“Escondido à vista de todos” pode ser uma forma apropriada de descrever Nervi, um requintado balneário da Riviera Italiana a cerca de sete quilômetros de Gênova. A maioria das pessoas apenas o vislumbra enquanto passa de trem Regionale rumo a paradas costeiras mais conhecidas, como Santa Margherita Ligure ou as hoje exaustivamente populares Cinque Terre.
Quando mencionei Nervi, muitos italianos e até alguns dos meus amigos americanos mais viajados tinham apenas uma vaga noção de onde ficava, quando sabiam alguma coisa. E, por muitos anos, eu também desconhecia o local e pensava nele apenas como uma das muitas estações de trem de Gênova. (Antigamente uma vila independente, Nervi tornou-se distrito de Gênova em 1926.) Embora talvez seja mais conhecido entre moradores locais e italianos entendidos no assunto, Ernest Hemingway esteve em Nervi nos anos 1950.
Ao longo dos últimos verões, tive a oportunidade de parar em Nervi depois de visitar amigos mais adiante na costa, e a cada vez encontrei mais coisas de que gostar. A cidade não foi “curada” ou transformada em uma versão pronta para hashtags de si mesma, não há grupos andando com bastões de selfie, as lojas não vendem bugigangas de lembrança, e seu ritmo continua sendo o de uma tranquila cidade italiana “ainda não descoberta”.

Mas Nervi não é um lugar esquecido. Às vezes, na busca por um destino intocado, você encontra um local obscuro sem turistas, mas também sem muito para ver ou fazer. Nervi tem muito para ver e fazer — há museus esplêndidos, um notável calçadão à beira-mar, clubes de praia com preços justos e trattorias, além de um evocativo porto pesqueiro. Recentemente, houve a estreia de um novo hotel cinco estrelas que abriu o destino para viajantes de luxo.
Um litoral espetacular

A Via dell’Amore da Ligúria, ou “caminho dos amantes”, é justamente famosa por suas vistas marítimas extraordinárias ao longo da costa de Cinque Terre, mas achei o lungomare de Nervi, chamado Passeggiata Anita Garibaldi (batizado em homenagem à revolucionária que foi esposa de Giuseppe Garibaldi, líder do movimento de unificação da Itália), um passeio igualmente dramático e sedutor, com pores do sol espetaculares. Também é menos lotado.
O calçadão se estende por dois quilômetros desde o porto de Nervi e serpenteia ao longo da costa rochosa até Capolungo, uma pequena praia de pedras perto de Bogliasco, cidade vizinha de Nervi. Quando o mar está agitado, a paisagem se torna especialmente memorável, embora você possa se molhar com os respingos se as ondas estiverem fortes e batendo nas pedras.
O porto da cidade, chamado Porticciolo, forma o núcleo da antiga Nervi, antes uma pequena vila que cresceu ao redor de uma enseada onde pescadores guardavam seus barcos. (A marina foi ampliada depois, no fim do século XIX e início do XX.) Essa área, com suas casas coloridas, vistas idílicas para o mar e concentração de restaurantes e bares, oferece o tipo de cenário clássico da Ligúria que viajantes buscam mais adiante em Portofino e Vernazza, uma das vilas de Cinque Terre — ainda que em escala menor, mais simples e sem verniz.
Diferentemente de Portofino e Vernazza, Nervi possui um vasto parque-jardim, com cerca de nove hectares de paisagismo pontuado por palmeiras, árvores frutíferas, roseiras e azaléias. O parque, cortado por trilhas para caminhada, desce praticamente até o mar e abriga diversos museus que exploram alguns dos períodos menos conhecidos da pintura italiana e das artes decorativas. Três deles funcionam em vilas históricas que já foram residências privadas, oferecendo uma noção do estilo de vida discretamente sofisticado das elites que vinham a Nervi, muitas vezes para escapar dos rigorosos invernos do norte da Europa no fim do século XIX.
Museus importantes

A maioria dos museus de Nervi se concentra nos séculos XIX e XX, o que oferece uma agradável pausa em relação ao tradicional (embora espetacular) trio formado pelos períodos medieval, renascentista e barroco, que domina muitas cidades italianas. A Galleria d’Arte Moderna de Nervi oferece um duplo atrativo — o museu fica na bem preservada Villa Saluzzo Serra, datada do século XVII, e abriga uma variedade de estilos modernos, incluindo Futurismo e Expressionismo, além de forte representação de deslumbrantes paisagens da Ligúria.

Ali perto está a Raccolte Frugone, que reúne a coleção de Luigi e Lazzaro Frugone, dois bem-sucedidos empresários genoveses (e irmãos). Entre as obras estão nomes notáveis como Giovanni Boldini e outros grandes pintores macchiaioli (frequentemente descritos como os impressionistas italianos), como Giovanni Fattori, Silvestro Lega e Telemaco Signorini. As peças Frugone estão na Villa Grimaldi Fassio, também uma das vilas mais antigas e importantes de Nervi.

