aprovou o 15º Plano Quinquenal, que orientará as políticas entre 2026 e 2030.

Com o novo plano, o governo chinês revisou o desempenho agrícola e rural recente e estabeleceu novas diretrizes para o desenvolvimento do setor. Entre os principais focos estão o fortalecimento da segurança alimentar, o incentivo à inovação no comércio, a aceleração da modernização agrícola, o avanço de um novo sistema energético e a expansão do comércio verde.

No plano internacional, o documento destaca um cenário de rápidas transformações, com desequilíbrios de poder, avanços tecnológicos e mudanças industriais.

Ao mesmo tempo em que identifica oportunidades para uma atuação mais proativa no cenário global, a China reconhece um ambiente marcado por instabilidades, conflitos geopolíticos recorrentes e crescente protecionismo. O texto também aponta o aumento do unilateralismo e das disputas entre grandes potências, além de um enfraquecimento do dinamismo econômico global.

O desafio da autossuficiência e a questão dos fertilizantes

Pontuando de maneira mais aprofundada alguns tópicos do plano, ressalto que a preocupação chinesa com a segurança alimentar não é recente, tampouco o objetivo de alcançar maior autossuficiência. O país busca ampliar sua produção de grãos estratégicos, como arroz, trigo e milho, além de fortalecer a produção de carne suína e expandir a de carne bovina.

Essa busca por autossuficiência também pode ter impacto direto nas nossas exportações de soja, um dos principais itens do nosso comércio.

Para isso, pretende consolidar sua base de segurança alimentar por meio do uso mais eficiente de terras agrícolas de alta qualidade, do desenvolvimento de sementes melhoradas, da adoção de maquinário avançado e da aplicação de métodos científicos. A meta é alcançar um incremento adicional de 50 milhões de toneladas métricas na produção.

Ademais, a fim de aumentar sua produção, a China tende a fazer um maior uso de fertilizantes, o que pode gerar um impacto direto para o Brasil, dependente de importações.

Vale pontuar que o país asiático restringiu este ano as suas exportações de fertilizantes devido à guerra, para proteger seu mercado interno, sendo uma das principais origens dos insumos comprados pelo nosso país.

Diante desse cenário, torna-se evidente que o Brasil precisa avançar na diversificação de mercados internacionais e reduzir sua dependência do mercado chinês.

Exigências de mercado: rastreabilidade e comércio verde

Apesar da ambição do plano, a diversidade e o dinamismo da economia chinesa indicam que o país continuará dependente de importações.

Nesse contexto, é fundamental que o Brasil se mantenha como parceiro confiável, atento às novas exigências de um mercado cada vez mais rigoroso, que começa a buscar por rastreabilidade e que está cada vez mais preocupado com certificações e qualidade.

Para manter a competitividade, é indispensável acompanhar as transformações no comércio chinês. O plano deixa claro que o comércio verde terá papel central, consolidando a sustentabilidade como parte da estratégia nacional.

Empresas estão sendo incentivadas a investir em projetos sustentáveis e a apoiar a economia verde. Esse movimento está alinhado às vantagens do Brasil, que reúne condições para produzir com qualidade e sustentabilidade.

Descarbonização e a nova agenda de biocombustíveis

A agenda de descarbonização chinesa abre novas oportunidades. O país demonstra interesse em neutralizar suas emissões industriais, o que pode impulsionar a demanda por créditos de carbono gerados por práticas agrícolas sustentáveis no Brasil.

Com a regulamentação do Mercado Brasileiro de Redução de Emissões, o agronegócio nacional pode acessar uma nova fonte de receita.

Outro ponto relevante é a transição energética. Embora nem sempre associada diretamente ao agronegócio, no Brasil há uma integração natural entre produção agropecuária e energia sustentável. Esse processo já está em curso globalmente, e a definição de padrões tecnológicos tende a influenciar o acesso a mercados.

Nesse sentido, o Brasil precisa atuar de forma estratégica nos fóruns internacionais, promovendo o reconhecimento de seus parâmetros como métricas globais, incluindo o etanol e nossos biocombustíveis para uso no SAF (combustível sustentável de aviação) e nos combustíveis sustentáveis aplicados ao transporte marítimo.

Essa discussão precisa ocorrer com intensidade e urgência, e pode divergir dos parâmetros de preferência chinesa, que faz uso de tecnologias diferentes das nossas.

Estratégias para o futuro do multilateralismo

Por fim, é fundamental reforçar a importância das regras internacionais de comércio e do multilateralismo. O Brasil, historicamente defensor desse sistema, beneficia-se de um ambiente com regras claras e mecanismos eficazes de solução de controvérsias.

Nesse aspecto, a China pode se apresentar como uma aliada relevante na defesa da ordem global e da estabilidade do comércio internacional.

Diante das atuais instabilidades globais, é essencial manter a atenção às mudanças nas políticas dos principais parceiros comerciais. A adaptação contínua e a diversificação de mercados permanecem como estratégias indispensáveis.

O 15º Plano Quinquenal apresenta oportunidades e preocupações relevantes para o Brasil, desde que o país esteja preparado para se adequar às novas demandas e continue investindo em qualidade e proximidade comercial.

*Claudia Costa é advogada, com LL.M. em direito internacional e produtora rural. Atualmente é coordenadora do Comitê de Relações Internacionais e diretora da Sociedade Rural Brasileira. Possui experiência em comércio internacional e órgãos multilaterais.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.



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