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O Novo Manifesto De Dries Van Noten Para A Moda Pós-IA

Máquinas jamais serão capazes de fazer isso. Daria para definir assim a trajetória do estilista belga Dries Van Noten na moda. Ao perguntar, exclusivamente a título de pesquisa e por curiosidade, como é que um assistente de inteligência artificial resumiria esse mesmo legado, fui prontamente atendida com a seguinte definição: “Dries Van Noten cria uma moda ricamente elaborada, combinando estampas marcantes e influências culturais globais em peças refinadas”; uma sentença de cadência mecânica, com conteúdo estruturado pela lógica de dados algorítmicos e com tanta presença quanto uma casa com a luz acesa sem ninguém dentro.

Eu não estou certa de que, em oposição a ela, a frase que eu mesma escrevi é uma declaração definitiva sobre os 38 anos de contribuição criativa do designer para a indústria fashion, mas certamente acomoda seus principais valores. Exatamente os que ele leva agora para a Fondazione Dries Van Noten, que abriu as portas no dia 24 de abril, em Veneza, celebrando o craft e a dimensão humana da criação.

Divulgação/Fondazione Dries Van NotenFondazione Dries Van Noten terá The Only True Protest is Beauty como exposição inaugural paralela à Bienal de Veneza

“Para mim, o artesanal sempre foi uma forma de pensar com as mãos”, diz Dries, em entrevista exclusiva à ForbesLife Fashion. “Hoje, grande parte da vida chega até nós através de telas, moldada por algoritmos, entregue instantaneamente. Não é algo que eu rejeite, pois a tecnologia pode ser uma ferramenta extraordinária, que expande nossa imaginação e nossas maneiras de trabalhar. O risco é, simplesmente, esquecermos o outro lado da criação: o valor de desacelerar, de enfrentar a resistência, de deixar as coisas se desenrolarem em seu próprio ritmo.”

Foi também em seu próprio ritmo, e em seus próprios termos, que Dries construiu a etiqueta que leva seu nome. A primeira coleção foi apresentada em 1986, logo após uma viagem a Londres que nem ele nem a história da moda esquecerão: em uma van alugada, chegou em Londres como promessa da nova geração e voltou para casa como parte do fenômeno conhecido como Antwerp Six (batizado assim pois a imprensa britânica achou difícil pronunciar os nomes daqueles seis recém-formados da Academia Real de Belas Artes da Antuérpia). Terceira geração em uma família de alfaiates, Dries sempre olhou para o tecido como ponto de partida de suas coleções – da primeira à última, apresentada em Paris em junho de 2024, quando deixou a direção criativa aos cuidados do conterrâneo Julian Klausner.

“Ao longo da minha carreira, tive a sorte de trabalhar com artesãos incríveis, do mundo todo; de bordadeiras da Índia a especialistas têxteis da Itália. O que ficou marcado em mim nunca foi a beleza da peça final, mas o lado humano de tudo isso: a confiança que se constrói com o tempo, o orgulho compartilhado e a sensação de que você faz parte de algo maior do que você mesmo. Quando você trabalha com materiais [como o tecido], você retorna aos seus sentidos e às pessoas ao seu redor, porque o ato de ‘fazer’ quase nunca é solitário”, o estilista explica. “O artesanal nos ensina algo sobre ser humano que nenhum algoritmo pode substituir”, completa.

Moda, design, arquitetura, artes plásticas e (por que não?) comida. Na fundação, concebida por Dries ao lado do parceiro Patrick Vangheluwe, a beleza do craft é compreendida em seu sentido mais amplo. “A Fondazione me permite ampliar a conversa. Tudo em que sempre acreditei segue presente: a centralidade do material, a importância da colaboração, o respeito pelo ofício e pela inteligência que ele carrega. Nesse sentido, a fundação é uma continuação; ela cresce a partir das mesmas raízes que guiaram meu trabalho antes, mas sob nova estrutura. O foco não é tanto sobre produzir, é mais sobre facilitar”, conta. “Não queremos responder à urgência, mas criar espaço para a escuta, abrindo perguntas que não precisam de respostas imediatas.” Tudo no seu tempo.

Divulgação/Fondazione Dries Van NotenExposição inaugural inclui 200 itens de moda, joalheria e artefatos de design colecionável

O estilista diz que o maior medo que já sentiu foi o de ver seu ofício como criador de moda se tornar uma fórmula sistemática, como uma receita de bolo de laranja (algo mais próximo, talvez, do que a definição da IA nos deu a respeito de sua história no início deste texto). Por isso mesmo, fez tudo à sua moda. Estamos falando com um estilista que passou seis horas ininterruptas admirando obras de Francis Bacon em uma exposição na Tate Britain, em 2008, para depois citar o artista como fonte de inspiração em sua coleção masculina para o inverno 2009. Só que, para ele, a inspiração seria algo impossível de reduzir à estética ou às pinceladas de beleza perturbadora do artista britânico: vinha das sensações que atravessaram sua cabeça e seu corpo ao olhar para elas, sem a intermediação de uma tela. Enquanto comandava o ateliê da marca, Dries chegou a instituir um “no computer day” no escritório: um dia em que todos os colaboradores eram convidados a abrir livros em vez de abas no Safari.

