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Quando o Legado Deixa de Ser Herança e Passa a Ser Construção Compartilhada

Uma vez perguntaram a Daniel como era ser filho da Nara Roesler, uma mãe que trabalha tanto. Ele respondeu: “Não sei. Essa é a mãe que eu tenho.”

Há muitas formas de falar sobre maternidade. Algumas passam pela intimidade, outras pela memória. Mas existe também uma dimensão menos explorada aquela que se constrói no tempo, no trabalho e nas escolhas que atravessam gerações.

DivulgaçãoAlexandre (à esquerda) e Daniel Roesler

Ao longo da vida, aprendi que legado não é algo que se entrega pronto. Não é uma estrutura que se transfere intacta de uma pessoa para outra. Legado é um processo — e, sobretudo, uma construção.

Meus cinco filhos cresceram dentro do universo da arte. Quando comecei a apresentar o trabalho do artista pernambucano José Claudio, ainda em casa, era preciso tirar os brinquedos da sala para receber quem vinha ver as obras. De certa forma, eles sempre estiveram ali, respirando aquilo.

Mas isso não significou um caminho direto para que meus filhos Daniel e Alexandre se tornassem meus sócios na galeria. Não foi uma continuidade automática, ou uma sucessão previamente desenhada. Como muitas coisas na minha vida, aconteceu de forma orgânica.

Cada um seguiu sua própria trajetória antes de se aproximar da galeria. Daniel se formou engenheiro, fez MBA em Columbia, construiu uma vida profissional. Um dia me contou que, durante o MBA, muitas vezes pensava em como certos cases poderiam ser aplicados à galeria. Acho que algo interno já estava em curso – não como continuidade, mas como elaboração própria.

Alexandre passou por consultoria, banco, governo. Havia um repertório sendo formado e isso fez toda a diferença. Em 2009, quando eu estava desenvolvendo um projeto de e-commerce, convidei-o para tocar essa frente. A partir daí, sua presença foi se tornando mais constante, até integrar a sociedade.

Trabalhar em família, especialmente em um campo como o da arte — onde nem tudo se mede por critérios objetivos — exige uma negociação constante entre papéis. E eu preciso, ao mesmo tempo, preservar a história e permitir que novas visões se afirmem. Abrir espaço para o outro sem perder aquilo que sustenta a identidade do que foi construído até ali. Por exemplo, este ano comemoramos 15 anos da editora, com 31 livros publicados. Isso foi graças à insistência de Daniel. Hoje eu vibro, mas no começo eu não achava prioridade, tinha tanto trabalho! Valeu a insistência.

Flávio FreireEditora comemorou 15 anos

Com o tempo, entendi que a verdadeira transição não está na passagem de comando, mas na transformação do vínculo. Meus filhos não vieram ocupar um lugar — vieram construir o deles. E, nesse movimento, também transformaram o meu.

Hoje, a galeria é resultado dessa sobreposição de olhares. Há ali uma base que permanece, mas também uma energia de reinvenção que não seria possível sem essa troca. O que antes era um percurso individual torna-se, aos poucos, uma trajetória compartilhada.

Arquivo PessoalNara com a família em 2024

Talvez seja essa a forma mais potente de legado: quando ele deixa de ser herança e passa a ser construção conjunta. Quando não se trata mais de transmitir, mas de criar lado a lado.
E há, nisso, um privilégio silencioso: o de poder dividir com os filhos a obra de uma vida. Compartilhar não apenas uma empresa, mas um percurso, um sonho que ganha novas camadas ao ser atravessado por outros olhares. E, ao mesmo tempo, ter a tranquilidade de saber que aquilo que foi construído seguirá adiante não como repetição, mas como continuidade viva.

Sou movida a afeto. A galeria é a minha casa. Para além de Alexandre, Bernardo, Daniel, Joana e Mariana, estabeleci outras relações que também têm algo de maternal — com colaboradores, artistas, pessoas que caminham comigo há muitos anos.

Lembro de um gesto que me marcou. O artista Artur Lescher tinha o hábito de ligar para a mãe antes de embarcar em um voo. Na primeira viagem que fez após a morte dela, me ligou e disse: “Como não tenho mais minha mãe para ligar, resolvi ligar para você.”

DivulgaçãoNara Roesler e Artur Lescher

E, nesse sentido, a maternidade encontra um outro lugar. Menos associado à origem e mais conectado àquilo que se constrói no tempo, com presença, escuta e confiança.

Nara Roesler fundou a Galeria Nara Roesler em 1989. Com a sociedade de seus filhos Alexandre e Daniel, a galeria em São Paulo, uma das mais expressivas do mercado, ampliou a atuação inaugurando filial no Rio de Janeiro, em 2014, e no ano seguinte em Nova York.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.



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