É uma caminhada fácil da Raccolte Frugone até o singular Museu Wolfsoniana, com uma coleção eclética de objetos decorativos, pinturas, móveis e arte gráfica representando os principais movimentos de design do último século, como Liberty, Art Déco e Racionalismo. O acervo foi organizado para explorar como a arte se cruzou com os importantes movimentos políticos e sociais da época. (A Wolfsoniana tem ligação direta com o Wolfsonian-FIU Museum, de Miami, já que ambas as coleções foram doadas por Mitchell Wolfson Jr., filantropo americano.)
A cerca de 15 minutos a pé da Wolfsoniana, também dentro do parque, fica a Villa Giannettino Luxoro, instalada em uma mansão mais recente, mas com coleções que viajam ainda mais no tempo, aos séculos XVII e XVIII, com impressionante conjunto de móveis, objetos decorativos e relógios antigos. (As visitas devem ser agendadas com antecedência pelo e-mail [email protected].)
Praias

O litoral de Nervi é rochoso, mas há várias áreas para mergulho, como Murcarolo (a primeira praia para quem vem de Gênova), Caprafico, perto do porto, e Capolungo, no final do passeio marítimo em direção a Bogliasco. São pequenas praias públicas de pedras.

Imperdível em Nervi é o Bagni Medusa, animado clube de praia localizado abaixo do calçadão, com restaurante muito popular e preços razoáveis, tudo sob o comando do acolhedor Maurizio Bartolaccini, uma lenda local conhecida pelo ambiente simpático que cria tanto no clube quanto no restaurante. No Medusa, há uma impressionante piscina natural entre rochas, onde as ondas frequentemente se chocam contra sua borda de pedra e renovam a água do mar. Existem vários terraços com espreguiçadeiras e fácil acesso ao mar. No verão, o Medusa é um point disputado (reserve com bastante antecedência tanto o restaurante quanto o clube de praia para os fins de semana). Algumas espreguiçadeiras da primeira fila ficam praticamente à beira da água revolta. Na hora do almoço, faça como os locais e peça as massas com frutos do mar.
Hospedagem
Como refúgio exclusivo de inverno (riviera d’inverno) durante a Belle Époque, Nervi abrigou diversas hospedagens de luxo, como o antigo Hotel Savoia Beeler, onde Hemingway se hospedou. (“Somos sempre mais felizes no Savoia”, escreveu certa vez.) Hoje, a propriedade é uma residência (apartamentos para estadias curtas ou longas com serviços de concierge) sob o nome Savoia e Savoia.
Com o tempo, muitas dessas antigas hospedagens de luxo foram convertidas para outros usos — apartamentos para aluguel, condomínios ou, durante a Segunda Guerra Mundial, hospitais. Até recentemente, Nervi tinha principalmente hotéis três e quatro estrelas e B&Bs, mas em 2024 uma opção de luxo voltou à cidade com a estreia do Capitolo Riviera, no terreno do antigo Hotel Astor.

Como propriedade cinco estrelas, o hotel mudou o jogo da hospitalidade local, dando à cidade nova projeção entre viajantes de alto padrão que visitam Gênova ou procuram um pedaço menos explorado da Riviera Italiana. “Nossos hóspedes vêm de toda a Europa, dos Estados Unidos e da América Latina”, diz Sabine Ghantous, coadministradora do hotel ao lado do marido, Paolo Doragrossa, que também é um dos proprietários.
O Capitolo Riviera (capitolo, em italiano, significa capítulo, palavra escolhida para refletir a nova fase do hotel) foi redesenhado pelo escritório de arquitetura Parisotto+Formenton. Eles transformaram a propriedade existente, uma estrutura brutalista desgastada dos anos 1970, em um refúgio verdejante que funciona como um sofisticado hotel de design, com interiores minimalistas e elegantes e lobby repleto de livros de arte e arquitetura. O hotel atrai muitos hóspedes casualmente chiques, muitas vezes millennials, grudados em seus laptops enquanto esperam amigos ou relaxados em grandes espreguiçadeiras junto à piscina interna e externa.
Os arquitetos abriram a fachada instalando janelas amplas nas áreas comuns e nos quartos para maximizar as vistas do jardim, situado em um pequeno parque com pinheiros, magnólias e ancorado por uma histórica árvore de cânfora. A maioria dos quartos e suítes possui terraços ou varandas.
A decoração, com peças de designers italianos e internacionais, além de móveis, luminárias, tapetes e tecidos sob medida em materiais naturais, tem uma atmosfera elegante, porém acolhedora, graças à paleta de tons marrons quentes e às grandes janelas que emolduram a paisagem. Embora tenha uma presença nitidamente do século XXI, o novo hotel e seu jardim imersivo se integram bem ao entorno histórico.

Com um cinco estrelas trazendo nova atenção a Nervi, ela se tornará um destino mais turístico nos próximos anos? Curiosamente, isso pode acontecer justamente se a vila não tentar ser algo que não é. “Nervi parece alinhada com uma mudança mais ampla na forma como as pessoas escolhem viajar”, diz Ghantous. “Há um desejo crescente por lugares que ofereçam espaço, autenticidade e um tipo mais lento de descoberta.” Ainda assim, ela não acredita que Nervi vá mudar dramaticamente. “Ela não foi remodelada em torno do turismo… Talvez essa seja sua força. A evolução pode ser menos visível, mas mais significativa — um posicionamento silencioso como um daqueles raros lugares que permanecem, em muitos aspectos, exatamente como são.”

*Reportagem originalmente publicada na Forbes.com