O maior problema daTeslapode não ser mais a concorrência chinesa, a desaceleração da demanda por seus veículos elétricos ou o retorno ainda teórico dos robotáxis e robôs humanoides. Pode ser aSpaceX.
Se a empresa de foguetes e internet via satélite deElon Muskabrir capital com uma avaliação próxima aos US$ 1,75 trilhão (R$ 8,82 trilhões), não será apenas um dos maiores IPOs da história. Também oferecerá aos investidores da Tesla, cansados de esperar que as promessas do CEO se concretizem, algo que não têm há algum tempo: uma forma potencialmente maior de apostar no “mito Musk”.
Certamente, a SpaceX — sob a presidência de longa data deGwynne Shotwell— desponta como um ativo mais atraente, com menos concorrentes diretos e sem as recorrentes dúvidas trimestrais sobre quando a Tesla conseguirá rivalizar com aWaymoem direção autônoma ou, de fato, entregar seu robô no estilo C-3PO.
“Há muitos investidores da Tesla que veem a SpaceX como um investimento melhor por várias razões”, disseRoss Gerber, investidor da Tesla e CEO da Gerber Kawasaki, com sede em Santa Monica (Califórnia), que administra mais de US$ 4 bilhões (R$ 20,16 bilhões), à Forbes. “Se eu vender minhas ações da Tesla, ninguém vai contestar que ela está superavaliada. E, se eu quiser apostar no hype, vou comprar SpaceX. É isso que as pessoas querem fazer. Muitos acham que será dinheiro fácil.”
Isso ocorre em grande parte porque, apesar da rentabilidade contínua da Tesla, a empresa passa por uma mudança estrutural, afastando-se do negócio que construiu sua marca — a venda de veículos elétricos —, que estagnou enquanto aguarda a entrada de novos produtos voltados à inteligência artificial.
Esse movimento ficou evidente nesta semana, com os resultados do primeiro trimestre da companhia sediada em Austin. O lucro líquido subiu para US$ 477 milhões (R$ 2,40 bilhões), alta de 16% em relação ao mesmo período do ano anterior, quando a marca foi impactada por protestos contra Musk e pela redução da produção do SUV Model Y, em meio à transição para uma versão atualizada.
Ainda assim, o valor ficou bem abaixo dos três trimestres anteriores, incluindo os US$ 844 milhões (R$ 4,25 bilhões) registrados no último trimestre de 2025.
Narrativa da Tesla
O negócio de baterias da empresa, que havia sido destaque no ano passado, recuou 12% no primeiro trimestre. A receita total cresceu 16%, para US$ 22,4 bilhões (R$ 112,90 bilhões), mas também ficou abaixo dos níveis dos três trimestres anteriores.
A Tesla não registrou receita com sua pequena frota de robotáxis, que opera principalmente no Texas com motoristas de segurança humanos ao volante. Da mesma forma, não houve receita com os robôs Optimus no período, outra aposta de geração de receita que ainda não entrou em produção.
Mesmo assim, a empresa planeja investir pelo menos US$ 25 bilhões (R$ 126,00 bilhões) para transformar em realidade os projetos de inteligência artificial e robótica de Musk. As ações caíram 3,6%, para US$ 373,72 (R$ 1.883,55), na quinta-feira (23). No acumulado do ano, já recuam em torno de 17%.
“O que estamos vendo com a Tesla é uma marca em que a crença faz mais trabalho do que a estratégia — e o verdadeiro teste é por quanto tempo essa dinâmica pode se sustentar”, disseGonzalo Brujó, CEO da Interbrand, consultoria que elabora um ranking anual das marcas globais mais valiosas.
O valor da marca Tesla despencou 35% em 2025, em grande parte devido à impopularidade de Musk, associada ao seu papel no DOGE durante o governo Trump e ao apoio a políticos de extrema direita na Europa.
“A marca perdeu força à medida que sua liderança passou a ser uma fonte de distração, e não de diferenciação. Agora, com Musk menos dominante no debate público, parte dessa pressão diminuiu. Mas isso não gerou uma retomada. Apenas evitou que a situação piorasse”, afirmou Brujó.
A SpaceX, de certa forma, pode repetir o que ocorreu com a Tesla após seu IPO em 2010, afirmouDan Coatsworth, chefe de mercados da consultoria britânica AJ Bell, que não recomenda nenhuma das duas empresas. “A Tesla teve vantagem de pioneirismo nos veículos elétricos, construiu uma marca forte e gerou grandes ganhos aos acionistas. Agora, a concorrência está alcançando — e, em alguns casos, até superando”, disse.
