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Instrumento Inédito, o Leite Brasileiro Ganha o Mercado Futuro

Por décadas, o produtor de leite brasileiro acordou sem saber quanto receberia pelo litro entregue no mês anterior. Na noite desta quarta-feira (13), na sede da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) em Brasília, esse cenário começou a mudar. A StoneX Leite Brasil lançou uma ferramenta de hedge para o mercado leiteiro nacional, desenvolvida em parceria com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Esalq/USP, que permite a produtores, cooperativas, laticínios, tradings e varejistas travar preços futuros e proteger margens contra as oscilações de um dos mercados mais voláteis da cadeia agropecuária brasileira.

O evento reuniu presidentes de federações estaduais de agricultura e pecuária, representantes da indústria láctea, parlamentares e lideranças do setor. Ao final da apresentação, Jônadan Ma, presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Leite da CNA e produtor de leite no Triângulo Mineiro, assinou simbolicamente o primeiro contrato da ferramenta.

Para Gedeão Silveira Pereira, médico veterinário e primeiro vice-presidente da CNA, o lançamento é resultado de uma construção coletiva. “Fizemos um trabalho de parceria, com contribuições importantes de técnicos e especialistas do setor leiteiro”, disse Pereira. “O mercado pode se beneficiar de instrumentos como este. O Brasil tem um agronegócio que é referência no mundo na produção de alimentos e precisamos avançar. Precisamos deixar um legado para os nossos sucessores. São eles que vão assumir as propriedades e fazer delas um negócio ainda melhor.”

Quatro produtos, um mecanismo

São quatro os produtos disponíveis, todos operados no mercado de balcão (OTC), sem listagem em bolsa. O leite ao produtor e o leite UHT têm contratos de 40 mil litros cada; o queijo muçarela, de 4 mil quilos; e o leite em pó integral industrial, de 5 toneladas.

Os indicadores de referência para liquidação são os do Cepea: a Média Brasil para o leite ao produtor, e indicadores de praça Sudeste para o UHT e o muçarela. A liquidação ocorre mensalmente, no último dia útil de cada mês.

Daniel Fagundes/ Trilux/CNAJônadan Ma, da CNA, e Mariane Tufani, da StoneX Leite Brasil

O mecanismo funciona como um seguro de preço. O produtor que decide vender contratos futuros a R$ 2,00 por litro, por exemplo, garante esse valor independentemente de para onde o mercado caminhe até a data de liquidação. Se o indicador fechar em R$ 2,50, ele vende o leite físico a R$ 2,50 para o laticínio, mas devolve R$ 0,50 à corretora. Se cair para R$ 1,50, recebe R$ 1,50 no físico e embolsa R$ 0,50 da corretora.

O resultado líquido é sempre R$ 2,00. Não há entrega física de produto. As ordens são realizadas por e-mail, telefone ou WhatsApp, todas gravadas, e nenhuma operação é executada sem autorização do cliente.

“A ferramenta não é para ganhar dinheiro, e sim para proteger a sua margem”, disse Mariane Tufani, consultora em gerenciamento de riscos da StoneX Leite Brasil. “Quando o produtor entende qual é a margem que quer ao longo dos meses, ele consegue vender antecipadamente e entregar o leite que hoje entrega sem saber o preço futuro”, acrescentou Tufani.

Para quem questionar se a ferramenta coloca mais um intermediário na cadeia, a resposta da consultora é direta: “A operação não pode onerar nenhum resultado. A gente está aqui para ajudá-lo a não perder mais dinheiro, como acontece infelizmente hoje.”

Para operar, o interessado precisa abrir conta na StoneX. O custo da operação é a corretagem padrão, com exigência de margem de garantia e ajustes diários conforme o movimento do mercado. Contratos fracionados estão disponíveis para volumes menores que os lotes padrão, o que abre a ferramenta a produtores de menor escala. Tufani ressaltou que o produto não exige escala mínima: “Ele pode fazer 0,5 contrato, porque um contrato é 40 mil litros. Então é para todo mundo.”

