Medicamentos usados no tratamento da obesidade podem ter um papel inesperado na luta contra o Alzheimer. Um estudo da Universidade Anglia Ruskin, publicado na revista Molecular and Cellular Neuroscience, analisou o efeito dos análogos de GLP-1, popularmente chamado de canetas emagrecedoras, no tratamento da doença.
O foco dos pesquisadores foram as proteínas beta-amiloide e tau, uma das principais causas do Alzheimer. Essas proteínas se acumulam em placas em volta e dentro dos neurônios, levando a deterioração do funcionamento cerebral. A questão era descobrir se os componentes dessas drogas conseguiriam atuar sobre esse mecanismo.
A resposta veio da síntese de 30 estudos pré-clínicos com exenatida (Byetta), dulaglutida (Trulicity), liraglutida (Victoza e Saxenda) e semaglutida (Ozempic). Os medicamentos mostraram potencial para reduzir o acúmulo das proteínas, com a liraglutida liderando os resultados e semaglutida e dulaglutida registrando efeitos positivos, ainda que menores.
“Esta nova revisão fornece uma das análises mais abrangentes até agora de como os medicamentos GLP-1 interagem com os mecanismos subjacentes do Alzheimer. Nosso estudo destaca várias vias biológicas pelas quais eles podem influenciar a doença, incluindo a redução da inflamação, a melhora da sinalização de insulina no cérebro e a alteração de enzimas envolvidas na produção de beta-amiloide”, afirmou Simon Cork, chefe de fisiologia na escola de medicina da Universidade Anglia Ruskin, em comunicado oficial.
O GLP-1 no tratamento de doenças neurológicas
A possibilidade de utilizar esses medicamentos para o tratamento de doenças neurológicas vem sendo explorada há algum tempo. No primeiro semestre de 2025, cientistas da Universidade Case Western Reserve, nos EUA, constataram que a semaglutida tem o poder de minimizar o risco de demência entre pacientes com diabetes tipo 2. A conclusão partiu da análise de mais de 1,5 milhão de pessoas com o diagnóstico. Os que faziam uso do medicamento apresentaram menos chances de desenvolver Alzheimer ou outros quadros de demência. Até mesmo o tratamento do Parkinson vem sendo avaliado.
Porém, no final do mesmo ano, a Novo Nordisk, farmacêutica responsável pelo Ozempic e pelo Wegovy, anunciou que não obteve resultados relevantes nos estudos clínicos com humanos para o tratamento de casos iniciais de Alzheimer. O resultado indica que uma abordagem isolada provavelmente não é suficiente, sendo necessário um conjunto de tratamentos capazes de remover as proteínas nocivas acumuladas no cérebro, proteger células cerebrais e restaurar danos já causados.
Apesar de o impacto clínico real ainda ser incerto, as melhorias nos biomarcadores do Alzheimer — incluindo a preservação do metabolismo da glicose no cérebro, associado ao funcionamento dos neurônios — apontam para um possível uso preventivo. Além disso, o crescimento no uso dos medicamentos GLP-1 abre oportunidades para a coleta de dados sobre efeitos a longo prazo, o que deverá ajudar a moldar pesquisas futuras.