O recuo recente do dólar dá margem para a discussão sobre as oportunidades de internacionalização dos investimentos e o papel da moeda americana como principal proteção global. Mas, na visão de gestores, a decisão de internacionalizar patrimônio vai além do câmbio. Para a alta renda, trata-se de disciplina patrimonial. “O câmbio ajuda, mas não é a tese”, afirma Luis Ferreira, CIO para as Américas do EFG Private Bank. “Quem investe fora só porque o dólar caiu está reagindo ao mercado. Quem investe fora porque entende a importância da diversificação está construindo uma estratégia de longo prazo.”
Segundo ele, investir fora é uma forma de reduzir a concentração em uma única moeda, diminuir a exposição ao risco Brasil e acessar mercados mais líquidos e inovadores. A avaliação ganha força em um momento de maior questionamento sobre os ativos americanos.
Para Ian Caó, CIO da Gama Investimentos, o cenário global mudou. Os EUA atraíram capital global por anos ao combinar retorno elevado com proteção via dólar. Isso levou a uma concentração inédita de investimentos no país. Agora, com dúvidas sobre o potencial de retorno desses ativos, esse fluxo começa a ser questionado e abre espaço para uma redistribuição global de capital “Já há algum tempo a rentabilidade prospectiva desses ativos vem sendo questionada, tanto pelo nível dos múltiplos quanto pelo crescimento necessário para justificá-los”, afirma.
Ele também aponta sinais de mudança no comportamento do dólar. “Não apenas as perspectivas de retorno parecem mais incertas, mas a própria característica diversificadora e de ‘safe haven’ apresenta um comportamento menos claro”, diz.
Na prática, isso significa que o papel tradicional da moeda americana como proteção automática em momentos de estresse pode não se repetir com a mesma intensidade.“ Em movimentos relevantes de queda nos últimos 15 anos, o dólar se valorizava enquanto os ativos de risco caíam, a não ser em episódios recentes”, afirma Caó.
A nova geografia do dinheiro
Se os Estados Unidos seguem como o principal mercado global, o fluxo de capital começa a mostrar sinais de dispersão.
“Se há uma diminuição, ainda que marginal, no fluxo de investimentos para os EUA, esse capital será direcionado para outros mercados”, diz Caó. “E, dado o tamanho relativo dos Estados Unidos, qualquer mudança pode ser muito relevante para os demais.”
A diversificação, nesse contexto, deixa de ser apenas geográfica e passa a ser também temática. Na Europa, gestores veem oportunidades ligadas à recomposição industrial, ao aumento de gastos em defesa e a um novo ciclo de autonomia estratégica. Na Ásia, o foco está em economias em que o crescimento passa a ser puxado pelo consumo doméstico, pela urbanização e pelo aumento de renda.
Mas um destino específico começa a ganhar destaque nas conversas com clientes: a Suíça. “A Suíça não é apenas uma jurisdição estável. É um polo histórico de excelência em farmacêuticas, biotecnologia e pesquisa aplicada”, afirma Ferreira.
Para o investidor, isso significa acesso a um conjunto de empresas e setores menos dependentes dos ciclos das grandes empresas de tecnologia americanas.
O país também aparece como uma alternativa relevante de proteção. “O franco suíço combina estabilidade institucional, fundamentos macroeconômicos sólidos e tradição de moeda forte em momentos de estresse”, diz Ferreira.
Quando se investe em franco suíço, não se compra apenas uma moeda, diz o CIO do EFG. “Compra-se também um país com contas externas fortes, disciplina fiscal e um ambiente sofisticado de saúde, tecnologia e ciência”, afirma.
Renda Fixa Global
A diversificação também passa pela composição dos ativos. Para perfis mais conservadores, a renda fixa global voltou a ganhar espaço. “Papéis com grau de investimento oferecem algo que o investidor valoriza em ambientes mais incertos: renda real, liquidez e função defensiva no mesmo ativo”, diz Ferreira.
Já para quem busca crescimento patrimonial, as ações seguem relevantes, mas com mais critério. “Depois da correção recente, o debate em tecnologia deixou de ser sobre excesso e passou a ser sobre discernimento”, afirma. “A discussão não deveria ser sobre sair do setor, mas sobre ser mais seletivo.”
O crédito privado, por sua vez, aparece como uma alternativa mais sofisticada, com menor liquidez e maior necessidade de análise, especialmente em um momento de maior volatilidade.
Independentemente da classe de ativos, a recomendação é reduzir a concentração no Brasil. “Como ponto de partida, consideramos uma alocação mínima de 20% do portfólio em ativos globais”, afirma Caó.
Ferreira indica um patamar ainda mais elevado em alguns casos. “Para o investidor brasileiro de alta renda, patrimônio global deixou de ser opcional”, diz.
Ele chama atenção para o descasamento entre renda e patrimônio. “O brasileiro de alta renda muitas vezes já tem despesas, projetos de vida e exposição indireta a moedas fortes. Se o patrimônio continua concentrado em reais, existe aí um desalinhamento relevante.”
Para quem ainda não começou a diversificar, o alerta é direto. “Para quem pensa no longo prazo, o maior risco costuma ser continuar de fora”, afirma Ferreira.
A tentativa de acertar o melhor momento, segundo ele, costuma sair cara. “Eu teria muita cautela com a ideia de esperar o ‘momento perfeito’, porque ele quase sempre só parece óbvio depois que passou”, diz.
Além da questão cambial, há um custo de oportunidade mais amplo. “Ficar de fora significa também não participar de grandes ciclos globais de criação de valor, como inteligência artificial e inovação em saúde, que não existem no Brasil na mesma escala”, afirma. O consenso entre os gestores é que o arrependimento é sempre maior por ter esperado demais.