Quando tinha 14 anos, Victoria Ceridono já costumava mandar os pais à Sephora no exterior com listas de encomendas tão extensas e detalhistas que os vendedores a confundiam com uma maquiadora profissional. Agora, quase três décadas depois, a jornalista e empresária mantém a forte relação com sua varejista favorita, desta vez do outro lado do balcão: é a sua própria marca que chega às prateleiras da gigante francesa.
A partir de julho, a Vic Beauté inicia oficialmente sua operação na Sephora Brasil, seu maior movimento de expansão física desde a fundação, há quase quatro anos. O salto vai de apenas um ponto físico, um quiosque no Shopping Iguatemi em São Paulo, para um total de nove pontos de venda – além do e-commerce da Sephora, a estratégia inicial será inaugurar em oito lojas físicas da rede até o final do ano.
Junto a uma expansão, a parceria consolida a marca no disputado mercado de luxo, dividindo espaço com gigantes internacionais como Dior, Nars e Fenty. “Desde o minuto que eu resolvi que ia lançar a marca, eu já visualizava ela vendendo na Sephora. Mas eu sabia que isso não ia acontecer no primeiro momento”, diz Vic à Forbes Brasil.
“Ela estava lá quando abrimos a nossa primeira loja, em 2012”, relembra Cataldo Domenicis, diretor de marketing da Sephora. “Ver a marca que ela construiu, com toda a sua bagagem técnica e sua profunda conexão com o consumidor brasileiro, chegar às nossas prateleiras, é uma história que se entrelaça de um jeito muito bonito”.
A quebra do “teto” do mercado nacional
A entrada na maior varejista de beauty do mundo coroa uma aposta ousada feita por Vic há quatro anos. Naquela época, a empresária visualizou uma lacuna para uma grife de beleza nacional de prestígio, desafiando a percepção de que a consumidora só investiria em selos importados a partir de determinada faixa de preço.
Mas se por muito tempo o segmento premium foi monopólio quase exclusivo das grifes importadas, hoje o cenário se inverteu, impulsionado por marcas nacionais que provaram seu valor agregado – um movimento que a Vic Beauté ajudou a protagonizar com seus produtos multifuncionais e de alta qualidade. “Virou motivo de orgulho usar produtos de beleza brasileiros”, analisa Vic sobre a mudança no comportamento dos consumidores.
Essa mudança de comportamento acompanha a própria curva de aprendizado da Sephora no país, que passou a investir na curadoria de marcas nacionais por entender que o consumidor deseja se ver representado. Se em 2012 a varejista chegou ao país apenas com etiquetas gringas, hoje as gôndolas estão recheadas de Bruna Tavares, Boca Rosa Beauty, Mari Maria, FRAN by Franciny Ehlke – e agora, Vic Beauté.
“A régua é a mesma para todos”, afirma Domenicis ao justificar o espaço dado às marcas locais, que hoje representam parcela relevante, e de crescimento constante, no faturamento da rede no país. “Mas mais do que vendas, o que nos interessa é o papel estratégico que essas marcas cumprem: elas trazem novidade, constroem comunidade. E têm uma agilidade muito particular, de implementar tendências e lançar produtos de forma mais rápida para o mercado brasileiro. É uma vantagem competitiva real dentro do nosso portfólio”.
Próximo destino: Brasil afora
A entrada na multinacional resolve um dos principais gargalos da Vic Beauté até aqui: a concentração física exclusiva em São Paulo. A expansão foca em praças onde a marca já mapeava forte demanda, como Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador, com Porto Alegre entrando no roteiro até o final do ano. O desembarque será feito em etapas: primeiro em gôndolas genéricas e, a partir de outubro, com espaços exclusivos e personalizados.
A capilaridade também abre portas para o diálogo com a Geração Z (18 a 24 anos), público com forte cultura de experimentação nas lojas da rede. Segundo Vic, o mercado brasileiro, apesar de múltiplo, ainda não está saturado como o americano ou europeu. “Ainda tem muito potencial de crescimento e novos nichos para serem criados e explorados”.
Na onda de sustentar essa nova escala de negócios, a empresa encorpou sua estrutura corporativa no final do ano passado com a contratação de Marjorie Pilli na cadeira de diretora executiva. Com passagem pelo comando brasileiro de grifes do grupo LVMH, como Givenchy e Kenzo, ela trouxe o rigor da gestão de alto luxo para preparar a operação.
Outra estratégia de negócios fundamental para a saúde da marca tem a ver com comunidade. Iniciativas como o Clube Beauté, um programa de afiliados para criadores de conteúdo, transformaram o relacionamento orgânico em um aumento considerável de receita.
Na contramão da complexidade técnica, o portfólio de mais de 50 SKUs da Vic Beauté aposta na praticidade aliada à alta performance. Para a Sephora, esse é o primeiro critério de triagem: “Sem produto que entrega qualidade e performance comprovadas, não existe conversa”, afirma Domenicis.
A grife brasileira gabaritou o teste ao entregar exatamente o que a varejista buscava: uma maquiagem para a vida real, fácil de usar. “Eu nunca quis criar produtos que tornassem a maquiagem mais complicada ou com muitos passos”, explica a fundadora. “Fazer um produto parecer simples para quem usa, mas entregar textura, acabamento, performance e versatilidade, exige muita precisão”.
Heroes como o Stick Tudo, o recente Corretivo Incrível e o Batom Sensa consolidaram a identidade da grife: entregar sofisticação sem exigir excesso de técnica. A adesão é tanta que a taxa de recompra da empresa beira os 50%. “Minha maior métrica de sucesso é alguém me mostrar que carrega um produto Vic Beauté na nécessaire, falando que amou, usa sempre e recomprou”
O que o futuro guarda para Vic Beauté
Mesmo com o foco atual voltado à expansão nacional imediata e lançamentos de novos produtos, a mente de Vic projeta as próximas fronteiras. O desejo a médio prazo, conta, inclui a entrada no universo do skincare e da perfumaria.
A longo prazo, a expansão internacional também segue viva no plano de negócios da jornalista. Morando em Londres há anos, Vic idealizou seus produtos para que não deixassem nada a desejar perante a concorrência global. “Eu sei que o meu produto numa loja fora do Brasil não iria ficar diminuído”, reflete. E a ambição encontra respaldo no mercado: as exportações de beleza brasileiras superaram a marca histórica de US$ 1 bilhão em 2025.
Agora com a Sephora e suas 3.400 lojas ao redor do mundo, a varejista vira uma vitrine imensa para a marca de Vic. Já com uma demanda orgânica latente em Portugal e na Inglaterra, o desembarque de Vic Beauté em novos continentes parece ser apenas uma questão de tempo.