Três décadas de experiência internacional

A StoneX opera há mais de 30 anos no mercado internacional de lácteos e concentra globalmente cerca de 60% dos contratos de hedge nesse segmento. A experiência acumulada na Europa, onde a empresa percorreu trajetória semelhante três décadas atrás, orientou os tamanhos dos contratos para o mercado brasileiro. “Há 30 anos, a gente estava exatamente neste momento na Europa. Hoje, 30 anos depois, temos 95% do mercado fazendo hedge conosco”, disse Tufani.

A parceria com o Cepea, que monitora a cadeia do leite desde 1986 e calcula indicadores de preços ao produtor desde 2004, fornece a base de referência para a liquidação financeira dos contratos.

Daniel Fagundes/ Trilux/CNANatália Grigol, do Cepea

Para a pesquisadora do Cepea Natália Grigol, responsável pelos indicadores de leite da instituição, a cadeia leiteira brasileira opera há anos sob uma lógica de curto prazo que corrói a competitividade do setor. “Todos os agentes, sejam produtores, indústrias ou o próprio varejo, ficam muito focados no movimento imediato do mercado, tentando encontrar uma oportunidade para fazer caixa. Só que isso gera um efeito rebote: a cadeia acaba ficando muito à mercê do oportunismo”, afirmou Grigol.

As consequências aparecem no investimento. “Quando a gente não tem um ambiente de menor risco e de maior previsibilidade, fica muito difícil, tanto para um produtor quanto para uma indústria, planejar o longo prazo. O produtor fica à mercê dessa volatilidade, como se a margem dele ficasse volátil também. Isso desenvolve um rendimento mais volátil e uma inconstância no investimento”, disse a pesquisadora.

O resultado, segundo ela, é uma cadeia que investe menos no longo prazo, perde competitividade internacional e mantém uma situação de falta de autossuficiência.

A ferramenta, na avaliação de Grigol, não toca apenas o produtor na porteira, porque “produtor com maior previsibilidade, indústria com maior previsibilidade nessa negociação significa também uma produção que pode ser melhor planejada e um alimento que chega na mesa do consumidor com maior regularidade de preço e de qualidade”. “Celebramos este avanço ao lado da StoneX, parceira que também demonstra visão de longo prazo para apostar no potencial da cadeia láctea brasileira”, afirmou Grigol.

Um gargalo histórico

Ma, que há anos articula na CNA instrumentos de previsibilidade para o setor, situou o lançamento no contexto de uma construção institucional iniciada em 2024, com a formação de um grupo de trabalho que reuniu produtores, indústrias, cooperativas e especialistas.

“Como produtores de leite, passamos muitos anos tropeçando e cambaleando diante de um problema crônico do setor, que é a falta de previsibilidade”, disse Ma. Para ele, a ferramenta permitirá ao produtor planejar investimentos de escala com respaldo de preço garantido: “A iniciativa traz ao Brasil o que já é praticado pelos principais países produtores. Uma ferramenta que chega para modernizar o mercado nacional de leite e se consolidar como um divisor de águas para o desenvolvimento dessa que é uma das principais atividades pecuárias do país.”

O lançamento ocorre em meio à investigação de dumping aberta pelo MDIC contra importações de leite em pó da Argentina e do Uruguai, a pedido da CNA, com decisão final prevista para este mês pelo GCEX/Camex. Em 2024, até novembro, o Brasil importou o equivalente a 1,4 bilhão de litros de lácteos, sendo 760 milhões da Argentina e 566 milhões do Uruguai. Para Ma, as duas frentes são complementares: “De nada adiantaria falar sobre mercado futuro se estamos sofrendo uma competição desleal e predatória.”

O Brasil é o sexto maior produtor de leite do mundo, com 35,7 bilhões de litros produzidos em 2024, novo recorde histórico, segundo o IBGE. O setor reúne 1,2 milhão de propriedades produtoras, presentes em 99% dos municípios brasileiros, com valor bruto da produção primária de R$ 87,5 bilhões no mesmo ano.



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