“A moda é extraordinária, mas tem suas próprias pressões, seu próprio tempo e seus próprios imperativos comerciais.” Com a fundação (uma iniciativa sem fins lucrativos, vale dizer), Dries quer fazer diferente. “A transição não foi dramática nem repentina. Ela se desenrolou gradualmente, ao longo de anos de reflexão. Após tanto tempo trabalhando no ritmo das temporadas de moda, fiquei curioso sobre como a criatividade poderia se manifestar fora dessa estrutura específica”, revela.

Divulgação/Fondazione Dries Van NotenOnly True Protest is Beauty também expõe cerâmicas e peças de vidro

A escolha da cidade que sedia a fundação acompanha a lógica: fora da rota das capitais fashion, em Veneza, um lugar que comprova historicamente o poder do fatto a mano e do gesto humano para elevar o efêmero ao eterno. Fincada no Palazzo Pisani Moretta, às margens do Grande Canal, entre a Ponte Rialto e o Ca’ Foscari, a Fondazione Dries Van Noten ocupa uma construção do século 15 moldada ao estilo Fiorito do gótico veneziano, mas que entre 1735 e 1750 foi inteiramente redecorada à moda rococó. Um projeto de restauro foi encomendado ao arquiteto Alberto Torsello (nome por trás de revitalizações de ícones locais como o Palazzo Ducale e o Museo Fortuny), cujas principais intervenções jamais serão notadas pelo público: a lei de proteção ao patrimônio veneziano é dura, de modo que mudanças dramáticas, além de indesejadas por Dries e Patrick, não são permitidas. A ambiência, portanto, convida a um diálogo entre o passado histórico e a projeção de novos futuros artísticos – um alívio para a família Sammartini, última proprietária do imóvel, que não queria ver o Palazzo transformado em mais um hotel cinco estrelas.

A exposição inaugural se chama The Only True Protest is Beauty, citação a um verso do compositor e ativista político estadunidense Phil Ochs (“em tempos tão sombrios, o único verdadeiro protesto é a beleza”). Multidisciplinar como a vocação do projeto, contará com 200 itens, incluindo obras de arte que dividirão o espaço de 20 salas com moda, joalheria e artefatos de design colecionável, além de cerâmicas e peças de vidro (que não poderiam ficar de fora, em se tratando de Veneza). Pense em peças da Comme des Garçons e de Christian Lacroix ao lado de fotografias de Steven Shearer, canadense que representou seu país na 54ª Bienal da cidade.

São nomes conhecidos, sem dúvida, porém um dos aspectos mais interessantes da curadoria, feita pelo próprio estilista ao lado de Geert Bruloot – o homem que ocupava um assento ao lado de Dries naquela van rumo a Londres, em 1986, e que este ano assina também a exposição The Antwerp Six, no MoMu – está na escolha de obras que vão além dos óbvios “melhores artesãos”.

Divulgação/Fondazione Dries Van NotenFondazione se localiza no palazzo veneziano Pisani Moretta

Há artistas up-and-coming, como o estilista palestino Ayham Hassan, que pegou ano passado seu diploma de formatura na prestigiada escola de moda Central Saint Martins, em Londres. E há também um grupo intermediário, que ainda não colhe os louros da fama tampouco começou sua produção artística ontem; criativos que, segundo Dries, são deixados de lado pelo circuito.“A Fondazione me permite apoiar outras vozes, dar um passo para trás e deixar o trabalho de outros ressoar; permite que eu me engaje com disciplinas que vão além da moda e pense através de gerações, em vez de focar em uma única temporada”, ele justifica.

A inauguração da fundação acompanhará o calendário paralelo da 61ª Bienal de Arte de Veneza, mas o projeto abrigará exposições, projetos colaborativos, residências artísticas e eventos ao longo de todo o ano. É apenas o começo. E, para o estilista, está longe do final. “Parece mais leve de certa forma, mais aberto. O círculo se alargou e, dentro dele, há espaço para a experimentação, para a incerteza e para encontros que eu não poderia ter previsto antes. Não é, de forma alguma, um fim – é mais uma expansão”, finaliza, como alguém que atravessou o sistema da moda e, lá do outro lado, nos diz: “há muita vida aqui”.

*Reportagem publicada na 10ª edição da ForbesLife Fashion, disponível nos aplicativos na App Store e na Play Store



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