Sob o calor úmido da Amazônia e a poucos quilômetros de Belém, uma cena pouco comum na diplomacia internacional deslocou o eixo de uma agenda presidencial. Corria 2024, quando em meados do ano, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e o presidente da França, Emmanuel Macron, deixaram o protocolo urbano para uma visita a uma pequena propriedade rural na Ilha do Combu.
Entre pés de cacau e instalações simples, protagonizaram uma sessão de fotos que rapidamente ganhou o mundo. A escolha do local não foi casual. Era a casa de Izete dos Santos Costa, 61 anos.
Ela é mais conhecida como Dona Nena, e é uma das referências na região quando o assunto é chocolate artesanal amazônico e de alta qualidade. Foi ela que consolidou a Casa do Chocolate Filha do Combu.
Naquela época, faltava pouco mais de um ano e meio até à COP 30, que ocorreu em Belém no final de 2025. O encontro sinalizou uma narrativa econômica específica para a Amazônia: menos commodity, mais valor agregado. Na prática, foi ali que Dona Nena apresentou o que isso significa.
A produtora foi um dos grandes destaques na feira Chocolat Amazônia, que ocorreu em Belém (PA) em meados de abril, tanto por seus chocolates no evento quanto por firmar sua fábrica como um ponto turístico obrigatório para quem vai à capital paraense, para conhecer como nasce seus produtos, do pé de cacau ao produto finalizado e embalado.
O limite de ser apenas o maior
O Pará ocupa hoje a liderança na produção de cacau no Brasil, com 137,5 mil toneladas, 46,2% da produção nacional, segundo os dados mais recentes do IBGE, de 2024. Mas, na lógica de quem vive da floresta, esse dado isolado diz pouco sobre renda, estabilidade ou futuro.
Para produtoras como Dona Nena, ser o maior produtor não resolve a equação econômica. O cacau, quando vendido como commodity, continua preso a margens reduzidas e à volatilidade de preços internacionais. O cacau que atingiu picos de valorização em 2024, com um valor bruto da produção (VBP) de R$ 11,09 bilhões e em 2025 com R$ 11,61, este ano, são estimados R$ 5,6 bilhões, pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).
Foi a partir desse diagnóstico que Dona Nena decidiu alterar o modelo de negócio. Em vez de vender amêndoas secas para atravessadores, passou a investir na fabricação do próprio chocolate.
“O cacau antes era visto apenas como sobrevivência; hoje, o nosso lema é não vender matéria-prima, mas vender produto com agregação de valor”, afirma Nena.
A decisão redefine a posição do produtor na cadeia. Ao verticalizar a produção, ela deixa de ser fornecedora e passa a disputar o mercado final, onde estão as margens mais elevadas. Isso fez com que ela saísse de um valor de cerca de R$ 10 a 15 por quilo de amêndoas para vender chocolates de R$ 650 o quilo.
A construção de um novo modelo produtivo

A transição não ocorreu em ambiente favorável. Energia instável, escassez de água tratada, logística complexa e ausência de assistência técnica são entraves permanentes na ilha.
Ainda assim, a Casa do Chocolate Filha do Combu evoluiu de um processamento rudimentar para uma pequena agroindústria que hoje produz entre 400 quilos e 500 quilos mensais de chocolate e gera empregos formais na comunidade.
Mais do que produzir chocolate, o negócio construiu diferenciação. Barras com alto teor de cacau, produtos 100% cacau e releituras como o brigadeiro com nibs (pedaços de amêndoas de cacau puro, torradas e trituradas, sem açúcar ou conservantes) posicionam a marca em um segmento premium, distante da lógica de volume e preço baixo.
Esse reposicionamento cria uma nova referência econômica para a ilha, onde o valor não está na quantidade produzida, mas na forma como o produto chega ao mercado.
Rede local e redistribuição de renda

O modelo também reorganiza a base produtiva. Cerca de 30 produtores locais passaram a integrar a cadeia como fornecedores de Dona Nena, em um arranjo que reduz a dependência de intermediários e melhora a previsibilidade de renda.
Mesmo quando os preços internacionais recuam, a produtora mantém pagamentos acima da média para evitar o abandono da cultura do cacau.
Esse ponto é central. Sem estímulo econômico, o produtor tende a migrar para o açaí, cultura de liquidez imediata, mas com menor capacidade de geração de valor ao longo do ano.
Ao criar demanda local por cacau de qualidade, o modelo sustenta a diversificação produtiva e fortalece a permanência do ribeirinho na atividade agrícola.
A lógica da complementaridade na Ilha do Combu

É nesse contexto que a trajetória de Prazeres Quaresma dos Santos, 58 anos, se entrelaça com a de Dona Nena. Proprietária do Sítio Livramento e do restaurante Saldosa Maloca, ela representa um elo essencial com o domínio do cultivo e do conhecimento tradicional.
“Eu não sou uma pessoa que entende de chocolate, mas sou uma pessoa de cacau. Então, convidei quem entende para sermos sócias,” diz Prazeres.
A parceria entre Prazeres e Nena resultou em uma estrutura produtiva compartilhada, na qual o cacau é processado com rastreabilidade e identidade de origem. Cada lote mantém vínculo direto com o produtor, permitindo diferenciação no mercado.
Ao mesmo tempo, iniciativas como o aproveitamento do mel de cacau, que na realidade é o suco natural e adocicado extraído da polpa branca que envolve as sementes do cacau e é obtido por prensagem antes da fermentação. Este subproduto, antes descartado, amplia o portfólio e aumenta o valor extraído de cada fruto.
“O cacau é algo supremo. Nós aproveitamos o mel, que seria perdido antes da fermentação, e transformamos em algo maravilhoso,” diz Prazeres.
Escala, clima e vulnerabilidades
Apesar dos avanços, a produção permanece exposta a variáveis difíceis de controlar. A oscilação climática tem impactado diretamente a produtividade.
Em um intervalo de um ano, a produção de Prazeres caiu de cerca de 600 kg para menos de 100 kg em uma mesma etapa de colheita.
Somam-se a isso entraves estruturais como insegurança fundiária caraterística dos moradores da Ilha do Combu e dificuldade de acesso a crédito. A Ilha do Combu é uma Área de Proteção Ambiental (APA) e depende de concessões governamentais e regulação quanto às atividades, por isso é voltada principalmente para populações tradicionais (ribeirinhos e extrativistas), visando a conservação ambiental e a limitação da ocupação por pessoas de fora.
Esses fatores limitam a expansão do modelo, mas não anulam sua relevância. Ao contrário, reforçam a necessidade de políticas que acompanhem a transformação produtiva em curso.
“Eu não tenho o plano de chegar a 10 mil pés de cacau, porque para isso eu teria que desmatar. Meu objetivo é cuidar e melhorar a produção do que já temos na floresta”, diz Nena.
A imagem construída na Ilha do Combu antecipa um debate maior: o papel da Amazônia não apenas como fornecedora de matérias-primas, mas como protagonista de cadeias de valor sofisticadas.
Dona Nena, ao ensinar dois presidentes o que é cacau e chocolate premium, acabou mostrando algo ainda mais relevante, como transformar produção em estratégia.