“Pode ser que alguém que esteja há muito tempo na Tesla pense: ‘já ganhei meu dinheiro, e a SpaceX está tentando conquistar essa vantagem inicial na economia espacial — e a distância para os concorrentes ainda é enorme”, comentou Coatsworth.
Efeito Musk
O sucesso de Musk em criar o mercado moderno de veículos elétricos, o crescimento da Tesla desde o lançamento do sedã Model S em 2012 e suas constantes promessas de avanços tecnológicos iminentes ajudam a sustentar o valor das ações em quase 200 vezes o lucro projetado.
Da mesma forma, o “efeito Musk” explica por que o valor de mercado da empresa é 12 vezes sua receita estimada para este ano, de US$ 100 bilhões (R$ 504,00 bilhões).
Em comparação com a SpaceX, porém, isso parece conservador. A avaliação projetada de US$ 1,75 trilhão (R$ 8,82 trilhões) representa 80 vezes a receita estimada da empresa, de US$ 22 bilhões (R$ 110,88 bilhões), impulsionada principalmente pelo negócio de internet via satélite Starlink.
E, embora novos projetos, como data centers espaciais prometidos por Musk, sejam atraentes, eles podem não ser viáveis no curto prazo. “Nossas iniciativas para desenvolver computação de IA em órbita e industrialização em órbita, na Lua e em outros planetas estão em estágio inicial, envolvem grande complexidade técnica e tecnologias ainda não comprovadas, podendo não atingir viabilidade comercial”, diz um trecho do documento S-1 da empresa obtido pela Reuters.
A ampla base de fãs de Musk entre investidores pessoa física tem alimentado o entusiasmo pelo IPO da SpaceX, masSeth Goldstein, analista da Morningstar, que considera as ações da Tesla adequadamente precificadas no nível atual, não vê isso como algo negativo para a montadora.
“Não vejo necessariamente uma migração de investidores da Tesla para a SpaceX”, afirmou. “Do ponto de vista institucional, é provável que haja redução em algumas posições — incluindo Tesla e outras — para abrir espaço à SpaceX nos portfólios.”
Da mesma forma,Ben Kallo, analista sênior da Baird que acompanha a Tesla desde seu IPO e mantém recomendação de outperform, acredita que apenas uma parcela minoritária de investidores fará essa troca.
“Acho que alguns investidores individuais podem vender ações da Tesla para comprar SpaceX, mas a tendência maior será manter ambas. O investidor amplia sua exposição ao ecossistema Musk”, disse. “Nossa visão é que, no fim, as empresas provavelmente serão unificadas por várias razões”, destaca Kallo.
Governança em Xeque
Ben Kallo não está sozinho nessa expectativa, que já circula há mais de uma década. No entanto, essa possibilidade levanta preocupações entre grandes investidores institucionais que possuem participação na Tesla e também terão posição na SpaceX, em razão de investimentos anteriores no antigo Twitter e na xAI, que foram incorporados à oferta.
As dúvidas giram em torno da governança e da capacidade de manter mecanismos de controle sobre Musk, frequentemente envolvido em controvérsias.
“A realidade é que os problemas de governança que vemos na Tesla tendem a se repetir na SpaceX caso haja uma relação formal entre as empresas”, afirmou um membro do conselho de um fundo público que investe na Tesla e deve comprar ações da SpaceX após o IPO, sob condição de anonimato.
A principal preocupação é o “risco material” associado ao histórico de governança da xAI dentro da estrutura da SpaceX.
Gerber, cuja gestora também terá participação na SpaceX por meio de investimentos anteriores no antigo Twitter e na xAI, espera que as empresas acabem se unindo — e que, até lá, enfrentem conflitos. “Não dá para administrar duas empresas abertas sem conflitos de interesse constantes, especialmente quando elas negociam entre si.”
Além disso, como a xAI — empresa de inteligência artificial de Musk — está integrada à SpaceX, “você tem o ‘cérebro’ da Tesla, o Grok e o Optimus sendo comandados pela SpaceX. Isso não faz muito sentido. Nunca fez”, afirmou. “Elas precisam se unir. E, se a SpaceX fizer IPO antes disso, a integração depois será caótica.”
Por ora, Gerber acredita que a SpaceX deve concentrar mais entusiasmo no curto prazo. “É uma ação ‘meme’ melhor, porque não dá para quantificar o espaço. E, se você quer ser uma meme stock, o ideal é estar em um setor que não pode ser facilmente mensurado.”